Entrevista: A justiça climática em disputa nas eleições de 2026

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Smilla Harmia

Em meio às disputas políticas das eleições de 2026, a justiça climática ganha destaque no debate sobre o futuro do Brasil. O avanço de pautas contrárias à agenda socioambiental no Congresso Nacional, os desafios para a implementação de políticas de adaptação e os possíveis retrocessos na proteção ambiental colocam em discussão a garantia de direitos fundamentais e o papel do país nas negociações climáticas internacionais. Nesta entrevista, Marcele Oliveira, eleita Jovem Campeã da Juventude da COP30, analisa os desafios da agenda climática no cenário político brasileiro e destaca a importância da mobilização popular, da cooperação internacional e do fortalecimento da sociedade civil para a construção de um futuro social e ambientalmente justo.

Pessoa de comunidade ribeirinha coletando água na margem de um rio cercado pela densa vegetação da Floresta Amazônica

1)     Na sua perspectiva, o que está em jogo nas eleições de 2026 para a justiça climática no Brasil? Diante de um Congresso cada vez mais dominado por uma bancada antiambientalista, quais são os principais desafios e as expectativas para avançar uma agenda climática?

As eleições de 2026 no Brasil são também uma luta pela soberania da América Latina. Os desafios giram em torno de uma maior qualidade de vida para as pessoas, o que inclui o direito ao verde, a uma comida com qualidade, o direito à água, a discussão sobre a quantidade de horas trabalhadas e outras pautas que estão no dia a dia da população e que não são prioridade nos debates do Congresso. 

Então, o que está acontecendo atualmente nessa campanha eleitoral é a tentativa de uma virada em que a disputa não se resume somente a “direita contra esquerda”, mas também coloca a proteção ao meio ambiente e a garantia dos direitos previstos na Constituição como prioridades que não podem ser deixadas de lado por conta de quem está no poder. 

“A proteção ao meio ambiente [...] não pode ser deixada de lado 
por conta de quem está no poder.”

A expectativa que temos, diante deste novo Congresso recém-eleito, é que a campanha eleitoral fortaleça uma mobilização popular em torno das pautas ambientais, reforçado com o legado da COP30.

2) Você afirma que “não existe justiça climática sem política de adaptação”. Como garantir políticas de adaptação efetivas nos territórios – especialmente para a segurança e proteção de populações negras, indígenas, quilombolas e periféricas – em um contexto de crescente negacionismo e resistência à agenda ambiental?

Não existe justiça climática sem política de adaptação. E para adaptar, é preciso que as cidades e os estados se responsabilizem e atuem. Precisamos de políticas de adaptação no nível subnacional.

Neste atual contexto de negacionismo e resistência, é importante trazer não só a ciência e os dados, como também mostrar quem são as pessoas mais vulneráveis. Essas pessoas já estão lidando com as consequências da mudança do clima, que não atingirão somente elas, mas todo mundo. É desproporcional? Sim, mas atingem a todos.

Então, a adaptação precisa ser também no que eu acredito: uma adaptação sobre a forma como nós, humanos, nos relacionamos com a natureza. 

A crise climática também é uma crise cultural. Vivemos em uma cultura de destruição e precisamos reinventá-la, aproximando as pessoas da natureza e, por conseguinte, das políticas ambientais e climáticas das cidades. Isso é uma forma de combater a desinformação e o negacionismo.

“A crise climática também é uma crise cultural. 
Vivemos em uma cultura de destruição e precisamos 
reinventar essa cultura, aproximando as pessoas da natureza.”

Foto: Acervo Pessoal
Marcele Oliveira. Foto: Acervo Pessoal

3) Que impactos um possível retrocesso da agenda ambiental após as eleições de 2026 teria sobre o papel do Brasil nas negociações climáticas internacionais? E, nesse cenário, qual deveria ser o papel da Alemanha e da cooperação internacional no fortalecimento da justiça climática e da sociedade civil no Brasil?

A cooperação internacional entre esses países é extremamente importante para que consigamos barrar retrocessos e dar visibilidade às denúncias locais. 

E a possibilidade de afrouxamento dos licenciamentos ambientais, dos órgãos fiscalizadores e dos canais de denúncia no Brasil é muito preocupante não somente para o Brasil, mas para todos que compreendem a importância da Floresta Amazônica e da liderança brasileira no contexto multilateral. 

É essencial fortalecermos o processo eleitoral brasileiro e, independentemente do resultado, seguirmos fortalecendo a sociedade civil brasileira que pauta o meio. Assim, podemos garantir que a soberania que tanto defendemos não se esvaia apenas por conta de um contexto político.

Marcele Oliveira. Foto: Acervo Pessoal
Marcele Oliveira. Foto: Acervo Pessoal

 

Edição: Marcelo Montenegro