Como pensar a crise climática a partir da Amazônia sem ouvir aqueles que vivem, pesquisam e criam a partir de seus territórios?
Essa foi uma das perguntas que orientaram o encontro “Ciência e Vozes da Amazônia — Multivisões sobre as relações entre seres humanos e não humanos com a natureza”, que durante a COP30, em Belém, reuniu indígenas, pesquisadores, artistas, educadores populares e ativistas socioambientais em um espaço de diálogo entre diferentes formas de conhecimento.
Para além de uma discussão acadêmica, o encontro buscou promover uma escuta ampliada sobre os modos de compreender e habitar a floresta. Ao aproximar ciência, arte e saberes tradicionais, a iniciativa partiu do reconhecimento de que a crise ambiental contemporânea não pode ser enfrentada apenas com soluções técnicas ou universais. Ela exige também uma revisão profunda das formas como a sociedade moderna construiu suas relações com a natureza.
Nesse sentido, um ponto comum atravessou a discussão: a separação entre humanidade e natureza — central na tradição científica e econômica ocidental — não dá conta da complexidade dos ecossistemas e das sociedades que vivem em relação com eles. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos frequentemente apontam que suas concepções de natureza não se encaixam nos instrumentos de compensação que estruturam as negociações climáticas globais. Assim, soluções formuladas no âmbito das conferências internacionais do clima, como a COP 30 em Belém, muitas vezes entram em tensão com tecnologias ancestrais e práticas territoriais de conservação.
Foi nesse terreno de perguntas e convergências que o encontro reuniu diferentes perspectivas. O pesquisador Artur, doutorando em Sociologia na Freie Universität Berlin e especialista em conservação e governança climática, discutiu os riscos de pontos de não retorno em sistemas socioecológicos da Amazônia e destacou a importância de integrar ciência, participação comunitária e governança climática na construção de futuros sustentáveis para a região.
A dimensão histórica da crise ambiental foi abordada por Freg J. Stokes, historiador, cartógrafo e pesquisador de pós-doutorado no Instituto Max Planck de Geoantropologia, que analisou a relação entre expansão colonial, desmatamento e resistências indígenas ao longo dos últimos cinco séculos, ressaltando o papel dessas resistências na contenção da destruição florestal.
A pesquisadora Marina Tauil, co-coordenadora do GT Biodiversidade e Bens Comuns da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e doutoranda em Direito pela UFPR, destacou o protagonismo das mulheres rurais como guardiãs das sementes crioulas e da biodiversidade, ressaltando como esses saberes e práticas agroecológicas são fundamentais para a soberania alimentar e a preservação da diversidade genética nos territórios.
Já Pedro Martins, educador popular da FASE Amazônia e doutorando em Desenvolvimento Socioambiental pelo NAEA/UFPA, trouxe uma reflexão crítica sobre os imaginários de desenvolvimento que historicamente representaram a floresta como um espaço a ser conquistado, problematizando também os limites das soluções climáticas baseadas em mecanismos de compensação financeira.
No campo jurídico, o professor Benatti, da Universidade Federal do Pará, defendeu a necessidade de superar o paradigma antropocêntrico que reduz a natureza a um objeto de uso humano e propôs pensar de forma interligada processos de genocídio, ecocídio e etnocídio, ressaltando como essas violências atravessam simultaneamente povos e ecossistemas.
A dimensão cultural e simbólica dessas transformações foi trazida pela artista e curadora Anita Ekman, coordenadora de projetos culturais do Goethe-Institut São Paulo, que refletiu sobre o papel da arte e da revisão crítica da história da ciência na construção de novos imaginários e cosmologias sobre as florestas e seus territórios.
Ao reunir perspectivas tão diversas, o encontro evidenciou que pensar o futuro da Amazônia a partir de soluções universalistas é o que já está sendo feito há muito tempo, sem sucesso. Mas que, talvez, um caminho interessante para conhecer novas perspectivas acerca da floresta seja ampliar os espaços de diálogo entre conhecimentos ancestrais, ciência, arte, movimentos sociais e iniciativas comunitárias. Para, assim, revisar e reformular o imaginário construído sobre ela.
Esta página reúne parte dessas contribuições. Mais do que registrar um evento que passou, ela busca preservar e ampliar as reflexões que emergiram desse encontro, oferecendo um espaço para que essas vozes continuem dialogando. Ao aproximar diferentes áreas do conhecimento e experiências de território, as articulações iniciadas aqui não se encerram: tornam-se ponto de partida para novas conexões, debates e possibilidades de imaginar futuros positivos para a Amazônia e para o planeta.