Soluções locais para problemas globais: pesquisadores e sociedade civil se reúnem para pensar cidades, periferias e territórios

É notório que o colapso climático global afeta a sociedade de forma desproporcional e, nesse sentido, as cidades são um dos principais palcos dessa desigualdade. Atualmente, cerca de 58% da população mundial vive em áreas urbanas, o que corresponde a 4,8 bilhões de pessoas. Deste total, aproximadamente 800 milhões vivem em condições precárias, sendo as mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.

Apresentação do Decodifica no evento Cidades, Periferias e Territórios

Nos últimos anos, o avanço do debate sobre racismo ambiental ajudou a evidenciar uma dinâmica central das cidades contemporâneas: a degradação ambiental atinge de forma mais intensa territórios pobres e periféricos. São nesses espaços que os efeitos da crise climática chegam primeiro: enchentes, alagamentos, contaminação do solo e escassez de recursos fazem parte do cotidiano.

Diante desse cenário, falar de adaptação climática passa, necessariamente, por olhar para as soluções que emergem dos territórios afetados. Em periferias urbanas e também em pequenos aglomerados onde persistem condições rurais, multiplicam-se iniciativas que propõem novas formas de adaptação e governança. Lá, as tecnologias ancestrais aliadas a abordagens contemporâneas apontam para caminhos híbridos e inovadores.

Foi a partir dessa perspectiva que o evento Cidades, Periferias e Territórios se propôs a identificar, compreender e conectar experiências que já estão em curso — muitas vezes invisibilizadas, mas fundamentais para pensar o futuro das cidades.

Ao longo do debate, ficou evidente que a adaptação climática acontece, antes de tudo, no cotidiano das comunidades. Estratégias baseadas nos próprios territórios, que articulam saberes locais, vínculos sociais e práticas coletivas, vêm se consolidando como respostas imediatas e eficazes diante de eventos extremos. Mais do que áreas vulneráveis, as periferias se afirmam como espaços de produção de conhecimento, inovação e cuidado.

Um ponto de destaque do debate foi a necessidade de romper com modelos universalizantes de desenvolvimento urbano. As cidades são diversas, assim como as formas de vida que abrigam, e soluções descontextualizadas tendem a ignorar essa complexidade. Nesse sentido, ganharam força abordagens que partem da escuta, da adaptação às realidades locais e da valorização de experiências já existentes.

Outro ponto central foi o reconhecimento de que os principais entraves à transformação não são apenas técnicos, mas políticos. Questões como distribuição de recursos, relações de poder e acesso à informação seguem determinando quais soluções avançam e quais permanecem à margem. Ao mesmo tempo, iniciativas que articulam produção de dados com protagonismo local, comunicação acessível e construção coletiva de agendas apontam caminhos para fortalecer a incidência desses territórios.

O debate também abriu espaço para imaginar novos paradigmas urbanos. Propostas que aproximam cidade e natureza, valorizam economias locais e sustentáveis e buscam formas mais equilibradas de convivência com o meio ambiente indicam a necessidade de ir além da lógica estritamente industrial. Nesse horizonte, pensar o futuro das cidades passa também por ampliar imaginários e reconhecer outras formas de existência, humanas e não humanas.

Por fim, ficou evidente que muitas dessas soluções já existem, mas ainda carecem de escala, reconhecimento e financiamento. Fortalecer redes, ampliar conexões entre territórios e garantir que essas experiências influenciem políticas públicas são passos fundamentais para avançar.

Mais do que um espaço de troca, o evento apontou para um caminho: o de construir respostas à crise climática a partir dos territórios, conectando experiências, ampliando vozes e reconhecendo que o futuro das cidades já está sendo desenhado nas periferias.