COP30: Uma conferência viva, com um gosto agridoce

Há muitos pontos de partida para falar sobre a COP 30, Conferência do Clima que ocorreu em Belém, na Amazônia brasileira, em novembro de 2025. Há quem queira iniciar falando sobre os problemas de logística que tomaram conta dos debates desde Bonn, e que mencionava o alto custo de hospedagem, as dificuldades de transporte que se aventavam e o calor excessivo na cidade. Mas colocar ênfase nisso é desmerecer o próprio planeta em que vivemos. 

COP30
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Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Mas opto por iniciar a avaliação da COP pelos seus resultados positivos. Esta foi uma COP viva, com diversidades de participantes. A COP com maior presença de povos indígenas, tendo a participação de mais de 3.500 indígenas, de 385 povos em 42 países[1]. Essa força ficou evidente nos corredores dos espaços oficiais da Conferência (Blue e Green Zone), assim como nas dezenas de espaços paralelos pela cidade de Belém. 

A Cúpula dos Povos[2] reuniu mais de 70 mil pessoas em ações e debates que buscaram denunciar as causas estruturantes da crise climática, assim como as falsas soluções apresentadas, que canalisam recursos financeiros para o setor privado enquanto povos e comunidades nos territórios continuam com muitas dificuldades no acesso a recursos e ficam de fora dos debates sobre seus territórios. Trata, portanto, de soluções que se baseiam em uma lógica focada no capital e com impactos graves nos ecossistemas e biomas. Em carta apresentada e entregue à presidência da COP30 foram apresentadas 15 propostas[3] que visam a proteção dos direitos territoriais de povos e comunidades locais e de seu protagonismo na construção de soluções climáticas. A partir de seus conhecimentos e saberes, além de uma série de ações em diversos campos, a Cúpula demanda o fim da exploração de combustíveis fósseis, taxação das corporações e mais ricos, o fomento a agroecologia e o combate ao racismo ambiental, além do fortalecimento de instrumento internacionais que defendam os direitos do território.

A Fundação esteve presente e ativa na Cúpula dos Povos, apoiando sua construção e construindo debates ao longo dos dias da Cúpula. Em especial, contribuimos para os eventos da tenda Berta Caceres[4], que proporcionou debates importantes no tema dos agrotóxicos, focando – por exemplo – nos impactos sobre os territórios eo meio ambiente da aprovação da lei do veneno (Lei nº 14.785/2023) e da desregulação da legislação ambiental (o PL da devastação, Lei 15.190, de 2025). Além disso, apoiamos uma ação de conscientização com um inflável de 12 metros[5] que pedia o fim de agrotóxicos altamente perigosos, chamados de HHP.  Também coorganizamos com outras organizações e movimentos diálogos sobre transição justa e energética – um exemplo foi o tribunal popular por uma transição justa[6] eor uma atividade sobre transição ou transação energética[7]. Também abordamos o tema da IA e sua relação com clima e mineração na pespectiva dos territórios, algo diferente dos enfoques da Blue Zone que predominantemente apresentaram a Inteligência Artifical como solução climática sem levar em conta os impactos. 

Também impressionate, foi a Macha Global pelo Clima, organizada, no dia 15 de novembro, também pela Cúpula dos Povos.   Setentamil pessoas foram às ruas de Belém que, juntos, demandaram justiça climática. Um momento impressionante, cheio de vida, que simboliza a energia e vibração dos povos[8]. A Marcha também serviu para aumentar a pressão aos negociadores que estavam na conferência oficial discutindo o acordo de Belém.

Por um lado a COP trouxe novamente os povos, movimentos e organizações da sociedade civil nos espaços de negociação – oficiais e paralelos – mas por outro houve uma forte participação do setor privado na COP, em especial de setores ligados a combustíveis fósseis e do agronegócio. Neste ponto, é importante mencionar um relatório feito pela FASE e De Olho nos Ruralistas chamado COP dos Lobbies, em que aponta como o discurso da sustentabilidade corporativa e da transição verde vem sendo instrumentalizado por empresas com extensos passivos socioambientais, transformando a cúpula climática em um balcão global de negócios e relações públicas[9] Um espaço paralelo e próximo a conferencia oficial chamado Agrizone foi promovido pela EMBRAPA com apoio de organizações como a Nestlé e a Bayer, e contou com uma série de atividades com forte participação do agronegócio. De acordo com reportagem do Joio e o Trigo, buscava-se ali reforçar a narrativa do agro sustentável. Era ausente qualquer menção sobre o agronegócio ser o principal responsável pelo desmatamento no país. Neste espaço, o tecnosolucionismo era apresentado com pompa, como o robô de inteligência artificial de 12 metros de largura que consegue pulverizar agrotóxicos combatendo pragas.

Outro grupo também  ativo nos espaços da COP, mas com o fim de ser incluído como um dos constituintes do processo da UNFCCC foi o doss parlamentares. Eles organizaram diálogos e se articularam com a sociedade civil para reivindicar este espaço, como forma de legitimara responsabilidade nos processos de implementação de ações que respondam à emergência climática, seja no campo da mitigação, adaptação ou de perdas e danos[10]. Neste campo destaca-se o papel do Grupo de Trabalho Clima da Frente Parlamentar Ambientalista, apoiado pela Fundação, que reúne parlamentares e mais de 50 organizações da sociedade civil brasileira. O GT se reuniu na  Casa Ninja Amazônica. A Plataforma Cipó também atuou neste sentido  promovendo diálogos na COP com parlamentares de vários países, além de assinar junto à outras organizações documento reivindicando este papel para o parlamento.

Ainda no sentido de incidências, com participação ativa da sociedade civil e lobby do setor privado, os negociadores estiveram ao longo das duas semanas discutindo inúmeras questões importantes. O resultado final teve um sentimento agridoce. Apesar de frustrações pela ausência do tema da eliminação gradual de combustíveis fósseis, a COP chegou a uma declaração final, mesmo diante da complexa conjuntura internacional, com a saída dos EUA do Acordo de Paris, e de uma crescente desconfiança do multilateralismo. De acordo com Claudio Angelo, Coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, em reportagem do Repórter Brasil: “O Brasil, que foi o berço da Convenção do Clima, por pouco não se torna seu túmulo”. E continua: “Belém entregou o que era possível num mundo radicalmente transformado para pior. Evitou a implosão do Acordo de Paris, hoje a única coisa a nos separar de um mundo 3ºC mais quente”.[11]

O tema da transição para a eliminação gradual de combustíveis fósseis, vocalizado pelo presidente Lula em suas falas iniciais na COP30,   tinha promessa de que  apareceria em um roteiro de caminho proposto pelo Brasil e discutido com inúmeros países, com apoio de Colômbia, Reino Unido, França entre outros. Entretanto na declaração final, não houve nenhuma menção a combustíveis fósseis. Mas a presidência da COP30,  se comprometeu a utilizar o restante de seu período nesta função para desenvolver o roteiro[12], assim como também um outro roteiro para desmatamento zero. A Colômbia também anunciou que irá organizar, junto com a Holanda,  uma conferência internacional para a eliminação de combustíveis fósseis entre os dias 28 e 29 de abril na cidade de Santa Marta, na Colômbia[13].

O principal ponto neste debate está no tempo. É cada vez mais urgente que se tome ações para a eliminação de combustíveis fósseis, o que é contrastado pela morosidade dos processos de negociações da COP, potencializado pelo intenso lobby de setores petroquímico e por países produtores de petróleo. 

Uma importante conquista obtida a partir da pressão da sociedade civil foi no campo da transição justa. O mecanismo de ação de Belém, popularmente chamado de BAM, foi aprovado. Trata-se de uma proposta construída por organizações e redes, que organiza um caminho para que países em desenvolvimento possam promover sua transição sem deixar trabalhadores e comunidades para trás. Para saber mais sobre o BAM, acesse aqui:  https://www.instagram.com/p/DRe7RjQEUCc/ 

Outra vitória, com alguns entraves, foi a adoção da meta global de adaptação com indicadores. De acordo com reportagem do Infoamazonia[14], houve uma preocupação de países africanos e latino-americanos de que esses indicadores fossem usados como critérios para acesso a financiamento, e por isso a discussão foi bastante intensa, com uma aprovação de 59 indicadores dos 100 iniciais propostos por especialistas. Alguns processos continuarão até a COP32 (que ocorrerá na Etiópia) na chamada “Visão de Belém-Addis” sobre adaptação, com o objetivo de refinar as metodologias, mas a decisão foi reconhecida por grupos de ambientalistas como um progresso, pois traz uma nova forma de medir ações de combate a emergência climática, mais focada nas pessoas e em seus territórios (atualmente a forma hegemônica de medir a ação climática é por meio do carbono, que sofre críticas pelo processo de financeirização, como o mercado de carbono).

Ainda no campo da adaptação, o documento final menciona em triplicar o financiamento para adaptação, chegando a 120 bilhões de dólares até 2035, mas não aponta referências sobre implementar esta proposta. E o prazo para triplicar o valor contrasta com a urgência desse recurso pelos países em desenvolvimento. /este é o principal entrave indicado por países em desenvolvimento em seus planos de adaptação para sua implementação.

No campo do financiamento, o governo brasileiro apresentou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, do inglês Tropical Forest Forever Facility), que busca construir uma forma de pagamento para que países que possuem florestas tropicais possam manter suas florestas em pé. A proposta recebeu elogios e críticas pela sociedade civil. O INESC produziu uma nota técnica com mais detalhes sobre alguns pontos polêmicos da proposta, que pode ser visto aqui:  Durante a COP30, o fundo recebeu endossos de 63 países e anúncios de recursos de alguns países, totalizando US6,7 bilhões de dólares (abaixo ainda dos 25bilhões de dólares previstos para captar)[15]. Importante observar os próximos meses para saber se esses anúncios serão transformados em compromissos e se o fundo irá ser efetivamente implementados, visto que os valores ficaram aquém do que era planejado.

Ainda no campo financeiro, houve uma decisão que cria um programa de trabalho de dois anos sobre financiamento climático no contexto do artigo 9 do Acordo de Paris, como forma de buscar a aceleração da implementação com cooperação econômica. Entretanto deixa em aberto ainda questões mais complexas como volume de recursos e obrigações diferenciadas. Mais informações sobre financiamento climático e COP30 podem ser lidas no artigo O otimismo do Mutirão foi posto à prova na COP30 em Belém. escrito por mim e minhas colegas dos escritórios da Fundação de Washigton Liane Schalatek e da sede Linda Schneider. Vale ressaltar as menções explicitas a afrodescendentes do texto da decisão, reconhecendo a importância dessas populações no combate às mudanças climáticas, algo inédito em declarações da COP. No texto do plano de ação de gênero também há um reconhecimento da contribuição de mulheres e meninas de ascendência africana para a ação climática.

Os desafios são grandiosos e complexos, mas temos caminhos e Belém nos mostrou que a sociedade civil segue potente e apontando caminhos para lidarmos com a crise. Nós da Fundação seguiremos firmes e fortes contribuindo por justiça climática juntos aos parceiros. 

Para uma análise mais ampla e diversa, convido a leitura  dos materiais que menciono abaixo. 

Frente Ambientalista: https://www.frenteambientalista.com/post/entenda-o-pacote-de-bel%C3%A9m-que-inclui-29-documentos-aprovados-na-cop30
 


[10] Perdas e Danos ocorrem quando os impactos das mudanças do clima não são mais passíveis de ações de mitigação e nem de adaptação, se tornando permanentes. Link: https://reporterbrasil.org.br/2025/11/o-que-sao-perdas-e-danos/