“Não é sobre um fato, é um sentimento”: juventude, pertencimento e o avanço da extrema direita

“Não é sobre um fato específico, é mais sobre um sentimento.” Foi isso que respondeu um jovem alemão de 22 anos quando perguntei se ele já havia vivido ou presenciado alguma situação concreta de perigo causada por um imigrante ou refugiado que justificasse sua defesa da deportação em massa como principal luta política. A frase ficou ecoando na minha cabeça por semanas.

Alemanha

Eu o entrevistei recentemente, durante uma série de conversas com jovens ligados à extrema direita na Alemanha. Ele já estava profundamente envolvido com grupos identitários e supremacistas brancos. Não soube explicar exatamente quando ou por que começou. Disse apenas que cresceu em uma cidade pequena, majoritariamente habitada por alemães, e que se aproximou desses grupos aos 15 anos. Falava contra a chamada “ideologia woke” e a “ideologia de gênero”, era agressivo e influente nas redes sociais. Ao vivo, porém, parecia pequeno, frágil, falava baixo, com frases vagas, quase ensaiadas.

Aquela resposta, “não é sobre um fato, é um sentimento”, diz muito sobre as motivações mistas e ainda um pouco borradas sobre o que têm feito jovens e adolescentes se aproximarem de forma tão acelerada, da extrema direita em diferentes partes do mundo.

Um fenômeno que parecia impensável

Nas eleições alemãs de fevereiro de 2025, o partido de esquerda Die Linke venceu entre jovens de 18 a 24 anos, com 25% dos votos. Mas logo atrás apareceu o partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha, em alemãoAlternative für Deutschland), com 21%. Segundo pesquisadores alemães, esse cenário (da rápida escalada da extrema direita) seria simplesmente impensável poucos anos atrás.

Com um trabalho de memória pós Holocausto reconhecido e admirado no mundo todo, é assustador ver o ultranacionalismo voltar à Alemanha após pouco mais de 80 anos. 

É impossível caminhar pelas ruas de Berlin, por exemplo, sem esbarrar em um monumento às vítimas do Holocausto, um museu, ou as famosas Stolpersteine, pequenas placas de latão dispostas nas calçadas, em frente à última residência de vítimas do nazismo, principalmente judeus, com seus nomes e destinos, para trazer de volta sua memória e identidade.

Nas escolas, a história sobre o período nazista também é incisivamente apresentada aos jovens. No entanto, a AfD tem crescido vertiginosamente entre eles, inclusive entre alguns descendentes de imigrantes. 

Ouvi de uma pesquisadora turca[1] que investiga a atuação de jovens identitários alemães no TikTok que, além da tendência transnacional desse movimento e tudo que a levanta, no caso da Alemanha esse fato também se relaciona com a ideia de pertencimento a um grupo e a uma nação. Embora muitas vezes até a segundas e terceiras gerações de imigrantes que vivem no país esse pertencimento seja negado.  Mas isto também se relaciona com a maneira como o período do nacional-socialismo tem sido apresentado às novas gerações - a partir de um lugar de culpa e vergonha, mais do que a partir da ideia de enfrentar suas raízes e trabalhar nos medos e frustrações atuais com relação às comunidades diaspóricas que vivem hoje no país. 

O Holocausto é posto como um evento isolado, essencialmente ligado aos judeus, e que nunca mais vai acontecer. “Nie wieder” é o lema, mas a premissa é a de que isso acabou faz tempo e que não há mais motivos para que os alemães “andem envergonhados, de cabeça baixa e não possam ter orgulho da pátria”, como ouvi mais de uma vez em eventos da AfD.

Em 2026, a Alemanha terá cinco eleições regionais importantes. A AfD vem crescendo consistentemente nas pesquisas, especialmente no leste do país. Na Saxônia-Anhalt, por exemplo, o partido aparece com cerca de 40% das intenções de voto, o que pode permitir a formação de um governo sem necessidade de coalizão.

Ao mesmo tempo, a AfD decidiu dissolver sua antiga organização juvenil, a Junge Alternative, no início de 2025. Oficialmente, a decisão foi tomada porque o grupo se tornara um “problema” para o partido: seus membros acumulavam escândalos, declarações abertamente extremistas e vínculos com organizações classificadas pelos serviços de segurança alemães como antidemocráticas e inconstitucionais.

No lugar, surge agora a chamada “Geração Alemanha” (Generation Deutschland), uma nova organização juvenil ligada ao partido. O centro de sua plataforma política é a promoção da deportação em massa - termo frequentemente suavizado pelo eufemismo “remigração”. 

Vale dizer que o evento de lançamento da organização foi atrasado em duas horas por manifestantes que bloquearam vias dentro da cidade de Giessen, no oeste alemão, e arredores, segundo a Deutsch Welle , que também estimou o total de manifestantes entre 25 e 30 mil.

Mas em paralelo, integrantes da AfD têm intensificado esforços para alcançar jovens: participam de eventos gamers, visitam escolas, organizam encontros voltados a adolescentes. O alvo é claro: meninos brancos, heterossexuais, que dizem não se sentir representados pela chamada “agenda de gênero”.

Um movimento global e conectado

O que acontece na Alemanha não é um caso isolado. A identificação de jovens e adolescentes com ideias ultraconservadoras, supremacistas, neonazistas ou libertárias radicais tem crescido na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Também é transnacional - recentemente integrantes de grupos identitários alemães postaram nas redes sociais fotos de uma visita que fizeram à Casa Pound (associação e movimento neofascista), na Itália.

No Brasil, também multiplicam-se casos de adolescentes ligados a grupos neonazistas ou que utilizam códigos, símbolos, roupas e gestos associados ao fascismo. Um estudo do Atlas Intel em parceria com a Bloomberg, publicado em dezembro de 2025, mostrou que entre jovens da geração Z, de 16 a 28 anos, 52% se identificam como de direita no Brasil.

Dados do Censo do IBGE de 2022 indicam que os jovens puxam o crescimento evangélico no país, com percentuais expressivos entre 10 e 14 anos (31,6%) e 15 a 19 anos (28,9%). Evidentemente, não se pode generalizar - nem todo evangélico é ultraconservador -, mas grande parte da representação política dessas igrejas hoje está alinhada à direita e à extrema direita.

A pesquisa “Juventudes: Um Desafio Pendente”, da Fundação Friedrich Ebert, ajuda a entender esse deslocamento. O estudo ouviu mais de 22 mil jovens em 14 países da América Latina e do Caribe. No Brasil, 38% se identificam com a direita, sendo 17% com a extrema direita; 44% se dizem de centro e apenas 18% de esquerda. Homens aparecem mais alinhados a valores conservadores, enquanto mulheres tendem a defender pautas progressistas.

Há também uma crise profunda de confiança: 57% não confiam nos partidos políticos, 45% na Presidência e 42% no Legislativo. Igrejas, universidades e meios de comunicação aparecem como instituições mais confiáveis. As redes sociais são hoje a principal fonte de informação política para 57% dos jovens.

Lideranças como exemplo, estética e desejo

Esse deslocamento não acontece sem referências. Pelo contrário: ele se ancora fortemente em figuras políticas que funcionam como modelos simbólicos, exemplos de sucesso, coragem e transgressão.

Uma vez perguntei a um integrante da organização ultraconservadora católica de extrema direita polonesa “Ordo Iuris” qual era sua hipótese de porque os adolescentes têm se atraído a ideias ultraconservadoras e ele respondeu algo parecido com o título do livro do jornalista argentino Pablo Stefafoni (A rebeldia tornou-se de direita): “Hoje ser de direita é transgressor, rebelde, revolucionário. Os jovens gostam de quem diz o que pensa sem medo de ser cancelado ou politicamente incorreto”. 

Javier Milei, na Argentina, talvez seja um exemplo. Para muitos jovens, ele encarna a ideia de rebeldia contra “o sistema”, contra o Estado (apesar de fazer parte dele) e contra a política tradicional. Lembre-se: não é sobre fatos. Sua estética, sua linguagem violenta, a motosserra como símbolo e a promessa de destruição das instituições são vendidas como autenticidade. Milei aparece como alguém que “fala o que pensa”, sem medo, sem filtros.

Nos Estados Unidos, Donald Trump também se torna cada vez mais fascista. Não apenas no discurso autoritário, na invasão de países e em todos os crimes contra a humanidade, o direito internacional e às bases democráticas dos Estados Unidos, mas também no uso deliberado de símbolos históricos do fascismo. 

Um exemplo recente é o “bigode de leite”, que Trump ostentou recentemente em suas redes sociais. O leite foi historicamente associado à ideia de superioridade branca, alimentada por discursos pseudocientíficos que vinculavam a tolerância e o consumo do produto à inteligência, progresso e pureza racial, em oposição a populações racializadas. 

À primeira vista, a imagem divulgada pelo governo dos Estados Unidos mostrando Donald Trump com um bigode de leite pode parecer apenas uma brincadeira publicitária para incentivar o consumo de leite integral. Mas, em política, símbolos nunca são neutros, sobretudo em um país marcado pela ascensão da extrema direita, pelo crescimento do neonazismo e pela normalização do autoritarismo no debate público. 

Trata-se de uma mensagem codificada (dog whistle ou "apito de cachorro"): algo aparentemente banal, mas carregado de significado político para grupos extremistas.

Nayib Bukele, presidente de El Salvador, também ocupa cada vez mais um lugar importante nesse imaginário: o do líder jovem, “cool”, eficiente e implacável. Para muitos adolescentes, ele representa uma extrema direita “moderna”, que prende em massa, governa com mão de ferro e se comunica diretamente pelas redes sociais, sem pedir desculpas. 

Para parte da juventude, essas figuras têm conseguido vender a imagem de clareza simbólica (discursos simples, rasos, diretos, ainda que falsos), inimigos bem definidos e promessas (fantasiosas) de ordem em meio ao caos.

Formação, pertencimento e investimento

Mas esse avanço também é resultado de investimento pesado em formação política. Em 2022, me infiltrei na primeira Cúpula Transatlântica do Political Network for Values, em Budapeste. Vi adolescentes e jovens, entre 16 e 20 anos, de diversos países, declarando publicamente compromisso com pautas ultraconservadoras, contra direitos reprodutivos e direitos LGBTQIA+, sobretudo das pessoas trans.

A organização oferece cursos de formação política com tudo pago, ministrados por políticos em exercício. No ano seguinte, esses cursos passaram a durar seis meses, com bolsas integrais e viagens internacionais, incluindo encontros com líderes como José Antonio Kast, novo presidente do Chile e uma figura consolidada da extrema direita internacional.

Outras organizações fazem o mesmo. A Students for Liberty, já muito ativa no Brasil, oferece cursos, financiamento para células universitárias, vagas de emprego e uma narrativa libertária radical que celebra o individualismo extremo e demoniza qualquer forma de ação coletiva.

Em abril de 2024, estive em Praga, na LibertyCon Europe, o maior evento “pró-liberdade” da Europa. Jovens lotavam palestras sobre anarcocapitalismo, desobediência às leis, destruição do Estado e exaltação do governo Milei. O que vi ali não foi apenas ideologia, mas formação de comunidade, pertencimento e promessa de futuro.

Medo, ressentimento e futuro sequestrado

Vivemos um tempo de múltiplas crises: climática, econômica, política, democrática. Jovens da geração Z e millennials são profundamente pessimistas em relação ao futuro. Segundo a pesquisa da Fundação Friedrich Ebert, 35% acreditam que terão menos oportunidades do que seus pais. Mais da metade da geração Z se diz pessimista quanto ao futuro financeiro.

É nesse cenário que a extrema direita prospera. Ela oferece respostas simples para problemas complexos, cria pânicos morais, oferece uma falsa sensação de pertencimento, apresenta a volta a um passado idílico ou vende a ideia de que a tecnologia e a IA vai salvar o futuro, transforma insegurança em ódio e vende o autoritarismo como rebeldia.

E nós?

A pergunta que me persegue nas conversas com a juventude de extrema direita e nas incursões nesses eventos é simples e incômoda: o que estamos fazendo, nós progressistas, defensores de direitos humanos, a esquerda, diante disso?

É claro que há avanço e luta, sobretudo por parte dos movimentos sociais. Mas essas precisam ser questões que nos acompanham diariamente, incansavelmente.

Estamos falando com a juventude? Criando espaços reais de escuta, formação e comunidade? Ou seguimos tratando esse avanço como algo marginal, passageiro, irrelevante?

“Não é sobre um fato específico, é mais sobre um sentimento”. A extrema direita entendeu que o futuro se disputa na imaginação e no desejo dos jovens. 

Mas talvez a solução para o campo progressista não esteja exatamente no “disputar” a subjetividade da juventude, mas sim em ouvir de fato e criar junto novas possibilidades de futuro.


[1] Que não pode ser identificada por trabalhar infiltrada.