Para quem vive em áreas de conservação como as reservas extrativistas do estado do Acre, localizado no noroeste do Brasil, na fronteira com Peru e Bolívia, a floresta não é uma paisagem distante nem um conceito ambiental abstrato. Ela é casa, trabalho, memória e futuro. É o lugar onde famílias construíram suas vidas por gerações, onde as crianças aprendem desde cedo a reconhecer a estação chuvosa, os sons dos animais e o valor da comunidade. Ao mesmo tempo, é um território marcado por disputas históricas, desigualdades persistentes e a ausência do Estado na garantia dos direitos básicos.
O contexto
As reservas extrativistas, como tipo de unidade de conservação, foram criadas pelo governo brasileiro após famílias de seringueiros que viviam nas florestas do Acre se aliarem a povos indígenas e movimentos sociais em resistências e mobilizações para impedir a privatização e o desmatamento da floresta para pecuária nos anos 1970 e 1980. Essas populações se organizaram em sindicatos de trabalhadores rurais e se autodenominaram populações extrativistas para destacar a importância da coleta (extração) de frutas, cascas, folhas e sementes da floresta para seu sustento sem danificar o ecossistema. Junto com outras comunidades da bacia amazônica brasileira, criaram o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) em 1985. Desde então, o CNS tem sido um importante motor de políticas adaptadas às populações das reservas extrativistas e representante das demandas locais.
Na década de 1980, a luta dos seringueiros ganhou atenção internacional e demonstrou que era possível viver da floresta sem destruí-la. Seu objetivo era ser reconhecido como populações tradicionais com cultura ligada à floresta e, assim, legitimar demandas por direitos de uso da terra nos lugares que já habitavam. Como consequência, na década de 1990, o governo brasileiro criou um tipo de unidade de conservação chamada "reserva extrativista", com o duplo objetivo de proteger o ecossistema e permitir um estilo de vida baseado na floresta, com coleta de produtos florestais não-madeireiros, como borracha e castanha-do-pará, agricultura de subsistência e criação de pequenos animais.
No entanto, décadas após sua criação, os jovens que vivem nesses territórios hoje—especialmente a Geração Z—enfrentam novos desafios que colocam em questão não só sua permanência na floresta, mas também o futuro das reservas extrativistas como modelo de conservação.
Este artigo baseia-se em entrevistas com jovens das Reservas Extrativistas (ou RESEX): Chico Mendes, Alto Juruá, Alto Tarauacá, Cazumbá-Iracema e Riozinho da Liberdade. Com base em seus depoimentos, refletimos sobre como esses jovens percebem o presente, imaginam o futuro e constroem sonhos muitas vezes mais coletivos do que individuais. Assim, buscamos responder a uma questão central: o que permite, ou impede, que os jovens da floresta sonhem com um futuro em seus territórios?
Este artigo surge também de dois caminhos que se cruzam: o de Laiane, que há anos vive com, escuta, conversa e mobiliza jovens de várias comunidades nas RESEX por meio de oficinas, rodas de conversa, reuniões e viagens por estradas de terra e de barco; e o de Claudia, pesquisadora que busca entender como esses jovens estão enraizados nesses territórios e que significados constroem sobre seus futuros. Juntamos experiência prática, pesquisa e as vozes da juventude das reservas extrativistas para escrever este texto.
A floresta como lar
As cinco reservas extrativistas em foco neste artigo são muito mais que um mapa ou categoria de proteção ambiental. São comunidades, rios, histórias de luta e resistência. São os lugares onde muitas famílias construíram suas casas e criaram seus filhos, forjando laços comunitários com vizinhos e vivendo do que colhem na floresta.
Mas são também territórios que carregam cicatrizes profundas: a repressão violenta dos empates – estratégias de resistência pacífica para defender contra o desmatamento; os assassinatos de defensores de terra como Chico Mendes e Wilson Pinheiro; e as consequências sociais e econômicas do abandono do Estado. No entanto, as mesmas comunidades que sofreram esses desafios conseguiram obter direitos de uso da terra e iniciar projetos de benefício próprio por meio de esforços coletivos. Essa história não é só o passado; é o pano de fundo com que os jovens vivem hoje.
No presente, quem vive nas comunidades das RESEX, especialmente a Geração Z, enfrenta uma realidade cheia de contrastes: têm uma floresta que os ensina e acolhe, mas a falta de políticas públicas limita suas oportunidades. Lidam com fumaça de incêndios, educação precária e distância de serviços essenciais, mas carregam dentro de si uma enorme esperança por um futuro melhor e conhecimento intergeracional sobre a floresta.
Conhecendo o território pela educação popular ou formal
Uma das grandes vitórias do movimento socioambiental dos anos 1980 foi um programa de educação auto-organizado chamado Projeto Seringueira, em homenagem à árvore que sustentou financeiramente muitas famílias acreanas por décadas. Inspirado nos métodos de pedagogia popular de Paulo Freire, esse programa não só alfabetizou, mas também ensinou a importância da organização comunitária coletiva (cooperativismo) para as pessoas dos territórios que, nos anos 90 e 2000, se tornaram reservas extrativistas.
Com o Projeto Seringueira, centenas de seringueiros e seus filhos aprenderam a ler e escrever de forma contextualizada. No entanto, o programa de alfabetização foi institucionalizado pelo estado do Acre em 2008 e depois substituído por escolas estaduais seguindo o currículo nacional. Desde então, muitos moradores das RESEX questionam por que as escolas dedicam mais atenção às questões do sul do Brasil e cidades como São Paulo e Rio de Janeiro do que às condições e história dos territórios que habitam.
Nesse contexto, professores podem se tornar agentes importantes que adaptam o currículo escolar à realidade local. Por exemplo, entrevistamos uma professora do ensino médio no Seringal Floresta, na Reserva Extrativista Chico Mendes, durante a estiagem de 2024. Ela ensinou sobre mudanças climáticas pedindo que os alunos fotografassem incêndios florestais e igarapés próximos de suas casas. Os alunos também tiveram que perguntar ao membro mais velho da família, muitas vezes um avô, sobre a disponibilidade de água no passado. Todos relataram que o igarapé nunca secava antes. A professora notou que um aluno lhe disse: "Professora, se está assim agora, imagine como vai ser no futuro. Meu pai e tio disseram que isso não acontecia no igarapé antes."
Nos últimos dois verões amazônicos, aumentou o número de igarapés que secaram, causando estresse às famílias, pois a terra onde plantam comida fica sem água. Além disso, se o igarapé seca, há escassez de água potável.
Essa situação tem impactos desiguais na vida diária da família, afetando especialmente mulheres e meninas, que têm que caminhar longas distâncias para buscar água, ao mesmo tempo em que torna a agricultura de subsistência mais difícil.
Entre migrar ou ficar no seringal
As condições precárias nas RESEX, como serviços de saúde ruins, estradas que viram lama na chuva e dificultam a mobilidade, falta de renda garantida, desvalorização do modo de vida dos seringueiros e currículo escolar inadequado, dificultam a vida da população local.
Muitos reconhecem essas dificuldades, mas ao mesmo tempo não romantizam a vida na cidade. Como comentou um jovem morador da reserva em entrevista, a floresta é "uma oportunidade que temos para nos desenvolver, para garantir nossa própria sobrevivência... porque estamos na floresta e temos o espaço para plantar verduras como arroz ou feijão, mandioca, para fazer farinha. Temos tudo! Não temos isso na cidade. Na cidade, estamos ali naquele terreninho de 20 por 30 metros, e nesse terreninho você não faz nada!"
Quem não é da floresta muitas vezes pensa que os jovens querem migrar para as cidades, mas muitos jovens das RESEX querem ficar no Seringal, unidade de bairro dentro das reservas extrativistas. O que muitas vezes acontece é que as condições de vida na reserva não permitem que fiquem. Ao mesmo tempo, a cidade se apresenta como um lugar onde os sonhos podem se realizar ou onde pelo menos é possível ganhar renda para sustentar a família.
Além disso, a maioria dos habitantes das RESEX no Acre tem parentes na cidade ou já viveu lá por alguns meses. Por isso, conhecem as dificuldades da cidade, onde, como muitos dizem, "tudo se compra". Na RESEX, com acesso à terra e floresta cheia de produtos florestais não-madeireiros, as famílias não precisam de tantos recursos econômicos quanto na cidade, que não permite plantar ou criar animais, forçando as pessoas a comprar quase tudo para sobreviver.
As vozes da Geração Z na floresta
Enquanto a juventude urbana cresce conectada ao TikTok, a juventude das RESEX adquire conhecimento por meios mais variados: a vida comunitária, o ritmo da floresta e—quando o sinal permite—o mundo digital também. Nos últimos três anos, a internet chegou, primeiro nas escolas comunitárias e agora, aos poucos, nas casas. Isso permitiu que os jovens acessassem um mundo globalizado cheio de música, memes e informações.
A internet dá aos jovens a possibilidade de continuar os estudos de casa na floresta. No entanto, alguns ainda precisam viajar para cidades próximas para prosseguir os estudos ou concluir cursos universitários, deixando-os com um pé dentro e outro fora da reserva. Com uma moto, a juventude da floresta pode ir à cidade e voltar, atuando como pontes entre estilos de vida diferentes. Assim, internet e maior mobilidade abriram novos horizontes, mas essas oportunidades também trouxeram comparações dolorosas com realidades muito diferentes. Ainda assim, quando a juventude das RESEX fala do futuro, há sempre uma esperança teimosa de ter o melhor dos dois mundos.
A floresta como parte da família
Para muitos jovens, a floresta não é o "meio ambiente"; é família. É a fonte de vida da comunidade: fornece água, comida, sombra, renda, histórias e também medos. Falam da floresta com afeto e ao mesmo tempo com preocupação, pois sentem que ela está sofrendo. Eles, que conhecem os ritmos, sons, cores e cheiros da floresta, observam que macacos agora invadem as roças e comem mais frutas. Suspeitam que, devido às mudanças climáticas, os animais se aproximam das áreas humanas em busca de comida, pois a floresta pode não fornecer os mesmos recursos de antes.
Os jovens das reservas extrativistas dizem que a cidade não entende a vida comunitária baseada nos ritmos e características da floresta, como viver sem destruí-la e a importância de respeitar os ciclos da natureza. Querem que a sociedade entenda que viver na floresta exige conhecimento, esforço e sabedoria e que a floresta não é um espaço vazio, mas um território cheio de vida. Quem está na cidade deve valorizar esse modo de vida ancestral e suas tecnologias.
Sonhos individuais e coletivos
Os sonhos individuais dos jovens nas RESEX envolvem profissões ligadas a cuidar dos outros e do território, como professores, agentes ambientais, enfermeiros, agroextrativistas ou empreendedores florestais. No entanto, quase todos esses sonhos se conectam a um desejo maior: não precisar sair da RESEX para viver com dignidade.
Os sonhos coletivos são ainda mais definidos. Jovens falam de comunidades unidas, escolas que ensinam a história da floresta, renda do extrativismo (coleta de castanha-do-pará, borracha e outros produtos florestais não-madeireiros), políticas públicas pensadas para quem vive na floresta e respeito às tradições. Sonham com uma RESEX viva e habitada, com jovens participando das decisões que afetam os territórios.
Para esses jovens que cresceram sabendo trabalhar com a floresta, coletando castanha na chuva, cuidando de roças que dão arroz, feijão, mandioca e outras hortaliças e frutas, é importante que o currículo escolar e o ensino superior apoiem as reservas com conhecimentos que fortaleçam os estilos de vida rurais e capacitem os moradores em novas tecnologias que melhorem suas vidas.
O futuro das RESEX
Quando perguntamos sobre o futuro, dois cenários emergem.
Muitos jovens acreditam que, se nada mudar, o gado só vai aumentar nas RESEX. É importante lembrar que esse modelo de conservação foi criado em resposta a ameaças de grandes fazendeiros que queriam desmatar áreas florestais para criar gado.
Por muitos anos, essas florestas abrigaram famílias de seringueiros que entendiam que perderiam seu sustento se os fazendeiros tomassem essas áreas. Hoje, mais de 40 anos após essas lutas, a pecuária ilegal em algumas reservas é uma atividade econômica que ganha terreno porque permite às famílias ganhar mais renda, causando tensões nas comunidades e com instituições governamentais. Muitos justificam a atividade porque permite economizar para despesas de emergências. O quadro é bem variado nas RESEX: algumas famílias dependem principalmente de produtos florestais não-madeireiros e políticas sociais do Estado, enquanto outras estão mais envolvidas na pecuária.
Os jovens acreditam que esse desenvolvimento indica que as RESEX precisam diversificar as atividades econômicas que geram renda adequada para competir com a pecuária. Se isso não acontecer, temem que o desmatamento aumente, junto com problemas ambientais como a fumaça de incêndios florestais causados pelo homem e a escassez de água.
Dado que os jovens eventualmente precisarão ganhar a vida, temem que, se a economia local não melhorar, mais jovens sejam forçados a sair das RESEX. Outro cenário futuro que preveem, se não houver diversificação de alternativas econômicas nas reservas, é que o extrativismo será menos praticado, levando à perda da cultura e patrimônio das populações engajadas na extração de borracha.
Quando o dia a dia é difícil, sonhar vira luxo
Imaginar o futuro nem sempre é acessível a todos da mesma forma, porque quando o dia a dia é difícil, sonhar vira luxo. Diante de uma vida cotidiana desafiadora, com falta de educação básica, serviços de saúde e renda, e efeitos intensos das mudanças climáticas, os jovens podem sonhar, mas é difícil realizar muitos sonhos devido às circunstâncias.
Mesmo assim, a juventude da Geração Z nas RESEX—alguns vivendo com medo por causa de violência e facções criminosas no território—luta por suas vidas, futuros, famílias e comunidades, se envolvendo em organizações comunitárias e projetos locais que buscam fortalecer as cadeias produtivas da floresta.
Organizações comunitárias como o Coletivo Varadouro, grupo de jovens extrativistas das cinco reservas extrativistas do Acre, servem como pontos de encontro. Eles se reúnem, às vezes presencialmente e às vezes digitalmente, para coordenar interesses e ouvir os sonhos e preocupações dos jovens. É ali e em outros encontros com familiares, sindicatos, associações comunitárias e parceiros como o Comitê Chico Mendes que os jovens percebem que seu sonho não é só deles, mas de toda uma geração.
Esses grupos contribuem para preservar a memória histórica, continuando o trabalho que seus avós iniciaram. Avós transmitem memórias territoriais importantes ao relembrar como a terra foi conquistada, ao caminhar na floresta com crianças e jovens explicando o uso de uma planta ou quem são os guardiões das florestas. Jovens acreditam que é importante fortalecer a conexão com a história das RESEX e reconhecem que, mesmo se as terras mudarem, há uma base que querem preservar, construída no amor pela floresta e respeito pelas pessoas que guardaram esse território para eles viverem hoje.
Juventude e Justiça Socioambiental
A Geração Z nas RESEX tem preocupações, medos e incertezas, mas também grande potencial. Ouvir esses jovens é essencial para entender o futuro da Amazônia, floresta tão cultural e biologicamente diversa justamente por como povos indígenas e outros seres a habitam. As vozes da juventude da floresta ilustram que há um caminho, alternativas e esperança, desde que sonhem não só individualmente, mas coletivamente.
Os jovens das reservas extrativistas querem ser ouvidos. Querem que suas ideias sejam consideradas nas decisões, que suas experiências tenham peso e que seu conhecimento seja reconhecido. Entendem que a justiça socioambiental não é só preservar a floresta, mas também permitir que pessoas, culturas, memórias e modos de vida floresçam e continuem existindo.
O futuro das RESEX está em suas mãos. O mundo precisa aprender a escutar suas vozes.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as opiniões da Fundação Heinrich Böll.
Esta contribuição faz parte do dossiê:
Gen Z: Voices of a Global Generation
O dossiê examina movimentos e coletivos liderados por jovens, suas estratégias e suas visões para um futuro justo. Também explora as raízes de seu descontentamento e sua expressão nos espaços digitais e nas artes, reunindo vozes e perspectivas de jovens de diferentes partes do mundo. A publicação apresenta a diversidade dos movimentos liderados por jovens em vários formatos.
Este artigo apareceu primeiro aqui: www.boell.de