Eleições cruciais na Colômbia: uma decisão sobre democracia, segurança e transformação social

Evelyn Hartig*

Por que Abelardo de la Espriella conseguiu conquistar tantos eleitores?

As eleições presidenciais de 2026 representam um ponto de inflexão dramático para a Colômbia. Nunca antes o país havia estado tão profundamente dividido do ponto de vista político. O resultado extremamente apertado entre o candidato ultradireitista Abelardo de la Espriella e o candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda, demonstra que estavam em disputa duas visões muito diferentes do futuro nacional.

Eleições presidenciais na Colômbia

Ao mesmo tempo, surge a pergunta de como um candidato como De la Espriella conseguiu mobilizar um apoio tão amplo em tão pouco tempo.

Seu sucesso não pode ser explicado somente por sua figura pessoal. Sua campanha se conectou com emoções coletivas que vinham se acumulando por anos. A insegurança, a decepção com as instituições políticas, o medo da criminalidade e dos grupos armados, assim como a percepção de uma perda de controle por parte do Estado, criaram um terreno fértil para um candidato que oferecia respostas simples a problemas complexos.

Um dos fatores centrais foi a situação da segurança. Embora a Colômbia tenha avançado no processo de paz e o governo de Petro tenha impulsionado a política da "Paz Total", muitas pessoas perceberam que os grupos armados estavam recuperando a influência em regiões distintas. Especialmente nas zonas rurais, a presença de dissidências das antigas FARC, o ELN e outros atores armados gerou uma sensação permanente de insegurança. A isto se somam o aumento das extorsões, episódios de violência local e a expansão de economias ilegais.

Respostas simples para desafios complexos

De la Espriella soube aproveitar politicamente estas preocupações. Sua mensagem era simples e emocionalmente efetiva: o Estado havia perdido o controle e deveria recuperar com toda força possível. Enquanto Iván Cepeda apostava no diálogo, na implementação do Acordo de Paz e na abordagem das causas estruturais da violência, De la Espriella prometia um retorno à política da "mão dura". Questionou de maneira geral as negociações com grupos armados e anunciou uma militarização da política de segurança. Para muitos eleitores que esperavam soluções rápidas, esta proposta foi mais convincente do que as estratégias de reforma de longo prazo.

Assim, De la Espriella se beneficiou do descontentamento com o governo de Gustavo Petro. Embora a administração tenha impulsionado reformas importantes em áreas como a política social, a reforma agrária e a transição energética, muitos de seus objetivos não se concluíram ou enfrentaram uma forte resistência da oposição no Congresso. As altas expectativas geradas pela eleição histórica do primeiro presidente progressista de esquerda na Colômbia, Gustavo Petro em 2022, não puderam se cumprir plenamente. Muitos cidadãos avaliaram o governo principalmente a partir dos resultados em matéria de segurança e menos por seus avanços sociais. Isto contribuiu para criar um clima político em que uma parte da população esteve disposta a respaldar uma mudança de rumo radical.

Outro fator chave do sucesso de De la Espriella foi a sua capacidade para se apresentar, simultaneamente, como representante das estruturas tradicionais de poder e como um candidato antissistema. Embora tenha recebido apoio de influentes elites econômicas e políticas, conseguiu projetar a imagem de um outsider que lutava contra um sistema político supostamente corrupto e ideologizado. Este padrão é conhecido em muitos países: políticos profundamente vinculados aos centros tradicionais de poder conseguem se apresentar de forma bem-sucedida como a voz do "povo" diante das elites.

A evolução política internacional também desempenhou um papel importante. A campanha de De la Espriella reproduziu estratégias observadas previamente em movimentos populistas de direita nos Estados Unidos, Europa e América Latina. Suas principais mensagens giraram em torno da segurança, da soberania nacional, da rejeição às instituições multilaterais e da crítica às mudanças sociais progressistas. Seu estilo de comunicação política mostrou claras semelhanças com figuras como Donald Trump ou o presidente salvadorenho Nayib Bukele, ambos bem-sucedidos graças a uma combinação de polarização, mensagens simples e liderança forte.

O microtargeting como estratégia digital eficaz

A forma como a campanha se desenvolveu também foi decisiva. A diferença de eleições presidenciais anteriores, os debates políticos tradicionais desempenharam um papel secundário. De la Espriella evitou em grande medida os confrontos públicos com Iván Cepeda e rejeitou a participação em debates televisionados. Em vez disso, apostou nas redes sociais, nos influenciadores e nos canais digitais de comunicação. O objetivo já não era convencer a opinião pública em geral, e sim se dirigir de maneira específica a distintos grupos de eleitores.

Esta estratégia de microtargeting foi particularmente efetiva. Diferentes segmentos da população receberam mensagens adaptadas aos seus medos, esperanças e interesses. Os jovens foram abordados através de influenciadores e redes sociais; o eleitorado conservador recebeu mensagens centradas na segurança e nos valores familiares; os empresários foram atraídos por promessas de redução de impostos e desregulação. Desta forma, a campanha conseguiu se conectar com diversos setores sociais sem a necessidade de apresentar um projeto político coerente e integral.

A comunicação digital também facilitou a difusão de desinformação. O uso de inteligência artificial para criar imagens, áudios e vídeos manipulados gerou especial preocupação. Durante a campanha, circularam numerosos conteúdos que retratavam Iván Cepeda como um marxista radical, aliado de grupos armados ou uma ameaça para a democracia. Muitas destas representações contrastavam claramente com a sua trajetória política, caracterizada pela defesa dos direitos humanos, seu trabalho no Congresso e seu respaldo às instituições democráticas. No entanto, estas narrativas tiveram impacto porque reforçaram temores existentes e aprofundaram a polarização política.

Numerosas irregularidades e influências indevidas

Advogados e jornalistas documentaram múltiplos casos suspeitos de irregularidades. Entre eles, acusações de manipulação eleitoral, compra de votos e influência indevida de grupos regionais de poder. Também foram reportadas pressões sobre trabalhadores de instituições públicas, campanhas coordenadas em redes sociais e possíveis violações às normas de financiamento eleitoral.

O apoio de clãs políticos regionais desempenhou igualmente um papel relevante. Por trás de De la Espriella, se encontravam várias redes de poder construídas durante décadas, com uma considerável capacidade de mobilização eleitoral. Estes aparatos políticos locais podem influenciar diretamente o eleitorado e têm uma importância especial nas zonas rurais. O respaldo destas estruturas proporcionou a De la Espriella vantagens organizativas que foram muito mais além de sua presença midiática. 

Chama a atenção uma contradição evidente: enquanto apresentava sua campanha como uma luta contra a corrupção e as elites políticas, se apoiava simultaneamente em redes acusadas de práticas como clientelismo, corrupção ou fraude eleitoral. No entanto, esta contradição apenas afetou a sua campanha. Para muitos de seus seguidores, a expectativa de uma maior segurança e de uma mudança política pesou mais do que estas inconsistências.

Colômbia dividida em dois blocos

Outro fator importante foi a debilidade do centro político. Diferentemente de eleições anteriores, as forças moderadas não conseguiram construir um projeto próprio com capacidade convocatória suficiente. Muitos destes setores terminaram se posicionando contra o governo de Petro e apoiando, direta ou indiretamente, De la Espriella. Assim se conformou uma coalizão ideologicamente heterogênea, mas unida pela rejeição ao projeto progressista.

Muitas pessoas não votaram necessariamente a favor de seu programa de governo, e sim contra a situação existente. O desejo maior de segurança, a decepção com as instituições políticas e o temor à incerteza econômica foram mais mobilizadores do que os debates sobre democracia, direitos humanos, meio ambiente ou estratégias de desenvolvimento de longo prazo.

Em última instância, o apertado resultado eleitoral de menos de 1% entre os candidatos demonstra que o país está dividido em quase dois blocos políticos de tamanho semelhante. A elevada participação eleitoral de cerca 63,60% reflete, por um lado, a força da mobilização democrática. Mas, por outro, evidencia a profundidade dos conflitos sociais que atravessam a sociedade colombiana. Por isso, as eleições presidenciais de 2026 foram muito mais do que uma competição entre dois candidatos. Constituíram uma decisão entre duas visões fundamentalmente distintas sobre como alcançar a paz, a segurança, a democracia e o desenvolvimento da Colômbia.

A ascensão de Abelardo de la Espriella é o resultado da convergência de múltiplos fatores: problemas reais de segurança, decepção com o governo, apoio de poderosas redes políticas, uma campanha digital altamente profissionalizadas e um contexto internacional que favorece as propostas autoritárias e populistas de direita. Seu sucesso é, portanto, menos o produto de uma só personalidade do que a expressão de uma profunda transformação social cujas consequências seguirão marcando a Colômbia durante muitos anos.

*Evelyn Hartig é diretora da Fundação Heinrich Böll na Colômbia.

Tradução para o português: Ana Leticia Ribeiro

Edição: Marilene de Paula

Leia o artigo original em espanhol