Bruna Dutra - Alter Comunicação
O número de mulheres classificadas como eleitas na faixa mais à direita do espectro partidário cresceu 68,9% em 2026, passando de 45, em 2022, para 76. O avanço, identificado a partir do cruzamento das bases do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o GPS Partidário, metodologia desenvolvida pela Folha de S.Paulo, foi puxado principalmente pelo Partido Liberal (PL), que passou de 42 para 74 mulheres classificadas como eleitas, alta de 32.
O movimento faz parte de um crescimento mais amplo da representação feminina nas urnas. No conjunto, o número de mulheres eleitas nos cargos de governadora, senadora e deputada federal e estadual passou de 311, em 2022, para 369, em 2026, alta de 18,6%. O avanço aparece nos três grandes campos políticos: centro (+25%), esquerda (+20,5%) e direita (+15,1%). Mesmo com um crescimento proporcional menor, a direita segue concentrando o maior número absoluto de mulheres eleitas, passando de 146, em 2022, para 168, em 2026.
O avanço nas urnas ocorre em paralelo à consolidação de uma atuação política própria e estrategicamente articulada no campo conservador, tema central de Mulheres e extrema direita no Brasil, de Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira (Editora Elefante).
A obra analisa a ascensão de lideranças como Michelle Bolsonaro (recém-eleita senadora pelo DF) e Damares Alves (eleita em 2022, com mandato até 2031), que deixaram de atuar como meras apoiadoras para construir redes de formação, discursos de valores e estratégias de mobilização voltadas especificamente ao público feminino.
Esse processo aparece tanto na consolidação de lideranças já conhecidas quanto no surgimento de novas figuras políticas. É o caso de Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, que começou sua atuação nas redes sociais e foi eleita como a deputada estadual mais votada de São Paulo, com 1,95 milhão de votos. A parlamentar se apresenta como antifeminista e defende pautas conservadoras.
“O antifeminismo não significa necessariamente uma recusa ao protagonismo das mulheres. O que vemos é a construção de outra linguagem para esse protagonismo, que reivindica o feminino ao mesmo tempo que procura demarcar distância do feminismo. Há um movimento interessante: essas mulheres reivindicam voz, protagonismo e participação política, mas procuram dissociar essas conquistas do repertório histórico do feminismo. É justamente nessa tensão que se constrói uma nova identidade política”, avalia a pesquisadora e uma das autoras do livro, Jacqueline Moraes Teixeira.
O raio-X dos dados por campo político
Apesar do avanço mais expressivo na faixa mais à direita, a expansão da presença feminina ocorreu nos três grandes campos políticos:
- Esquerda: cresceu 20,5%, de 117 para 141 mulheres classificadas como eleitas, elevando sua participação no universo de 37,6% para 38,2%. O avanço foi puxado pelo PT, que passou de 58 para 75 (+17), e pelo PSOL, de 18 para 25 (+7), ambos na faixa Esquerda 2.
- Centro: foi o campo que mais cresceu proporcionalmente, com alta de 25%, de 48 para 60 mulheres classificadas como eleitas. Sua participação passou de 15,4% para 16,3%. O resultado foi impulsionado pelo PSD, que avançou de 16 para 28 (+12), e pelo MDB, de 22 para 27 (+5), ambos na faixa Centro 1.
- Direita: manteve o maior volume absoluto, passando de 146 para 168 mulheres classificadas como eleitas, alta de 15,1%. Sua participação, porém, recuou de 46,9% para 45,5%, diante do crescimento proporcionalmente maior da esquerda e do centro.
A principal transformação da direita está na recomposição interna do campo. Enquanto a Direita 1 recuou 4,9% e a Direita 2 caiu 15%, a Direita 3, faixa mais à direita na classificação do GPS Partidário, avançou 68,9%, de 45 para 76 mulheres classificadas como eleitas. Esse crescimento foi concentrado principalmente no PL, que passou de 42 para 74 mulheres classificadas como eleitas. O Novo avançou de uma para duas, enquanto o PRTB recuou de duas para nenhuma. Juntas, essas variações levaram o total da faixa de 45 para 76.
Recorde de bancada e divergência ideológica nas urnas
Apesar do aumento quantitativo, a nova bancada feminina não formará um bloco homogêneo. A Câmara dos Deputados terá um recorde histórico de 109 parlamentares, enquanto a representação do Distrito Federal no Senado será 100% feminina (Damares Alves, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis).
O forte contraste ideológico marca essa nova composição: em São Paulo, a mesma eleição que deu votação recorde à antifeminista Eduarda Campopiano (PL) reelegeu Erika Hilton (PSOL) com 1,5 milhão de votos para a Câmara Federal, tornando-a a mulher mais votada da história para o cargo, e elegeu Sofia Favero (PSOL), ativista trans e LGBTQIA+, para a Assembleia paulista.
“No contexto político em que a disputa se consolidou entre oposições excludentes, as mulheres conservadoras na política buscaram se diferenciar pela afirmação de uma ética de responsabilidade, cuidado e amabilidade. No entanto, se somam a projetos masculinos de poder, corrupção, violência e mandonismo familiar”, analisa a co-autora do livro, Christina Vital da Cunha.
O que a análise do livro revela
Para Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira, o avanço feminino na extrema-direita não é fruto do acaso ou da subordinação aos homens. O livro demonstra como o ativismo bolsonarista desenvolveu uma forma própria de ação política, focada em recrutar, formar e mobilizar mulheres por meio de encontros, pautas morais e cursos de capacitação promovidos por lideranças como Michelle Bolsonaro, Damares Alves e Celina Leão.
Metodologia
O levantamento considera candidaturas femininas em condição de "ELEITO" na base oficial do TSE (incluindo 1ª e 2ª suplências registradas com esse status: 18 em 2022 e 20 em 2026). Os dados foram cruzados com o GPS Partidário 2026 (desenvolvido pela Folha de S.Paulo). Como a régua do GPS não utiliza a categoria formal "extrema-direita", o estudo analisa a faixa Direita 3 (composta por PL, Novo, PRTB e Missão) como o campo mais à direita do espectro partidário brasileiro.
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