Smilla Harmia
O Instituto Odara – Instituto da Mulher Negra - é uma organização feminista negra sediada em Salvador, na Bahia. Por meio de iniciativas como o projeto Pretas no Poder, o Instituto atua na promoção da participação e da representação política de mulheres negras e no enfrentamento à violência política de raça e gênero, acompanhando também as barreiras que atravessam suas trajetórias dentro e fora dos partidos. Em entrevista à Fundação Heinrich Böll, Joyce Souza e Amanda Oliveira refletem sobre os desafios das eleições de 2026.
A partir de suas experiências no Instituto Odara, Joyce e Amanda mostram como representação, violência política e estruturas partidárias se entrelaçam e quais desafios precisam ser enfrentados para ampliar a participação efetiva das mulheres negras na política brasileira. Falaram também sobre os novos riscos e desafios relacionados à inteligência artificial e à violência política no ambiente digital.
Fundação Heinrich Böll: Na perspectiva do Instituto Odara, o que está em jogo nas eleições de 2026? Quais são os principais desafios e expectativas?
Joyce Souza: Estamos em um momento importante após a segunda Marcha das Mulheres Negras, realizada em 2025. Quando olhamos para 2016, logo após a primeira Marcha, em 2015, vimos um salto nas candidaturas de mulheres negras e também um aumento de mulheres negras eleitas, como Marielle Franco, no Rio de Janeiro, Áurea Carolina, em Belo Horizonte, e Marta Rodrigues, na Bahia. Nas eleições de 2018, esse movimento teve continuidade com a eleição de novas mulheres negras para a Câmara dos Deputados. Entendemos esse resultado não apenas como um efeito da Marcha, mas também da mobilização que se reorganizou após o assassinato de Marielle Franco, fortalecendo a presença e a reivindicação das mulheres negras pela ocupação dos espaços de poder. Para 2026, existe uma expectativa de que essa mobilização também tenha resultados nas eleições nacionais, inclusive para o Senado Federal.
Fonte: Gênero e Número.
No Nordeste, porém, estamos em uma condição muito crítica. Temos visto um déficit de candidaturas de mulheres negras em relação às eleições anteriores, que atribuímos especialmente à violência política de raça e gênero, inclusive dentro dos partidos. Acompanhamos mulheres negras em trajetórias de candidatura desde 2021 e acumulamos denúncias sobre violências praticadas dentro dos próprios partidos, que vão desde o questionamento sobre seu lugar como parlamentar até as dificuldades de acesso aos recursos para financiamento das campanhas. Mesmo quando existem normas para uma distribuição paritária desses recursos, na prática elas não têm sido efetivadas como deveriam.
Há uma contradição importante: o Nordeste tem um peso decisivo nas eleições federais e para a esquerda, além de ser um território de maioria de mulheres negras. Somos mencionadas quando se fala do voto decisivo para o presidente Lula e para o campo da esquerda, mas as mulheres negras desse território não têm recebido o mesmo tratamento político quando se trata de serem eleitas. Esse é um cenário que avaliamos como muito crítico.
Amanda Oliveira: Essa situação também aparece entre as mulheres quilombolas. Temos muitas lideranças que se organizam em seus territórios e comunidades, mas, quando apresentamos a perspectiva de uma candidatura, elas ainda não se veem nesse lugar. Isso nos leva a questionar as próprias estruturas da democracia e dos partidos: mesmo quando ocupamos espaços de liderança, inclusive em partidos considerados de esquerda, continuamos sendo atravessadas por essas violências.
Fundação Heinrich Böll: Na prática, a Lei 14.192 tem sido efetiva no combate à violência política contra as mulheres? Quais desafios permanecem para 2026?
Joyce: Temos críticas especialmente à forma como o conceito de interseccionalidade tem sido esvaziado. Ele acabou se tornando, muitas vezes, um recurso narrativo sem que haja uma compreensão adequada do que significa. Raça e gênero não podem ser encarados simplesmente como “recortes”: são estruturas tão elementares quanto classe. Compreendemos a sociedade como patriarcal e racista em todas as suas dimensões, e a lei não tem dado a devida atenção à dimensão dessa violência para as mulheres negras.
Em 2022, lançamos um mapeamento sobre violência política de raça e gênero no Nordeste. Constatamos que 98% das mulheres negras que são ou foram parlamentares, ou se candidataram sofreram algum tipo de violência política de raça e gênero. Isso mostra como ser uma mulher negra determina a maneira como se experimenta esse lugar de representação política. Uma das mulheres entrevistadas no mapeamento contou que, desde que manifestou o desejo de entrar na política, ouvia: “Você não tem cara de política, você não tem cara de vereadora”, dizer que uma mulher não representa uma comunidade ou um povo já é algo extremamente violento.
Amanda Oliveira: Outro problema da lei é a própria definição de quem é considerado uma liderança política. Para nós, liderança política não existe apenas dentro da política partidária. Mulheres quilombolas que articulam suas comunidades estão fazendo política e também sofrem violências, mas não são abarcadas por essa perspectiva da legislação. Pensar a violência política somente a partir de quem está se candidatando ou exercendo um mandato deixa de fora muitas outras lideranças políticas.
Fundação Heinrich Böll: Apesar da cota de gênero de 30% nas candidaturas, as mulheres continuam sub-representadas. Por quê? O que precisaria mudar?
Amanda Oliveira: Precisamos perguntar quem é visto como uma pessoa apta a ser votada e capaz de ocupar espaços de tomada de decisão. Quando olhamos para os diferentes sistemas de poder no país, o rosto que encontramos nesses espaços ainda é o de um homem branco, de terno. Quando uma mulher negra pretende ocupar esse lugar, muitas vezes surge a dúvida sobre se ela seria capaz de estar ali e tomar as decisões corretas. Isso está relacionado ao que foi construído historicamente e culturalmente sobre quem é a cara do poder neste país.
Joyce Souza: Por isso, nossa defesa vai além dos 30%: defendemos a paridade de raça e gênero. A própria cota mínima ainda enfrenta dificuldades para ser efetivamente cumprida. Isso tem relação tanto com uma perspectiva cultural quanto com a forma como os partidos estão estruturados. Os partidos são estruturas masculinas brancas. Os gestores dos partidos são homens brancos, e mesmo os partidos de esquerda têm reproduzido essa lógica da masculinidade. Precisamos rever não apenas os partidos, mas também nossas próprias concepções e estruturas de democracia.
Fundação Heinrich Böll: Com a digitalização das campanhas e o uso de IA, como vocês avaliam a proteção contra a violência política digital, especialmente no caso das mulheres negras? Qual tem sido o papel das plataformas e do Estado?
Joyce Oliveira: O meio digital é, de modo geral, um campo de reprodução do racismo, e nos períodos eleitorais essa reprodução se torna ainda mais incisiva. Vemos violências que começam nos territórios alcançarem também o ambiente digital, com a disseminação de narrativas falsas e fake news sobre a vida pública de mulheres negras. Ainda estamos tentando entender como fazer incidência política para enfrentar esse tipo de violência.
Ao mesmo tempo, um dos principais apoios demandados pelas próprias candidatas negras é justamente na área da comunicação e do acesso à mídia. Estamos falando de mulheres que ainda estão tentando conquistar uma estrutura mínima de comunicação para colocar suas próprias narrativas nesse campo de disputa. Além dessa disputa por acesso e visibilidade, precisamos enfrentar também as contranarrativas e pensar em como responder a elas.
Amanda Oliveira: A violência digital e o uso da IA constituem uma via de mão dupla. Por um lado, muitas mulheres utilizam as redes sociais para fortalecer sua mobilização, especialmente quando não têm recursos suficientes para uma campanha de rua. Por outro, o racismo, o machismo e o sexismo também atravessam esses espaços, e a violência passa a se estruturar de maneira cada vez mais organizada.
O ambiente digital é um espaço que disputamos para ampliar o alcance das mulheres, impulsionar candidaturas e fortalecer lideranças. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que é também um lugar onde a violência pode se reproduzir de forma ainda mais rápida, inteligente e organizada. É um campo novo e difícil, para o qual ainda estamos construindo estratégias de enfrentamento.
Dados sobre violência política
O estudo “Panorama das violações de direitos humanos de 2022 a 2024” registrou 714 casos de violência política contra candidatos e autoridades eleitas; 2024 foi o ano mais violento desde o início do levantamento, em 2016.
Foram registrados aqui 714 casos documentados de violência política contra candidatos ou parlamentares em exercício entre novembro de 2022 e outubro de 2024. Desses, 274 foram direcionados contra mulheres. Entre eles, havia 19 ameaças de estupro – uma forma de violência diretamente relacionada ao gênero. Desses casos contra mulheres, cerca de 40% foram ataques virtuais.
Fonte: Terra de Direitos & Justiça Global. Violência política e eleitoral no Brasil. Panorama das violações de direitos humanos de 2022 a 2024.
Fonte: Instituto Marielle Franco. Regime de ameaça: violência política de gênero e raça no ambiente digital. Agosto 2025.
Mais informações e links:
Instituto Marielle Franco. Violência Política Contra Mulheres Negras: Categorias de Violência Política: apresentação das diferentes formas de violência política identificadas pela pesquisa Violência Política Contra Mulheres Negras, incluindo violência virtual, moral e psicológica, institucional, racial, física, sexual e de gênero.
Observatório de Favelas – Violência e Crime no Cotidiano da Política (2025)
Pesquisa sobre violência política na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e na Baía da Ilha Grande, com atenção às motivações racistas, misóginas, transfóbicas e ideológicas e aos impactos da violência sobre grupos historicamente marginalizados.
MonitorA – Assumindo as narrativas: resistindo à violência política de gênero (2025). Curta-metragem dirigido por Michelle Chevrand sobre os desafios enfrentados por mulheres na política e as formas de resistência à violência política de gênero, dentro e fora das redes sociais.
MonitorA 2024 – Violência política de gênero nas eleições municipais
Monitoramento das narrativas e dos ataques dirigidos a candidatas nas redes sociais durante as eleições municipais de 2024.
Edição: Marilene de Paula