🎶 Never gonna give you up… / Nunca vou desistir de você🎶

Em 2026, o tema tecnopolítica tornou-se oficialmente um programa da Fundação Heinrich Böll no Brasil. Mais do que uma mera mudança institucional, essa decisão reflete uma compreensão cada vez mais presente em nosso trabalho: não é mais possível defender democracia, direitos humanos e justiça socioambiental sem refletir sobre o papel das tecnologias em nossa sociedade.

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As tecnologias digitais estão presentes hoje nos grandes debates públicos - eleições, acesso à informação, relações de trabalho e saúde. Elas não são neutras, pois refletem decisões políticas, econômicas e sociais. Por aqui defendemos que as tecnologias sejam criadas e usadas com uma perspectiva de direitos humanos. Assim, estruturamos o programa Tecnopolítica em três pilares: o primeiro é o combate à desinformação; o segundo é o apoio a organizações da sociedade civil que atuam na incidência pela regulação das plataformas digitais e da inteligência artificial, e o terceiro busca promover intersecções entre justiça socioambiental e direitos digitais.

Foi com essa visão que embarcamos para o re:publica Berlim 2026, o maior festival de sociedade digital da Europa. Com mais de 30 mil participantes, o evento reuniu ativistas, pesquisadores, jornalistas, artistas, formuladores de políticas públicas e organizações da sociedade civil para debater os desafios do ambiente digital contemporâneo. O tema escolhido para esta edição foi "Never Gonna Give You Up" ("Nunca vou desistir de você"), uma referência à música de Rick Astley que deu origem ao famoso meme do "Rickroll". Em um contexto marcado por guerras, crise climática, ascensão da extrema direita, concentração de poder das Big Techs e ameaças crescentes à democracia, o lema era um chamado para pensarmos juntos como ter uma internet livre, como pensar para além do império da inteligência artificial e como reimaginar espaços digitais.

Neste cenário, na fala que fiz no espaço Lightning Talk do evento, convidei os participantes para uma reflexão sobre as conexões entre tecnologia, clima e justiça territorial no Brasil, a partir da apresentação “Quando a nuvem tem raízes: tecnologia, terra e justiça no Brasil”. Compartilhei com o público uma experiência recente vivida com minha colega Marilene de Paula, coordenadora de direitos humanos, durante a Cúpula dos Povos da COP30, realizada em Belém do Pará. Lá nos juntamos a um grupo de mulheres pescadoras, lideranças comunitárias, pesquisadoras, feministas e ativistas, incluindo as parceiras do Democracia em Xeque, Coding Rights, SOS Corpo, Instituto Terramar e Filha do Sol. Este grupo fez uma troca sobre as relações entre transição energética, transformação digital e impactos nos territórios. Nesse sentido, reforço, a Internet não tem nada de nuvem. Ela depende de cabos submarinos, data centers, energia elétrica, água e recursos minerais. E tudo isso impacta a vida de muitos.  

Levar esse debate à Europa é fundamental para buscar aliados e aproximar as pessoas do entendimento das contradições que cercam essas tecnologias. Se o continente europeu é um ator que vocaliza a transição energética para proteger o clima, o mesmo precisa avaliar se aqueles que estão em territórios com biomas ainda protegidos graças a eles estão sendo impactados com essas transformações. Se a IA é entendida como ferramenta também para soluções climáticas, como devemos avaliar os impactos dos data centers? Data centers de IA exigem volumes imensos de energia e água para funcionar. A demanda energética prevista para o data center do Tik tok que está sendo construído no Ceará, segundo o Ministério Público Federal, seria suficiente para abastecer continuamente uma cidade do porte de Lisboa. Já o consumo de água pode chegar a 5 milhões de litros por dia, equivalente ao consumo diário de uma cidade de 30 mil habitantes, de acordo com o Instituto Humanitas Unisinos. Tudo isso em uma região semiárida, na qual a comunidade indígena local não tem acesso à água encanada. É necessário que o mundo se faça essas perguntas: Para quem são essas soluções? A que custo? E quem decide como devem ser feitas?

O estande da Fundação Heinrich Böll no Re:publica ficou movimentado durante os três dias de evento. Muitas pessoas buscavam nossos Atlas e mais informações sobre nossas ações. Estávamos lá junto a colaborares da sede de Berlim, da Argentina, Tunísia, Vienna, EUA, Bélgica no mood musical dos anos 80, sem pensar em desistir. Seguimos 😉.

 

Este artigo faz parte da Newsletter da Fundação Heinrich Böll. Você pode assinar para receber mensalmente aqui