Pela primeira vez, organizações latino-americanas do projeto Futuros Positivos se encontraram presencialmente, na Casa Ninja Amazônia, durante a COP30. Vindos de diferentes territórios e realidades, cerca de 25 parceiros da Fundação Heinrich Böll compartilharam experiências, desafios e visões de futuro, dando início a um processo coletivo de articulação na região.
O encontro foi pensado como um ambiente de troca presencial entre projetos que propõem e já executam transformações sistêmicas em áreas como transição energética, tecnopolítica, gênero, adaptação climática, direito à cidade, arte, cultura e agroecologia. Projetos do Chile, Peru, Bolívia, México, Colômbia, Argentina, Costa Rica, Guatemala e Brasil compartilharam suas motivações, desafios e práticas, revelando pontos em comum apesar das diferenças de contexto. Em territórios urbanos e rurais, essas organizações vêm desenvolvendo soluções locais que devem ser pensadas em contextos interdisciplinares e globais. Dessa forma, alguns tópicos são vitais para comunidades afetadas. Portanto, construir futuros positivos passa, imperativamente, pelos debates sobre soberania alimentar, governança comunitária, comunicação, juventude e uso de tecnologias.
A importância dessas redes regionais ficou evidente ao longo das discussões. Em um cenário em que países do Sul Global ainda são sistematicamente invisibilizados nos espaços multilaterais, e as vozes de movimentos sociais e organizações da sociedade civil têm menos espaço, fortalecer articulações entre iniciativas locais se torna um caminho para ampliar a incidência política e ecoar essas vozes em debates internacionais.
Nesse contexto, identificou-se a necessidade de enfrentar os impactos da transição energética global sobre a América Latina e debater os caminhos possíveis para a saída dos combustíveis fósseis foi um dos temas centrais entre os projetos. Se, no passado, a exploração de recursos naturais esteve ligada à industrialização, hoje uma nova reconfiguração — impulsionada pela busca por modelos “sustentáveis” no Norte Global — segue pressionando territórios do Sul, muitas vezes reproduzindo dinâmicas neoextrativistas. Nesse contexto, temas como soberania, democracia e dívida externa aparecem como centrais.
Paralelamente, o processo oficial da UNFCCC na trigésima edição da COP fracassou em chegar a um acordo mais amplo sobre os combustíveis fósseis. Assim, 45 países, com a liderança da Colômbia e da Holanda, decidiram se reunir novamente antes da próxima COP para discutir um mapa do caminho para a desfosilização complementar. Como desdobramento do evento do Futuros Positivos em Belém, as organizações latino-americanas participantes do projeto no campo da transição energética justa e popular voltarão a se reunir durante a Primeira Conferência Internacional de Saída dos Fósseis em Santa Marta, na Colômbia. A proposta é aprofundar o diálogo, garantir que o formato da transição proposta pelos países respeitem os direitos das comunidades locais, dar continuidade à construção conjunta de caminhos para a América Latina, além de fortalecer as soluções já existentes e que precisam ser vistas e potencializadas
Mais do que um encontro pontual, a articulação entre esses projetos aponta para a formação de uma rede em movimento, capaz de conectar experiências, fortalecer estratégias e projetar, a partir da América Latina, outras possibilidades de futuro para o mundo.