Cidades, periferias e territórios: Tecnologias ancestrais e atuais para imaginar o futuroFuturos positivos a partir da COP30 Soluções locais para problemas globais: pesquisadores e sociedade civil se reúnem para pensar cidades, periferias e territórios É notório que o colapso climático global afeta a sociedade de forma desproporcional e, nesse sentido, as cidades são um dos principais palcos dessa desigualdade. Atualmente, cerca de 58% da população mundial vive em áreas urbanas, o que corresponde a 4,8 bilhões de pessoas. Deste total, aproximadamente 800 milhões vivem em condições precárias, sendo as mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas. Sophia Lyrio Leia o artigo Galeria de Fotos Memória do Evento Pesquisadores Ana Claudia é Arquiteta Urbanista, Professora Titular da UFPA, pesquisadora do CNPQ, coordena o Grupo de pesquisa Urbanização e Natureza na Amazônia e o Observatório Amazonicidades. investiga repertórios socioespaciais nativos, suas metamorfoses e híbridos, e a produção social do território no contexto amazônico, com foco nos agentes e processos sociais ativos nas bordas, margens e transições urbano/ rural/ florestais. No evento, Ana Claudia Cardoso destacou a importância de reconhecer a diversidade como ponto de partida para pensar cidades, periferias e territórios. Em contraponto a modelos universalizantes, enfatizou que soluções urbanas precisam considerar as especificidades sociais, culturais e territoriais, sobretudo no contexto brasileiro. Sua contribuição evidenciou a necessidade de ampliar a escuta e a capacidade de lidar com a complexidade, valorizando estratégias que emergem dos próprios territórios e que apontam caminhos mais situados e eficazes. Nesse processo, ressaltou o papel da juventude na construção de novas trilhas, menos condicionadas por modelos tradicionais. O debate também trouxe como horizonte a construção de um novo patamar civilizatório, baseado no reconhecimento do direito à vida — humana e não humana — e na superação de lógicas em que interesses econômicos se sobrepõem à existência. Como desdobramento, apontou a importância de fortalecer redes e difundir experiências já existentes, ampliando conexões entre contextos diversos e perspectivas multiespécies. Shamsundar Subbarao é professor associado de Engenharia Mecânica no National Institute of Engineering (NIE), na Índia, e chefe do NIE-CREST, centro de pesquisa e inovação em energias renováveis e tecnologias sustentáveis. Atua há mais de 30 anos integrando tecnologia e práticas comunitárias. Representou o NIE-CREST e a Índia na COP30, com foco em soluções sustentáveis e na integração entre saberes. Na sessão “Cidades, Vilas e Territórios” da COP30, destaquei a necessidade de conectar inovação em engenharia com sabedorias ecológicas ancestrais. A partir da minha atuação como chefe do NIE-CREST — um centro de pesquisa e inovação em energias renováveis e tecnologias sustentáveis do National Institute of Engineering, que integra pesquisa e aplicação prática junto a comunidades — enfatizei que futuros sustentáveis exigem não apenas tecnologia, mas a integração entre conhecimento comunitário, ética ecológica e soluções verdes. Apresentei como estratégias descentralizadas, como micro-redes de energia, sistemas de resíduos para energia, agricultura natural, conservação da água e tecnologias construtivas sustentáveis, podem transformar regiões urbanas e periurbanas em ecossistemas resilientes. Também reforcei que as cidades devem ser compreendidas como extensões de territórios ecológicos, conectadas a florestas, águas e áreas rurais. O debate evidenciou a convergência entre diferentes saberes e reforçou que muitas soluções já existem nos conhecimentos tradicionais, com a ciência atuando como facilitadora. A ideia de “territórios vivos” emergiu como central. Como caminhos, destaco: 1. Modelos integrados cidade–território, conectando sistemas urbanos e ecológicos. 2. Sistemas descentralizados de energia, água, habitação, gestão de resíduos e alimentação para maior resiliência. 3. Plataformas de coprodução de conhecimento envolvendo comunidades, cientistas, engenheiros e formuladores de políticas. Projetos Astrid Kusser é coordenadora da programação cultural do Goethe Institut no Rio de Janeiro. Tem doutorado em História e pesquisa políticas de memória, culturas performáticas e intervenções urbanas. No evento, Astrid Kusser trouxe uma reflexão crítica sobre os limites do modelo de desenvolvimento urbano na América do Sul, marcado por promessas não cumpridas e pela persistência de desigualdades estruturais. Ao mesmo tempo, destacou a potência de iniciativas experimentais — como agricultura urbana, soluções descentralizadas e infraestruturas verdes — como pontos de partida para imaginar novas formas de cidade. A partir do programa Cidade Floresta, propôs a floresta como paradigma para repensar as relações econômicas, sociais e ecológicas nos espaços urbanos. O projeto aproxima cidade e floresta como ecossistemas complexos, colaborativos e interdependentes, e se desdobra em mostras, encontros, residências e publicações que convidam artistas, cientistas e ativistas a exercitar novos imaginários urbanos para além do paradigma industrial. Sua contribuição enfatizou que os principais entraves para a transformação não são técnicos, mas políticos: estão nas relações de poder e nas disputas sobre distribuição de recursos e reconhecimento. O debate apontou ainda para a necessidade de expandir os imaginários de futuro e fortalecer o papel das cidades como espaços de regeneração e mudança. Kayo Moura é mestre em Ciência Política (IESP-UERJ) e graduando em Estatística (ENCE-IBGE). Kayo é coordenador de pesquisa e dados do Instituto Decodifica. Foi analista de dados do projeto de Justiça Hídrica e Energética da Rede Favela Sustentável (RFS) e professor do curso de pesquisa ‘Monitorando a Justiça Hídrica e Energética nas Favelas’. Também contou com passagens pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do Rio de Janeiro e pela Secretaria de Planejamento da Prefeitura de Niterói. No evento, a organização contribuiu ao apresentar a geração cidadã de dados como uma abordagem estratégica para conectar territórios, conhecimento local e políticas públicas. A partir do protagonismo de favelas e periferias, o Decodifica evidenciou como soluções construídas do micro para o macro fortalecem a incidência política e a construção de agendas climáticas mais justas e eficazes. Como exemplos dessa atuação, foram apresentados projetos como o Humanas, voltado à formação de lideranças climáticas femininas; o Beabá da COP30, que traduz e comunica a agenda climática para territórios periféricos; e o Retratos da Enchente, iniciativa de mapeamento participativo sobre os impactos das mudanças climáticas em comunidades urbanas. Lennon Medeiros é cria da Baixada Fluminense, co-fundador da Visão Coop e lidera a prototipagem de tecnologias para regeneração e adaptação climática. Cursou Ciências Sociais pela UFRRJ e Letras pela PUC-Rio, acumulou experiência em políticas públicas na Casa Fluminense, como embaixador de inovação cívica na Open Knowledge e no grupo de pesquisa do ITS-Rio. Foi líder de brigadas contra enchentes e conselheiro de governos em meio ambiente e direitos humanos. Foi finalista do BNDES Garagem, top100 do SEBRAE Startups e coordenador ambiental do Startup20. Está atualmente colaborando com a presidência da COP30 para a construção do Mutirão Global pelo Clima. No evento, Lennon Medeiros trouxe uma contribuição ancorada em uma experiência concreta: a enchente que atingiu a casa de uma moradora em Queimados, na Baixada Fluminense. A partir desse episódio, evidenciou como a crise climática já impacta diretamente os territórios periféricos, aprofundando desigualdades e exigindo respostas urgentes diante de eventos extremos. Sua fala destacou a adaptação baseada em comunidades (AbC) como uma abordagem central, ao reconhecer que são as próprias populações afetadas que constroem as primeiras respostas, mobilizando saberes locais, vínculos e estratégias coletivas de cuidado. Nesse sentido, reforçou que as periferias não apenas sofrem os impactos, mas também produzem conhecimento e soluções fundamentais para o enfrentamento da crise climática. O debate apontou para a necessidade de fortalecer essas experiências territoriais, ampliando seu reconhecimento nos espaços de decisão e sua capacidade de incidir em políticas públicas e no acesso a financiamento climático, a partir de estratégias mais justas e enraizadas nas realidades locais. Instagram Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Fundação Heinrich Böll (@bollbrasil) Conheça o dossiê Futuros positivos a partir da COP30 Saiba mais
Soluções locais para problemas globais: pesquisadores e sociedade civil se reúnem para pensar cidades, periferias e territórios É notório que o colapso climático global afeta a sociedade de forma desproporcional e, nesse sentido, as cidades são um dos principais palcos dessa desigualdade. Atualmente, cerca de 58% da população mundial vive em áreas urbanas, o que corresponde a 4,8 bilhões de pessoas. Deste total, aproximadamente 800 milhões vivem em condições precárias, sendo as mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas. Sophia Lyrio