Extrema direita vence na Alemanha. E agora?

O estado alemão Saxônia-Anhalt, localizado no leste do país, foi às urnas. Estou de férias na Polônia e observo que os nossos vizinhos poloneses já estão com medo. Considerando que se trata de apenas 1,7 milhão de eleitores nesse estado, dos quais 43% votaram no partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha - Alternative für Deutschland (AFD), este sentimento pode parecer exagerado à primeira vista - mas, sob uma perspectiva histórica polonesa, é compreensível.

Foto: fromoutback2
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Foto: fromoutback2

O que aconteceu? 

A AFD conseguiu 43,8% (mais de 23 pontos percentuais em relação às eleições anteriores em 2021), quer dizer 39 de 83 lugares na assembleia estadual, e pela primeira vez os partidos democráticos todos juntos não conseguiram superá-la. Embora os Verdes tenham conseguido dobrar seus votos para 8,9% - o que é bastante para uma eleição no leste da Alemanha -, isso serviu apenas para redistribuir os votos democratas.

No sistema político alemão, as eleições em nível estadual servem como indicador para o clima político federal, e a tendência federal mostra que a extrema direita está em plena ascensão no país inteiro, variando entre aproximadamente 20% no lado ocidental e 40% no lado oriental. 

Como isso foi possível?

Alguns indicadores:

  • O Nazismo nunca sumiu de verdade.
  • A cultura de memória alemã sobre o holocausto foi aos poucos arrefecendo e não funcionou mais para as gerações seguintes, além disso, as testemunhas da época morreram.
  • Ossis (alemães orientais) querem punir Wessis (alemães ocidentais) por serem “arrogantes”.
  • Ossis acreditam na autoridade e buscam uma liderança forte.
  • Wessis temem a perda da prosperidade, com menos empregos e boas condições de vida.
  • A democracia não funciona sem crescimento econômico e redistribuição constante. 
  • Existe desigualdade social: há mais 66 novos milionários por dia na Alemanha em 2026 (UBS Global Wealth Report), e, ao mesmo tempo, 7,3 mi., 8,7% na Alemanha e 9,5 % na Saxônia-Anhalt recebem assistência social.

E agora?

Muitos estão chocados e inúmeras análises que se sucedem atribuem diferentes ponderações aos aspectos mencionados acima. O que é certo é que a AFD não é mais um fenômeno exclusivo da Alemanha Oriental, mas aponta para uma crise de transformação que abrange toda a Alemanha e que, somada às tensões geopolíticas, pode levar a grande insegurança e a uma tendência em direção a soluções autoritárias.

Porém, para mim, o elefante na sala é a pergunta: por que não foi iniciado um processo de proibição contra a AFD, embora 1,3 milhão de pessoas tenham assinado a petição a esse respeito, já que percebemos que ela é considerada "comprovadamente de extrema direita"? Além disso, em 2025 o Departamento Federal para a Proteção da Constituição (BfV) e o serviço de inteligência interna da Alemanha a classificaram oficialmente como um partido extremista de direita.  Isso quer dizer que a legenda seria incompatível com a ordem democrática livre.

Vamos precisar refletir que tipo de democracia queremos defender e como redefinir as suas regras de representação popular. Isso poderia se tornar uma iniciativa conjunta entre a Alemanha e o Brasil, tendo em vista as próximas eleições estaduais na Alemanha e as eleições que se aproximam no Brasil. A Fundação Heinrich Böll e os seus parceiros já assumiram esta tarefa.