O futebol é um negócio. Tirando os torneios de várzea e a pelada com amigos o resto é negócio... e política. Para muitos a Copa do Mundo de 2026 ficará conhecida como a Copa das bets. Somos continuamente bombardeados com propagandas de apostas durante os jogos e no intervalo das partidas. Mas futebol também virou identidade nacional no Brasil. Durante a Copa do Mundo uma certa coisa acomete a maior parte de nós, como uma paixão de carnaval.
Cada Copa traz uma marca, não só pelo desempenho de nossa seleção, mas também pela política internacional ou local. Na de 1978, na Argentina, a ditadura utilizou o momento para desviar a atenção internacional das graves violações aos Direitos Humanos e centros de tortura operando próximos aos estádios. Na Rússia, em 2018, o presidente Vladimir Putin usou o torneio como uma ferramenta de "sportswashing", tentando mudar a imagem do país após o escândalo de doping dos atletas russos e a tensão geopolítica da anexação da Crimeia. Na Copa do Catar, em 2022, o tema foi a violações de direitos, com quase 90% dos trabalhadores submetidos a trabalho análogo à escravidão e a morte de cerca 6.500 pessoas devido à exaustão, falta de equipamentos de segurança e exposição as fortes temperaturas do deserto. Na do Brasil, em 2014, nos deparamos com protestos devido às remoções forçadas em favelas pelo país, esquemas de corrupção, obras superfaturadas, legados discutíveis, que trouxeram às ruas milhares de pessoas e foram marcados pela frase: Não vai ter Copa. O país do futebol negando simbolicamente a Copa deixou o mundo assombrado, e não foi pelo futebol. Tá aí o 7x1 que não nos deixa mentir.
Durante os megaeventos no Brasil a Fundação Heinrich Böll se envolveu intensamente, contribuindo juntamente com seus parceiros para denunciar as violações de direitos que estavam acontecendo. Lançou um webdossiê internacional que trazia um mosaico do que estava acontecendo, além da publicação Copa para quem?, comparando a Copa no Brasil com as duas últimas, a da África do Sul e da Alemanha.
A Copa tripartite de 2026, com EUA, Canadá e México como sedes dos jogos me trouxe a pergunta: e essa Copa, como será contada em termos políticos? A Copa sempre reflete o que politicamente estamos vivendo: para o Irã, inimigo dos EUA, e imerso em uma guerra assimétrica, o governo americano proibiu a equipe de permanecer no país, ficando somente durante os jogos e indo para o México após cada partida, um fato nunca visto na competição. O árbitro somali Omar Artan, credenciado pela Fifa, teve a entrada nos EUA impedida sob alegação de segurança nacional. A seleção senegalesa foi submetida a uma revista rigorosa logo na chegada ao aeroporto, e seus cidadãos tiveram restrição e vistos de validade limitada para entrar nos EUA. Esses casos e outros refletem a política dura de imigração da administração Donald Trump, feita pela temida ICE (Imigração e Alfândega dos EUA - U.S. Immigration and Customs Enforcement). A fobia de imigrantes do Sul Global mexe com a base eleitoral trumpista, criando os inimigos aos quais pode-se atribuir todo tipo de problema doméstico. A ascensão da extrema direita no mundo não surgiu por acaso: os pânicos morais e xenofobia têm base sólida na sociedade e foram acionados com sucesso. Mas ao mesmo tempo essa Copa, como as dos últimos anos, mostra também a contribuição dos imigrantes para países do Norte. A sensação da Copa, a França, tem 18 jogadores negros dos 26 convocados.
Embora meu entusiasmo pela competição tenha diminuído nos últimos anos, em especial depois de testemunhar o que significa realizar uma Copa do Mundo em um país do Sul Global, os deuses do futebol sempre nos reservam momentos especiais. Viva Cabo Verde e sua gente, local do primeiro experimento da plantation escravista atlântica. Foi lá que começou o que viria a ser a máquina de horror que construiu a escravidão no Brasil. A seleção caiu de pé, com dignidade, e fazendo um dos gols mais bonitos da Copa. Eu vivi a Tragédia do Sarriá, o futebol sem brilhantismo de 1994, a maravilha de 2002 e as inúmeras tentativas ao longo dos últimos anos. E acredito que é sempre bom cultivar a esperança em dias melhores também no futebol. Que venha 2030!