Minhas primeiras leituras do dia têm sido nos sites de notícias brasileiros e alemães. Ansiosa, me pergunto: o que Putin e Trump aprontaram enquanto eu dormia?
Na minha percepção, a Rússia e os EUA estão em uma categoria comparável de imprevisibilidade. Embora nós, como Fundação política verde alemã, trabalhemos há anos com autoritarismo e a ameaça à democracia, ainda é difícil compreender o que está acontecendo. Em 2025, o Índice V-Dem relata, pela primeira vez, que há mais autocracias (91) que democracias (88); no Índice de Democracia 2025 da Economist Intelligence Unit (EIU), apenas 25 países são considerados democracias plenas, e outros 46 são considerados democracias imperfeitas. Recomendo a leitura do artigo dos nossos presidentes Imme Scholz e Jan Philipp Albrecht que apresentam a perspectiva alemã dos acontecimentos recentes na América Latina.
Apesar disso, continuamos a acreditar que o nosso modo de vida é o único correto. Isto apesar de estarmos a causar danos irreversíveis ao meio ambiente com a nossa obsessão pelo crescimento; pois, associamos o crescimento econômico ao combate à pobreza e à democratização; e consideramos a destruição dos meios de subsistência, que isso acarreta, como uma espécie de contradição secundária. Essa lógica me lembra as discussões do final da década de 1970 e início da década de 1980, quando a igualdade de gênero foi classificada e descartada como uma contradição secundária das revoluções iminentes na América Central.
Assim, também me pergunto: pode existir uma sociedade livre sem crescimento? No Brasil, temos o privilégio de ter acesso à filosofia indígena, à ideia de uma unidade de todos os seres no cosmos, a cosmovisão. Em vez da superioridade da espécie humana, a cosmovisão oferece a ideia da harmonia entre homem, animal e natureza. Essas ideias estiveram muito presentes na COP30 em Belém, com cerca de 3.000 representantes indígenas , e também estão na base da participação da sociedade civil na Conferência de Santa Marta para a elaboração de um roteiro para um mundo livre de combustíveis fósseis – uma iniciativa que apoiamos.
Como uma organização alemã de direitos, que com prazer está há 25 no Brasil, e que trabalha em mais de 50 países com diversos parceiros, felizmente sabemos que também há motivos para ter esperança em um futuro positivo . Inúmeros projetos, iniciativas e redes estão trabalhando em soluções e alternativas interessantes para o caminho de desenvolvimento trilhado pelo Ocidente. Há propostas para um abastecimento energético livre de combustíveis fósseis, agricultura agroecológica, conceitos urbanos sustentáveis, empreendedorismo social, economias de cuidados, autogestão digital em caso de catástrofes naturais, gestão de resíduos ou utilização da água, nos territórios e periferias. Existem soluções concretas para tudo — basta aproveitarmos. É com base nesses projetos de parceiros que podemos construir as nossas utopias para um futuro positivo.
Em um ano decisivo de eleições no Brasil, contribuiremos para o fortalecimento dos valores democráticos, atuaremos em colaboração com parceiros no enfrentamento à desinformação e apoiaremos percursos de formação política. Seguimos firmes na convicção de que comer é um ato político e daremos novos passos no projeto Futuros Positivos. Iniciamos este novo ciclo com muita energia: um programa de três anos e o estabelecimento de uma nova área, Tecnopolítica , construída ao lado de quem acredita que as tecnologias precisam ser pensadas, criadas e usadas a partir de uma perspectiva de direitos.
Esse texto está presente originalmente na Newsletter de Janeiro da Fundação Heinrich Böll. Inscreva-se aqui.