A violência nas redes que busca afastar as mulheres da política

Desde 2018, as pesquisas eleitorais apontam que as escolhas feitas por mulheres e homens, diante do segredo guardado pelas urnas foi diferente. Se em julho daquele ano, 22% dos homens declaravam espontaneamente votar em Bolsonaro, apenas 7% das mulheres diziam o mesmo[1]. Em outubro, outro levantamento apontava que entre eleitores do sexo masculino, o candidato tinha  37% da intenção de voto. Já entre as mulheres, aproximadamente a metade, 21%, o que o colocava em posição de empate técnico com a chapa em que eu participava na condição de candidata à vice-presidente de Fernando Haddad, que marcava, naquela pesquisa, 22%.[2] Em 2022, essa diferença se repete e amplia-se: enquanto entre homens Lula e Bolsonaro aparecerem empatados, entre as mulheres a diferença é de 51% do primeiro contra 25% do segundo.[3]

Ato-Homenagem à Marielle Franco: Um ano de saudade e lutas!

Levantamento realizado pela BBC Brasil[4] mostra que, nos processos eleitorais de 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso vencia as eleições entre os eleitores de ambos os sexos, segundo pesquisas Datafolha da época. Isso se repetiu com Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002 e 2006, também segundo o mesmo instituto e com Dilma Rousseff, em 2010 e 2014, conforme o Ibope.

O processo eleitoral de 2018 foi marcado, também, pela maior mobilização social da história do movimento de mulheres, o chamado #elenao, organizado a partir das redes sociais e realizado em mais de cem cidades brasileiras. Essas mobilizações aglutinaram eleitoras de todos os espectros políticos, tornando-se, assim, o primeiro esforço de ampliação e unidade politica contra a extrema-direita representada pelo então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro. Tal movimento, contudo, sofre uma espécie de apagamento histórico e isso se deve, em minha opinião, além do machismo que estrutura as relações sociais no Brasil, ao desconhecimento sobre o funcionamento das redes sociais. Para fazer uso de um dito popular brasileiro, é como se "jogassem a criança fora com a água suja”. Naquela ocasião, em pleno 2018, as direções dos partidos que se opunham à candidatura de Bolsonaro, pouco sabiam e falavam sobre desinformação e intolerância na internet. Por isso, atribuíram ao movimento - e não às fakenews sobre ele - a responsabilidade do crescimento do candidato na reta final do processo eleitoral.

Se é verdade que Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil no 2º turno das eleições  de 2018, naquele pleito 77 mulheres foram eleitas para a Câmara dos Deputados, um aumento de 51% em relação ao pleito anterior e 161 deputadas foram escolhidas pela população para ocuparem cadeiras nas Assembleias Legislativas, um aumento de 41,2% comparado com 2014 (TSE). Nunca fomos tão numerosas, mesmo que ainda sejamos tão poucas.

Essas três questões apontam para a existência de uma espécie de fissura nas opiniões de mulheres e homens sobre os rumos que o país deve tomar . Se de um lado, mulheres nunca participaram tanto, de outro, conforme a antropóloga Rosana Pinheiro Machado "É impossível separar a 'crise do macho' da crise econômica. A crise econômica coloca em xeque o papel de provedor dos homens, que também é ameaçado pela ascensão das mulheres.”[5]. isso pode explicar a identificação, em maior número, dos homens brasileiros com um presidente com manifestações explicitamente misóginas.

Se fossemos imaginar uma linha do tempo , podíamos pensar a eleição de um Presidente abertamente misógino em 2018 como uma das consequências do processo aberto entre 2014 e 2016, com o não reconhecimento da vitória de Dilma Rousseff e o impeachment sem crime de responsabilidade. Foi quando assistimos ao machismo e a  misoginia servirem como elementos de mobilização e coesão social para legitimar um projeto político de direita. Depois disso, vivemos o mais extremo e emblemático ato de violência na politica brasileira atual: a execução da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018. Passados quatro anos continuamos sem saber quem mandou matar Marielle e sabemos que seu assassinato é uma espécie de fantasma que nos ronda a todas que seguimos lutando. Para além da morte, a profanação da memória de Marielle é permanente: nas redes, nas ruas e nos parlamentos, a extrema direita se reveza em ofensas e agressões.

Falemos, pois, da violência enquanto método amplamente utilizado por esses setores que se veem ameaçados pela ascensão política e pelas escolhas eleitorais e políticas das mulheres. Em um artigo publicado no livro “Sempre foi sobre nós - relatos da violência politica de gênero”[6], organizado por mim, Dilma Rousseff menciona um trecho de Kate Manne do qual eu gosto. Ela diz que é ingenuidade interpretar a misoginia como ódio e aversão a todas as mulheres, quando, na verdade, ela busca atingir apenas as mulheres que ousam enfrentar as normas dominantes, dentre elas a ideia de que o poder deve ser exercido apenas pelos homens.  A filósofa Marcia Tiburi afirma que "Machismo publicitário é a forma do machismo na era da política reduzida à publicidade (…) Na política machista habitual os homens precisavam apenas disputar entre si. Quando surgem mulheres que ameaçam seus cargos, ou ameaçam com a imagem de uma outra política, os homens partem para a ação violenta que faz parte da sua história e é essencial à performatividade política do momento. (…)A característica do macho limítrofe é a vociferação misógina que permite que os holofotes se voltem para ele.”[7]. A essa vociferação misógina chamamos de violência política de gênero. E ela acontece nos parlamentos, nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais. Não há como dissocia-la. A morte de Marielle alimenta os monstros na internet, os monstros na internet alimentam os agressores nas ruas.

Segundo levantamento realizado pelo MonitorA, projeto da Revista AzMina e do InternetLab que monitorou entre 15 e 18 de novembro, 347,4 mil tuítes que mencionavam 58 candidatas e candidatos que disputam o segundo turno eleitoral, 90% dos ataques eram direcionados a mim.  Isso apenas no Twitter. O mesmo estudo não é aplicado ao  Facebook, mas em 2018, decisão judicial fez com que 73 postagens fossem removidas quando já alcançavam mais de 12 milhões de pessoas. Na mesma rede, em 2020, postagens falsas que já alcançavam 500 mil pessoas foram retiradas judicialmente. Se  consideramos a proporcionalidade - Porto Alegre tem 1 milhão e meio de habitantes e o Brasil tem mais de 212 milhões - os números evidenciam a escalada de desinformação entre um processo e outro.  Sendo que no caso do Facebook, a justiça apenas ordena a remoção de notícias absolutamente falsas e não de qualquer outro conteúdo misógino como aqueles relacionados ao meu corpo, cabelo e vida privada. Acredito, portanto, que entre os anos de 2018 e 2020 a violência política de gênero cresceu. Podemos dizer que os alvos da violência política - sobretudo a partir das notícias falsas - são destruídos de forma permanente e também cumulativa, sempre partindo do último estágio alcançado. Isso significa que quando começaram a me atacar em 2020, eles partiram de uma imagem negativa já construída por centenas de outros ataques anteriores.

Além disso, cada vez que a violência política de gênero é autorizada socialmente, ou seja, cada vez que nossos agressores são premiados com mandatos ou não são punidos, sentem-se aprovados, tornando-se, portanto, ainda mais violentos. Quando a eleição de 2020 acabou, por exemplo, eu pensava que levaria muito tempo para uma mulher pública viver situações de violência como aquelas que eu havia vivido, ao menos no ambiente institucional. Apenas alguns dias depois, entretanto, a deputada Isa Penna (PCdoB-SP) teve seus seios apalpados pelo deputado Fernando Cury (UB-SP) dentro do plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo. Quando denunciou, teve que pedir silêncio diante de um plenário indiferente à violência que ela havia sofrido, mesmo que  amplamente documentada. Ele não foi cassado. Um novo limite fora ultrapassado para violentar Isa dentro do parlamento.

Claro, os movimentos feministas, as organizações de mulheres têm apurado seus instrumentos de denúncia e a intensidade de suas mobilizações. Hoje, as expressões violência política de gênero e fakenews são frequentemente usadas, quando eram ignoradas até 2018. Em 2021, o Congresso Nacional aprovou uma lei que criminaliza a violência política de gênero que poderá ter algum impacto nas eleições de 2022. Mas a verdade é que jamais punimos alguém pelos crimes cometidos contra nós. Num país em que o mandante do assassinato de Marielle anda solto, como imaginar que incrementaremos mecanismos que coíbam a violência política de gênero?

Para mim é preciso compreender que a verdadeira mudança da política passa pela participação massiva das mulheres e que a violência política de gênero (nas redes e nas ruas) é um instrumento para nos afastar, impedindo assim que a mudança aconteça.

Para mim é preciso compreender que a verdadeira mudança da política passa pela participação massiva das mulheres e que a violência política de gênero (nas redes e nas ruas) é um instrumento para nos afastar, impedindo assim que a mudança aconteça. Se a sociedade de maneira mais ampla não exigir que as mulheres sejam vistas como cidadãs, não há como imaginarmos um ambiente virtual diferente do que temos hoje.

Infográfico

 

[1]Pesquisa Ideia Big Data realizada entre dias 20 e 23 de julho. Levantamento registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob a identificação BR-04178/2018.

[2]Pesquisa DataFolha realizada entre os dias 26 e 28 de julho de 2018, registrado no TSE sob número BR-08687/2018.

[3] Pesquisa FSB realizada entre os dias 27 e 29 de maio. Registro no TSE de número BR - 03196/2022

[4] Rossi, Amanda & Mori, Letícia. Eleições 2018: Como casais estão sendo afetados pela diferença no voto de homens e mulheres, que nunca foi tão grande. BBC News Brasil, 02/10/2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45687773.

[6] Sempre foi sobre nós: relatos da violência política de gênero. Organização Manuela d’Ávila. 2a edição - Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022.