Pela educação pública – a resistência de Mariane

Pela educação pública – a resistência de Mariane

História

É graças às instituições públicas de ensino que Mariane Souza está onde está: se formando em pedagogia na UERJ e lutando para a valorização da universidade. A Fundação Heinrich Böll encontrou com ela durante a produção da webserie “Pense no seu voto”. Em vídeos e artigos apresentamos as histórias de seis jovens que têm visões críticas do mundo e são comprometidos com mudanças em suas localidades - cada um de seu jeito. Toda semana vamos apresentar uma dessas pessoas inspiradoras.

estudante Mariane Sousa na UERJCreator: Fundação Heinrich Böll. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

Cenas na UERJ em 2017: numa sala de aula vazia, as cadeiras espalhadas contam histórias de aulas passadas, de debates entre professores e alunos, de horas tensas de prova. O verniz da mesa do professor já descascou faz tempo. Mas na madeira exposta alguém deixou uma mensagem de resistência. “Pela educação pública”, está escrito num adesivo amarelo. Fora da sala, no corredor, livros estão espalhados no chão entre esteiras de palha e almofadas. Em frente da divisão de segurança da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), alguém colocou num cartaz uma parte do lema das manifestações contra a crise da educação pública no Brasil: “Pezão, queria que você investisse em educação e esquecesse a UPP.” Debaixo desta frase, letras maiúsculas anunciam: “UERJ EM GREVE.”

Um ano depois, em julho 2018, os cartazes desapareceram das paredes, e não há mais acampamentos nos corredores. No parque ao redor dos prédios, jardineiros em roupas laranja estão cortando as árvores enquanto estudantes estão entrando no portão com as mochilas nas costas. “Nós, que estamos estudando aqui, ainda estamos sentindo as consequências da crise”, diz Mariane Sousa, que nos indica o banheiro no prédio administrativo, porque lá, diferentemente dos outros prédios, tem sabonete e papel higiênico.

O valor dos espaços públicos

Mariane Sousa, 23 anos, está terminando a graduação em pedagogia. Ela entrou na faculdade no verão de 2014, após ter feito uma formação técnica em enfermagem. Sempre queria trabalhar com crianças, e descobriu que seu lugar ia ser no setor educativo. Sendo filha de trabalhadores, estudar numa faculdade privada nunca foi uma opção para ela. Hoje, Mariane se tornou uma defensora da educação pública. “Do jardim de infância até a universidade eu sempre estudei nos espaços públicos, e este lugar me constitui”, diz ela.

Com os estudos na UERJ, começou um processo de transformação pessoal para Mariane. “Foi dentro da universidade pública que eu encontrei um lugar para criticar as coisas que eu percebia que estavam injustas, que de alguma maneira afetavam a minha vida e a vida das pessoas que estavam ao meu redor.” Foi aí que Mariane começou a observar o seu ambiente com um olhar mais crítico. Por que há tão poucas mulheres na política? Para onde vão os investimentos do estado nas escolas públicas? Dentro de Mariane cresceu algo que ela chama de “raiva positiva, raiva de mobilizar.” Quando as coisas se agravaram no inverno de 2017, ela não iria ficar calada.

Universidade pionera

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Desde a sua fundação no ano 1950, a UERJ era uma universidade inovadora. Nos anos noventa, começou a oferecer cursos à noite, abrindo a universidade para trabalhadores. Em 2003, foi a primeira universidade do Brasil a implementar cotas. Hoje, a diversidade do corpo de estudantes e funcionários é o que diferencia a UERJ de outras faculdades. Vinte por cento das vagas são reservadas para estudantes do ensino médio da rede pública, e a mesma porcentagem de vagas é destinada a pessoas negras. Uma de cada vinte vagas cabe à pessoas com deficiência. Nos rankings das melhores universidades do Brasil, a UERJ sempre ocupava um dos primeiros lugares.

Mas quando a crise financeira do estado do Rio de Janeiro cresceu ao longo de 2016, a UERJ foi um dos principais vítimas. No auge da crise, no começo de 2017, o estado lhe devia 360 milhões de reais. Naquele momento, a UERJ já tinha passado por uma extensa greve dos professores, que tinha paralisado as atividades acadêmicas durante todo o primeiro semestre de 2016. Em 2017, professores, funcionários contratados e terceirizados ficaram meses sem receber. Muitas pesquisas tiveram de ser interrompidas pela falta de materiais e recursos para a manutenção de equipamentos. Em outubro de 2017, os professores entraram em greve novamente.

Símbolo da crise sem fim

Creator: Fundação Heinrich Böll. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.Foi nesta época que a UERJ virou o “símbolo da crise sem fim” no estado do Rio de Janeiro. Mariane estava no meio dos seus estudos, e não queria somente observar a crise. Ela se inseriu no movimento “UERJ resiste”. Os livros espalhados no chão eram parte da resistência que Mariane ajudou a organizar. “Promovemos rodas de leitura no hall e nos elevadores para que as pessoas que passassem conhecessem também o que estava acontecendo aqui”, lembra Mariane. Professores, alunos e visitantes sentavam e liam juntos – poesia, novelas, contos. O ritual da leitura não somente criou um sentimento de força nos participantes. Enquanto a impressão que a UERJ dava de fora foi de uma faculdade parada e exausta, Mariane, seus companheiros e companheiras, mostravam que estava viva, mesmo no meio da greve.

Para Mariane, apoiar as reivindicações dos professores também tem sido uma questão de princípios. “Sem os espaços públicos de educação eu não estaria no lugar onde eu estou e muitas pessoas não estarão em diversos espaços se esse espaço público não for de qualidade, se não tiver investimento, e não funcionar. É por isso que defendo a educação pública”, diz ela.

Fé na mudança

As aulas voltaram no começo deste ano. Mariane está terminando seu trabalho de conclusão de curso – com um semestre de atraso, devido à greve, mas sem amargura. Pelo contrário: Mariane vai se candidatar para o mestrado na UERJ. As dúvidas dos amigos sobre o futuro inseguro da universidade não fizeram com que ela mudasse de ideia: A UERJ já virou uma segunda casa para ela, e seu sucateamento é só mais um motivo para seguir na luta. “Hoje eu sou aluna, mas daqui a dois meses eu vou ser oficialmente uma professora”, diz Mariane e continua: “Como é que eu vou me inserir nessa luta? Tem muita gente que quer assistir de camarote. Mas eu espero sempre estar inserida nestes espaços, para buscar os nossos direitos, acreditando que outra sociedade é possível.”

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