A inteligência artificial depende de uma estrutura que vai muito além dos algoritmos: data centers, cabos submarinos, equipamentos, minerais, água e energia. A expansão dessa infraestrutura já mobiliza governos e empresas em diferentes países e levanta questões sobre o uso dos recursos naturais e os impactos sobre os territórios. É a partir desse debate que Fortaleza (CE) recebe, nos dias 9 e 10 de novembro, o II Seminário Inteligência Artificial, Meio Ambiente e Justiça Socioambiental, que reunirá participantes do Brasil e de outros países da América Latina, entre lideranças indígenas e comunitárias, pesquisadores, juristas e organizações da sociedade civil.
O encontro é promovido pelo Laboratório de Políticas Públicas e Internet (LAPIN) em parceria com a Fundação Heinrich Böll, Instituto Terramar e O Joio e O Trigo, com apoio da Climate and Land Use Alliance (CLUA) e outras organizações.
A proposta é discutir quem se beneficia da expansão tecnológica e quem enfrenta seus custos ambientais e sociais. A programação aborda temas como demanda energética dos data centers, consumo de água, minerais estratégicos, ocupação territorial, racismo ambiental, digitalização da agricultura e soberania tecnológica.
No Brasil, o Ceará ocupa uma posição estratégica nesse cenário, por ser ponto de chegada de cabos submarinos que conectam o país a redes internacionais e concentrar projetos ligados à infraestrutura energética. A instalação e a ampliação de grandes estruturas digitais, no entanto, também exigem discutir a disponibilidade de recursos naturais e os efeitos desses empreendimentos sobre as populações locais.
“A expansão da infraestrutura de inteligência artificial não pode acontecer sem participação social, porque seus impactos recaem sobre comunidades, territórios tradicionais, o meio ambiente e o clima. Eventos como este fortalecem a troca de conhecimento e preparam quem é diretamente afetado para participar do debate e reivindicar seus direitos. Justiça ambiental e direitos digitais precisam caminhar juntos.”, afirmou Manoela Vianna, coordenadora de Tecnopolítica da Fundação Heinrich Böll.
O seminário vai discutir ainda parte das experiências de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que convivem com grandes projetos de infraestrutura e disputas pelo uso da terra e dos recursos naturais. A intenção é aproximar os debates sobre direitos digitais e justiça socioambiental e ampliar a participação dessas populações nas decisões sobre os rumos do desenvolvimento tecnológico.
Entre as presenças previstas estão Javier Palummo, da Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais da Organização dos Estados Americanos (OEA); representantes da Defensoria Pública da União (DPU); pesquisadores da rede Tierra Común, do México; além de lideranças do povo Anacé, do Quilombo do Cumbe, do Movimento dos Atingidos por Mineração (MAM) e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).