Ciência e vozes da Amazônia: multivisões sobre as relações entre seres humanos e não humanos

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MULTIVISÕES SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE SERES HUMANOS E NÃO HUMANOS COM A NATUREZA. - Programa de Pós-Graduação em Direito

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Memória do evento
Cristine Takuá é filósofa, educadora , curadora e aprendiz de parteira. Estudou Filosofia na Unesp de Marília e seguiu seus percursos estudando com as plantas, as quais ela diz que foram suas mestras. É coordenadora das Escolas Vivas, movimento de fortalecimento e transmissão de saberes indígena em parceria com a Associação Selvagem. Foi professora por doze anos na Escola Estadual Indígena Txeru Ba’e Kuai’ de sua comunidade. É representante do NEI (Núcleo de Educação Indígena) dentro da Secretaria de Educação de SP e membro fundadora do FAPISP ( Fórum de articulação dos professores indígenas do Estado de SP. É diretora do instituto Maracá que está fazendo a gestão compartilhada do Museu das Culturas Indigenas em SP . Vive na Terra Indígena Rio Silveira, litoral norte de São Paulo.
A minha contribuição no encontro foi trazer uma visão sobre o movimento das Escolas Vivas, que coordeno junto à Associação Selvagem, e também sobre a exposição “O que sonham os invisíveis”, que fiz a curadoria através do projeto Cosmopercepções da Floresta, do Instituto Goethe. As Escolas Vivas são uma rede que busca o despertar das memórias e o fortalecimento das formas próprias de transmissão dos saberes e fazeres ancestrais, a partir da relação com os territórios e com a floresta. Na exposição, reunimos diferentes cosmovisões dos povos da floresta e trabalhamos o sonho como força de transformação e como forma de conexão com os seres invisíveis que habitam e protegem as matas. É no diálogo com esses seres — os ija kuery, os Yamiyxop — que acontece a cosmopolítica da floresta, que ensina como cuidar da vida. A principal mensagem que trouxe foi para que todos olhem e escutem com mais cuidado todos os seres que habitam a mata. Os guardiões estão muito cansados de tanta bagunça e falta de respeito. Os códigos da floresta são sagrados e precisam ser ensinados às crianças, para que aprendam a pedir licença para entrar e sair. A Nhe’ery, Mata Atlântica, é uma floresta sagrada, e o povo Guarani e Maxakali vem há mais de 500 anos resistindo e cuidando para que todas as formas de vida possam continuar. As mães da floresta, pacas, cotias, lontras, onças, resistem para que seus filhinhos existam, assim como nós, mães humanas. Não há escolas vivas se não houver florestas vivas. O futuro da vida depende da ampliação das consciências e do respeito por todas as formas de vida — humanas, animais, vegetais e minerais.
João Campos-Silva é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), além de presidente do Instituto Juruá. Atua com sistemas socioecológicos, bioeconomia e mudanças climáticas, desenvolvendo projetos com povos indígenas e comunidades locais que integram ciência, conhecimento tradicional e políticas públicas para fortalecer a conservação e o bem-estar na Amazônia.
Minha participação no “Ciência e Vozes da Amazônia” esteve atrelada a convicção central: a Amazônia não é apenas um grande reservatório de biodiversidade, mas a casa de uma imensa diversidade de povos e grupos étnicos que interagem com a natureza há milhares de anos, produzindo muita tecnologia de coexistência. Compreender a complexidade sociocultural da região exige, portanto, rever profundamente os processos pelos quais o conhecimento é produzido aqui e, sobretudo, a forma como as estratégias de geração de conhecimento são concebidas. Defendo que não há futuro legítimo para a Amazônia sem a horizontalização das relações entre diferentes sistemas de saber. Isso significa reconhecer que a ciência ocidental precisa dialogar de forma respeitosa e simétrica com a ciência indígena, com os conhecimentos tradicionais e com as artes, que também são formas sofisticadas de leitura, interpretação e comunicação do mundo. Não se trata apenas de incluir novos atores em estruturas já dadas, mas de transformar as próprias bases da produção de conhecimento, para que ela seja mais plural, justa e territorialmente enraizada. Para que isso aconteça, considero fundamental avançar em três frentes. A primeira é fomentar espaços seguros, éticos e interculturais onde diferentes sistemas de conhecimento possam se encontrar sem hierarquia, permitindo processos reais de coprodução. A segunda é criar mecanismos financeiros que cheguem de forma mais direta aos territórios, catalisando experiências interculturais de pesquisa, formação e inovação, sem depender exclusivamente de mediações externas. A terceira é garantir que as políticas públicas sejam concebidas a partir desses conhecimentos e dos próprios territórios, de forma que tenham a cara, a essência e a legitimidade da Amazônia. Foi muito interessante ouvir outras vozes nesse evento fortalecendo essa ideia. Somente assim poderemos pensar saídas consistentes para um futuro mais próspero na região, capaz de contemplar as aspirações sociais dos povos que aqui vivem, assegurando justiça social, sustentabilidade e legitimidade. Em síntese, defender a Amazônia também é defender outras formas de conhecer, criar e construir futuro.
Shamsundar Subbarao é professor associado de Engenharia Mecânica no National Institute of Engineering (NIE), na Índia, e chefe do NIE-CREST, centro de pesquisa e inovação em energias renováveis e tecnologias sustentáveis. Atua há mais de 30 anos integrando tecnologia e práticas comunitárias. Representou o NIE-CREST e a Índia na COP30, com foco em soluções sustentáveis e na integração entre saberes.
Minha participação se concentrou em apresentar uma cosmopercepção indiana da natureza, enraizada na filosofia de “Vasudhaiva Kutumbakam”: o mundo como uma única família. Estabeleci paralelos entre a Amazônia e os Ghats Ocidentais, destacando como comunidades indígenas em ambas as regiões percebem as florestas não como recursos, mas como entidades vivas. Compartilhei exemplos do NIE-CREST, em Mysuru, Índia, onde a tecnologia é integrada às práticas comunitárias para construir sistemas regenerativos de energia, alimentação e água. O que mais me marcou foi a profundidade do diálogo intercultural, no qual saberes indígenas, direito, ciência e antropologia se encontraram para redefinir nossa compreensão da natureza. O conceito de destruição ecológica como perda ambiental e cultural — um “eco-etnocídio” — foi especialmente impactante, ressaltando a necessidade de uma abordagem mais holística da sustentabilidade. Olhando para o futuro, três direções se mostram essenciais: integrar perspectivas indígenas às políticas públicas e à ciência; promover colaborações transdisciplinares entre diferentes sistemas de conhecimento; e incentivar transformações nos modos de vida, baseadas em uma consciência ecológica. A sessão reafirmou que a sustentabilidade não é apenas um desafio tecnológico, mas uma mudança cultural. O futuro depende da nossa capacidade de ouvir, aprender e alinhar o progresso humano aos ritmos da natureza.
Anita Ekman é uma artista e curadora que investiga as relações entre floresta, ciência e tecnologias de resistência de povos indígenas e afrodescendentes. Atualmente coordena projetos culturais no Goethe-Institut em São Paulo e tem se dedicado a revisitar a história das expedições científicas e os imaginários sobre as florestas, articulando arte, pesquisa e construção de redes para abrir espaço a novas cosmologias e formas de pensar a relação entre cultura, biodiversidade e território.
Na minha fala, compartilhei parte da trajetória de projetos que venho desenvolvendo na interface entre arte, ciência e territórios, especialmente a partir de colaborações com povos indígenas e comunidades afrodescendentes. Tenho trabalhado com a ideia de revisitar a história das expedições científicas e dos imaginários produzidos sobre as florestas tropicais, mostrando como muitas dessas narrativas foram construídas a partir de visões coloniais e de um racismo científico que ainda influencia a forma como a biodiversidade e os territórios são pensados hoje. Ao mesmo tempo, busco construir redes entre artistas, pesquisadores e comunidades para abrir espaço para outras cosmologias e tecnologias de existência, nas quais cultura, clima e biodiversidade não podem ser separados. Para mim, a arte tem um papel fundamental nesse processo: ela cria pontes entre o que está sendo produzido pela ciência e os conhecimentos ancestrais presentes nos territórios. O encontro também foi importante por permitir que diferentes iniciativas e pesquisas se conectassem, fortalecendo redes de colaboração que podem gerar novos projetos, debates e formas de imaginar futuros possíveis para a Amazônia.

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