Smilla Harmia
Com a inteligência artificial cada vez mais presente nas disputas políticas, as eleições de 2026 colocam novos desafios para a democracia brasileira. Deepfakes, desinformação, violência política de gênero, algoritmos pouco transparentes e a atuação das grandes plataformas digitais ampliam as disputas em torno da informação e da participação política. Nesta entrevista, Joana Varon, diretora da Coding Rights, analisa as novas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os riscos e possibilidades do uso da IA nas campanhas e a necessidade de ampliar a transparência e a soberania digital para proteger o debate democrático.
Fizemos a cartilha, Desmontando a Máquina, uma parceria da Coding Rights com o Democracia em Xeque, Mulheres Negras Decidem, NetLab e Sleeping Giants Brasil, que visa informar os movimentos progressistas e as candidaturas para que possam entender esse ambiente digital, que é um território em disputa. Essas tecnologias não são neutras e acabam tendendo a priorizar alguns tipos de discursos que muitas vezes prejudicam as agendas progressistas.
Essa é a primeira eleição em que as ferramentas de IA generativa estão disponíveis de maneira mais acessível para a maioria das pessoas. Mas, novamente, é muito comum que as pessoas de candidaturas da extrema direita sejam mais “tech-savvy” [mais familiarizadas com as tecnologias], e brinquem mais com essas ferramentas do que o campo progressista.
Com a cartilha, a gente apresenta informações sobre o que pode e o que não pode ser feito, mas também sobre as próprias ferramentas. A ideia não é afastar o campo progressista da IA por causa dos riscos de desinformação e deepfakes. A gente acredita que é importante ter uma visão crítica, entender e também saber usar essas ferramentas. Na cartilha, a gente traz até uma tabela que mostra, por exemplo, se é possível configurar o uso dos dados para o treinamento dos modelos. Isso ajuda a fazer escolhas mais informadas sobre o uso dessas ferramentas, que podem facilitar muito o trabalho de quem tem uma campanha pequena, um mandato pequeno e várias atividades.
O TSE trouxe resoluções para tratar do debate de IA nas eleições. Entre as obrigações para candidaturas e partidos, estão a identificação do conteúdo gerado por IA, a identificação de chatbots, proibição de pagamentos de influenciadores, a proibição de desinformação e de deepfakes e de conteúdos que prejudicam ou favorecem candidaturas e uma janela de silêncio em que há uma proibição total de divulgar conteúdo sintético 72 horas antes das eleições e 24 horas depois.
E ele traz obrigações também para as plataformas, como colocar um label [etiqueta] no conteúdo que tem uso de IA, remover conteúdos que descumpram essa rotulagem e remover perfis falsos e automatizados que pratiquem crimes eleitorais, proteção da integridade do processo eleitoral — isso já vinha de antes — e proibição de recomendação de voto por chatbots. Se eu entrar no ChatGPT ou no Claude, ele não pode me dizer em quem votar. Mas a gente, como pesquisadores, já está vendo que isso acontece: às vezes, eles dizem que não podem indicar um candidato, mas, se você continua conversando, acabam indicando.
Sistemas de IA não podem criar conteúdo de violência política contra a mulher. Essa resolução também foi inspirada nos casos do Grok, que foi usado para produzir deepnudes. As plataformas precisam ter canais de denúncia, respeitar a janela de silêncio digital, que já vale para as candidaturas, e elaborar planos de conformidade, ou seja, explicar como vão responder a tudo isso.
As resoluções do Tribunal Superior Eleitoral foram atualizadas, mas o desafio sempre é como fazer cumprir o que está na lei. No contexto eleitoral, a gente tem uma questão ainda mais sensível, que é o tempo das coisas. Se você cria um conteúdo desinformativo hoje, um deepfake, um deepnude, ele já causa um dano. E, até você remediar, o processo eleitoral pode ter até acabado. Então, esse timing do período eleitoral, com todos esses conteúdos, é a parte mais sensível.
Um outro medo grande é da interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro, via Estados Unidos, tendo em mente a proximidade dessas plataformas com o governo Trump e os interesses dos Estados Unidos no país. Temos visto uma aliança da extrema direita com os tech bros do Vale do Silício1, que olham para os territórios com um olhar extrativista, seja para as terras raras, seja para colocar data centers perto de fontes de energia. E aí o Brasil tem um peso grande nessas disputas.
Fundação Heinrich Böll: As redes sociais estão entre as principais fontes de informação no Brasil, mas algoritmos, moderação e dados estão sob controle de empresas privadas. Ao mesmo tempo, falta transparência e acesso a esses dados, e a própria lógica das plataformas pode favorecer conteúdos polarizadores. Como vocês avaliam esse impacto sobre a democracia e o que deveria ser exigido das plataformas e do Estado?
A lógica favorece alguns tipos de conteúdo que trabalham com gatilhos emocionais, do medo, da raiva. Potencializam discursos de ódio, potencializam discursos de desinformação. Discursos que colocam o outro — e o outro somos sempre nós, as mulheres, as pessoas LGBTs. Nós temos que lidar não só com a campanha, mas também com a necessidade de se defender de ataques, principalmente as candidaturas de mulheres e pessoas trans. Erika Hilton, por exemplo, é constantemente alvo de ataques, e a dinâmica das plataformas potencializa isso, dando mais visibilidade a quem usa gatilhos emocionais para ganhar audiência.
O discurso de ódio e a violência política de gênero são usados como estratégia de comunicação e de silenciamento. Você fica tentando se defender quando deveria estar trazendo as suas pautas. E aí, por outro lado, tem esse tema de soberania, que a gente estava falando antes. A gente tem toda a regulação, mas como implementar essas resoluções do TSE? Como monitorar? Como fazer cumprir as leis?
Como a gente está falando de aplicar a lei brasileira em outras jurisdições, é sempre uma questão também diplomática fazer valer isso tudo. Hoje tem esse medo de interferência estrangeira via essas plataformas, porque, por exemplo, como você sabe se o recurso que uma candidata progressista coloca para sua propaganda eleitoral na plataforma vai ter o mesmo alcance que um candidato de extrema direita? Não tem essa transparência do algoritmo para saber.
Nos últimos anos, aqui no Brasil, a gente tem uma rede de organizações que monitoram essas plataformas e apontam a falta de transparência, principalmente nessa parte de anúncios. Temos duas grandes organizações, NetLab, da UFRJ, e Sleeping Giants Brasil, que olham para os anúncios e para irregularidades nesses anúncios. O acesso às APIs dessas plataformas também ficou fechado, é pago, prejudicando ainda mais esse tipo de pesquisa. São esses laboratórios e organizações da sociedade civil e de universidades que produzem mais dados para a gente ter algum tipo de transparência sobre essas práticas de anúncios. Mas, ainda assim, é uma caixa-preta.
API (Interface de Programação de Aplicações) é um tipo de canal oficial pelo qual as plataformas liberam seus dados para outros programas. Pesquisadores usavam isso para analisar milhares de publicações, como na investigação de desinformação ou de debates políticos. Com o acesso fechado ou caro, esses estudos ficam mais difíceis ou até inviáveis.
Fundação Heinrich Böll: Independentemente do resultado das eleições, qual deveria ser a prioridade da sociedade civil para fortalecer a democracia digital nos próximos anos?
Acho que, nesse contexto, tudo depende das eleições. Se a extrema direita ganha, a gente fica numa posição de tentar segurar com todos os dentes os direitos que temos hoje.
Mas, se a gente continua com um governo progressista, ainda tem mais espaço de construção. Um resultado pode jogar a gente só para um espaço de resistência; no outro, continuamos resistindo, porque a extrema direita está no Congresso, no Legislativo, mas tem mais respiro para seguir construindo visões de alternativas.
Nos meios digitais, é isso: construir espaços digitais em que possamos trocar sem que a lógica da violência de gênero seja prevalente. Pensar em como montamos infraestruturas digitais soberanas e com autonomia. E é isso que a Coding faz bastante: fortalecer a construção de uma visão crítica coletiva sobre o desenvolvimento da tecnologia entre movimentos, para que também possamos pensar em como desenvolver e criar nossos próprios espaços digitais.
Dados sobre a violência contra as mulheres no ambiente digital
O Instituto de Pesquisa DataSenado , em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência , uma em cada dez mulheres com 16 anos ou mais (8,8 milhões de brasileiras) sofreu algum tipo de violência digital em 2025.
SaferNet: As denúncias registradas de misoginia na internet aumentaram de 2.686, em 2024, para 8.728, em 2025 — um crescimento de 224%.
NetLab/UFRJ: Em 2024, foram identificados pelo menos 137 canais brasileiros no YouTube que faziam parte de um ecossistema misógino estruturado. Juntos, reuniam mais de 105 mil vídeos e cerca de 3,9 bilhões de visualizações; 80% dos canais utilizavam estratégias de monetização.
Estudo de Oxford sobre deepfakes: Entre quase 35 mil variantes de geradores de deepfakes analisadas, 96% tinham como alvo mulheres identificáveis, incluindo tanto figuras públicas quanto usuárias de redes sociais com pouca visibilidade pública.
Radar Antigênero de Gênero e Número: Entre janeiro e junho de 2026, o Radar Antigênero mapeou mais de 3 mil vídeos com discurso antigênero no YouTube brasileiro, um volume 788% maior do que no mesmo período de 2025. A ferramenta monitora narrativas que atacam ou deslegitimam pessoas, direitos e políticas relacionados a gênero e sexualidade. No que diz respeito às estratégias de comunicação, 26 % dos vídeos continham narrativas de medo e ameaça, 11 % desinformação e 10 % teorias da conspiração.
Mais informações e links/ Para saber mais:
AzMina, InternetLab & Núcleo Jornalismo – MonitorA: MonitorA 2024 e o apagão de dados no Brasil (2024)
O MonitorA é um observatório de violência política de gênero e raça nas redes. O artigo discute as dificuldades de acesso a dados das plataformas digitais para o monitoramento da violência política de gênero e raça nas redes sociais.
Coding Rights – Cartografias da Internet
Projeto que mapeia as infraestruturas físicas e as relações de poder que sustentam a internet, abordando temas como extrativismo, impactos socioambientais, vigilância e colonialismo digital.
Coding Rights – Desmontando a máquina: comunicação digital e disputa do debate público (2026)
Cartilha sobre comunicação digital e eleições, com informações sobre inteligência artificial, desinformação, funcionamento das plataformas e estratégias para campanhas e movimentos sociais.
Fundação Heinrich Böll Brasil – O que está em jogo nessas eleições? (2026)
Entrevista com Joyce Souza e Amanda Oliveira, do Instituto Odara, sobre representação política de mulheres negras, violência política de raça e gênero e os desafios das eleições de 2026, incluindo o papel das plataformas digitais e da inteligência artificial.
Fundação Heinrich Böll Brasil – A internet não tem nada de nuvem: tecnologia, território e justiça (2026)
Artigo sobre a infraestrutura material da internet e suas relações com território, data centers, consumo de recursos, extrativismo e justiça socioambiental.
Gênero e Número – O discurso antigênero antes das urnas: confira os achados do Radar Antigênero de janeiro a junho de 2026 (2026)
Apresenta os principais resultados do primeiro boletim semestral do Radar Antigênero, que analisou mais de 3 mil vídeos no YouTube brasileiro entre janeiro e junho de 2026. O levantamento identifica os temas, atores e estratégias discursivas mais frequentes no ecossistema antigênero e discute seus impactos sobre mulheres negras e sobre o debate político em ano eleitoral.
InternetLab – Ache a Regra: Eleições 2026 (2026)
Plataforma que reúne e organiza as regras das principais plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial, permitindo consultar e comparar suas políticas sobre eleições, IA, desinformação, anúncios e outros temas.
InternetLab – Os caminhos de combate à violência digital contra meninas e mulheres no Brasil (2026)
Estudo que reúne dados e análises sobre a violência de gênero no ambiente digital no Brasil e apresenta recomendações para seu enfrentamento, incluindo medidas relacionadas à regulação de plataformas e de inteligência artificial, transparência, canais de denúncia e proteção das vítimas.
InternetLab – Papo de IA: como os chatbots interagem sobre eleições (2026)
Pesquisa que analisa como diferentes ferramentas de inteligência artificial generativa respondem a perguntas sobre as eleições brasileiras, incluindo candidaturas, voto, gênero e integridade eleitoral.
MariaLab – Maria d’Ajuda
Serviço gratuito de apoio emergencial em segurança digital para mulheres, pessoas não binárias, pessoas LGBTQIA+ e organizações da América Latina diante de situações de violência e ameaças digitais.
Sleeping Giants Brasil – Pesquisa do SGBR descobre fraude nos anúncios da Alfinetei e outras páginas (2026)
Investigação sobre falta de transparência e possíveis irregularidades no ecossistema da publicidade digital e sobre como esses mecanismos podem contribuir para a monetização de desinformação e discurso de ódio.
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026 (2026)
Texto integral da resolução que atualiza as regras de propaganda eleitoral para as eleições de 2026 e amplia a regulamentação sobre inteligência artificial e as obrigações das plataformas digitais.
Edição: Marilene de Paula e Manoela Vianna
Notas de rodapé.
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[1] Os tech bros são os CEOs e/ou fundadores das grandes empresas de tecnologia digital. São eles: Elon Musk (Tesla, SpaceX, xAI); Peter Thiel (PayPal e Palantir); Mark Zuckerberg (Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp); Jeff Bezos (Amazon); Larry Ellison (Oracle); Larry Page e Sergey Brin (Google); Sam Altman (OpenAI, dona do ChatGPT).