Pensar local: a alternativa para a saída da crise

A Zona Oeste é o maior reduto eleitoral do município do Rio de Janeiro. Com seus 40 bairros, que possuem também os menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade, a região é muito cobiçada por políticos, sobretudo durante o período eleitoral. A cada dois anos é comum que surjam projetos e iniciativas focadas na população mais vulnerável, mas que desaparecem logo depois das eleições. 

Geralmente estas iniciativas de curto prazo não estão organizadas para se tornarem políticas públicas: são ações imediatistas, como distribuição de cestas básicas, organização de torneios esportivos, asfaltamento de ruas, realização de reparos em praças, prestação de serviços médicos e odontológicos e até distribuição de dinheiro.

Pensar local: a alternativa para a saída da crise

A pandemia da Covid-19 foi um dos fatores que mostrou a inconsistência dessas iniciativas, uma vez que elas não tiveram uma atuação célere diante da emergência sanitária. Já nos primeiros meses de 2020, a situação de internações, mortes e da pobreza aumentou vertiginosamente. Diante da total ausência e descaso do Estado para lidar com a crise, foram os coletivos e lideranças locais - que têm atuação perene nas comunidades - os primeiros a se organizarem para oferecer ajuda imediata àqueles que ficaram mais vulneráveis.

Além de realizarem vaquinhas e arrecadar dinheiro para comprar e distribuir alimentos e itens de higiene e limpeza, esses coletivos também se empenharam em ações de conscientização sobre como se proteger do vírus - tanto nas ruas quanto via whatsapp e redes sociais - fazendo a informação chegar de forma rápida e clara para quem estava sofrendo as consequências do agravamento das desigualdades.

Enquanto isso, notícias falsas sobre a doença se espalhavam pelas redes sem o menor controle. Algumas delas falavam sobre tratamentos mirabolantes (sem comprovação científica), outras alertavam sobre origens fictícias do vírus e muitas diminuíam a gravidade da situação que o mundo estava atravessando A situação ficou ainda mais complicada uma vez que o espalhamento destas fake news fazia parte da própria estratégia de governo para lidar com a pandemia - muitos governadores e prefeitos apoiadores do governo federal embarcaram na ideia e atrasaram a adoção de medidas para conter a crise. No dia 24 de março de 2020, em pronunciamento oficial na televisão, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a Covid-19 não passava de uma "gripezinha", colocando em dúvida todos os protocolos que vinham sendo adotados pelas autoridades de saúde.

Estas fake news, compartilhadas à exaustão nas redes sociais têm suas consequências sentidas até hoje, desde a dificuldade da vacinação de toda a população, até na falta de crença que alguns ainda têm sobre a gravidade do Coronavírus, apesar das mais de 670 mil mortes entre 2020 e 2022 (Painel Coronavírus Brasil).

Por outro lado…

Enquanto o Estado se manteve omisso e preocupado em divulgar desinformação, as organizações de base comunitária começaram a produzir dados demográficos sobre estas comunidades, como número de infectados, mortes, taxas de desemprego etc.

Coletivos do Rio de Janeiro que fizeram a diferença durante a pandemia:
Alguns exemplos se destacaram, como o Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão, que criou um gabinete de crise e organizou a distribuição de insumos para o conjunto de favelas ao longo de seis meses; o LabJaca, do Jacarezinho, responsável por criar o Painel Unificado das Favelas, demonstrando que a situação de infectados e doentes era muito mais grave do que o governo vinha contabilizando; FalAkari, que atuou especificamente com mães e crianças que ficaram desamparadas e União Coletiva Zona Oeste, que arrecadou alimentos para famílias de Santa Cruz, Paciência e Sepetiba.

Na Vila Kennedy, bairro localizado a 40 km do centro do Rio de Janeiro, o coletivo Casa de Aya foi uma das organizações que atuou de forma permanente ao longo da fase crítica da pandemia, tanto distribuindo cestas básicas, quanto fazendo levantamento de dados socioeconômicos sobre o território.

Nesta localidade, entre 2020 e 2021 foram entrevistadas 177 pessoas - a maioria delas beneficiárias da distribuição de cestas básicas. O que mais chamou a atenção foi a predominância de mulheres chefes de família (70%); famílias que não recebiam bolsa-família ou qualquer auxílio do governo (57%); pessoas desempregadas ou em empregos informais (58%) e autodeclaradas negras (84,5%). Sobre educação, a maior parte das famílias não atendeu às aulas remotas oferecidas pelas escolas por falta de infraestrutura de internet em casa (Agenda Vila Kennedy 2030).

O bairro pode ser considerado um microcosmo do que acontece em muitas outras comunidades do Rio de Janeiro. Dados levantados por coletivos de bairros como Santa Cruz, Realengo, Complexo do Alemão e Jacarezinho demonstram resultados parecidos. Outro fator agravante desta desigualdade é a violência.

Marcada pelas disputas de facções, o que faz com que haja conflitos constantes, a Vila Kennedy ainda funcionou, entre os anos de 2018 e 2019, como um dos laboratórios da Intervenção Federal. O legado deixado foi apenas mais violência e sensação de insegurança para os moradores, cenário propício para a atuação de projetos eleitoreiros, forjados de "empresas"; que prometem segurança privada para pessoas que sequer são atendidas por políticas públicas básicas, como educação, transporte e saúde.

O que esperar de 2022?

Em 2018, o Rio de Janeiro votou em massa para eleger Jair Bolsonaro. Neste mesmo pleito, Wilson Witzel (PSC) foi eleito para o cargo de governador. Até então ele era um juiz desconhecido pelo grande público que surfou na onda do bolsonarismo, desinformação e "anti-política", em alta na época. Em 2021, ele sofreu um impeachment e foi substituído por seu vice, Cláudio Castro (PL), também alinhado às ideias conservadoras e ao governo federal.

O legado deste caos político somado à pandemia no Rio é um quadro de 14,9% de desemprego (IBGE, 2022), crises climática, social e econômica em níveis alarmantes. Além disso, no último ano a cidade foi palco de duas chacinas mais sangrentas da história: Jacarezinho, com 28 mortos; e Penha, com 25 mortos. O fato assustador é que esta barbárie faz parte da tática de Castro, que tem conseguido imenso apoio popular com o discurso falacioso de "eliminar bandidos".

Para este ano, as disputas de narrativas serão predominantes, as campanhas voltam às ruas e há algumas urgências a serem tratadas. Depois da perda de mais de 600 mil vidas durante a pandemia e ter alcançado o índice estarrecedor de mais de 33 milhões de pessoas passando fome (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), o projeto prioritário para qualquer candidatura deve ser aquele que remeta à vida e às possibilidades de futuro para as pessoas - sobretudo as mais pobres - fora da crise.

E ainda: também não deve haver tolerância para violência política e nem fake news. Dados do Observatório da Violência Política e Eleitoral, da Unirio, dão conta que o Rio de Janeiro lidera o ranking deste tipo de violência, com 14 casos somente em 2022. Ela significa "qualquer tipo de agressão que tenha o objetivo de interferir na ação direta das lideranças políticas, como limitar atuação, silenciamento, imposição de interesses e eliminação de oponentes".

Sobre as fake news, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotou algumas medidas, sendo a principal delas o Programa de Combate à Desinformação do Supremo Tribunal Federal (PCD/STF), que envolverá 35 instituições, entre entidades de classe, universidades públicas e empresas de tecnologia.

No mais, as agendas de combate à fome, de justiça de gênero, climática e racial devem orientar os projetos de governo. E é a partir dos territórios que surgem possibilidades para virar o jogo. Uma série de iniciativas locais têm se organizado para elaborar propostas de presente e futuro para seus territórios. As Agendas Locais, capitaneadas pela Casa Fluminense, reúnem o que vem sendo pensado a partir destas localidades.

Realizadas por grupos organizados de Duque de Caxias, Itaboraí, Japeri, Magé, Maré, Queimados, Realengo, Santa Cruz, São Gonçalo, São João de Meriti e Vila Kennedy, as Agendas Locais apresentam algumas soluções para problemas cotidianos vivenciados pelos moradores, como saneamento, saúde, transporte, educação, segurança etc. Tudo pensado por quem vive nestas áreas e enxerga saídas viáveis para problemas históricos.

"Nada sobre nós sem nós" é a premissa máxima desta iniciativa. Diante da situação de agravamento cruel das desigualdades, de nada adiantam projetos mirabolantes que não tenham como horizonte escutar e compreender o que os saberes locais já vêm pedindo há décadas. Organizar políticas públicas que garantam alimentação, acesso a oportunidades e dignidade para as pessoas é o mínimo - e isto já está organizado nestes documentos. Basta vontade política para realizá-las. Para 2022 esta é a aposta que precisa ser feita.


Este artigo faz parte da publicação “A democracia aceita os termos e condições? Eleições 2022 e a política com os algoritmos”, disponível para download gratuitamente aqui.