O tsunami plástico

  

D esde o começo da pandemia de Covid-19, profissionais de saúde e as pessoas em geral têm contado com máscaras, equipamentos de proteção individual (EPI) e até embalagens para se protegerem do contágio do coronavírus. Esta busca maior por plásticos de curta duração e uso único tem gerado um tsunami de lixo plástico que cresce vertiginosamente.

Apesar de apresentados como uma solução mais simples e barata para lidar com esta crise sanitária, pouco se fala no impacto que este tsunami terá em nossas vidas e no meio ambiente. Devido a forma de contágio, há uma recomendação da Organização Mundial da Saúde para que a utilização de máscaras seja global, e que se utilizem de máscaras que tenha polipropileno, um tipo de plástico, em sua composição. Porém, apesar de não recomendarem a utilização de máscaras descartáveis para toda a população – e até ensinarem a lavar e reutilizar outros tipos de máscaras sem que haja contaminação –, muitos ainda usam máscaras descartáveis, seja pela praticidade ou pelo medo no manuseio das mesmas.

Só que, se todas as pessoas utilizarem máscaras faciais descartáveis, necessitaríamos, de acordo com estudos, consumir 129 bilhões de máscaras faciais por mês para atender toda a população mundial. No Brasil, o consumo mensal de máscaras seria de 3,5 bilhões por mês.

Levando em conta de que cada máscara descartável pesa por volta de 3 gramas, isto levaria a uma dispersão de mais de 387 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de 338 estátuas do Cristo Redentor por mês! Só Brasil, seriam 10,5 mil toneladas de plástico, o equivalente ao peso de 9 estátuas do Cristo Redentor.

O insuportável peso das máscaras

São quantidades muito grandes de máscaras descartáveis que exigem uma responsabilidade por parte de quem produz e de quem irá utilizar estes dispositivos de proteção. Até porque o plástico é uma das superfícies onde o vírus fica por mais tempo. Porém, sem uma estratégia para descarte e de recomendação para uso de máscaras reutilizáveis, muitas vem sendo dispersas no meio ambiente, invadindo praças, ruas e oceanos.

Em alguns países, este assunto começa a ser levado em consideração. Na Espanha, uma campanha do governo busca conscientizar cidadãos sobre a forma correta de fazer a reciclagem dos equipamentos de proteção individuais descartáveis. Além disso, alertam que a não reciclagem desse material pode contribuir para o aumento de resíduos plásticos que são despejados anualmente em aterros e oceanos, criando um verdadeiro tsunami de plástico.

E os impactos deste tsunami começam a ser percebidos. Depois de um período inicial com leve diminuição na produção de lixo, devido ao isolamento e queda no poder aquisitivo de parte da população, houve alta na produção de resíduos sólidos, especialmente nos casos de lixo hospitalar.

Em junho de 2020, com a retomada dos atendimentos ambulatoriais e de cirurgias afetadas pela pandemia e o aumento do número de pacientes acometidos pela Covid-19, a geração de lixo hospitalar cresceu 20% no Brasil comparada a 2019. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), a geração média de lixo hospitalar por pessoa infectada e internada para tratamento de Covid-19 tem sido de 7,5 quilos por dia, sete vezes mais do que a média diária de produção de lixo por habitante (1,1kg/dia).

Percebe-se também aumento no consumo dos plásticos de curta duração, como embalagens plásticas e descartáveis, a partir do aumento nos gastos de delivery. Entre janeiro e maio deste ano houve um aumento de quase 95% no gasto com aplicativos de entrega comparado a 2019, de acordo com a startup de finanças Mobilis. Se, antes da pandemia, pouco mais de um terço do consumo de plásticos era daqueles com até um ano de vida útil, como embalagens plásticas, estima-se que este percentual aumentará significativamente.

E apesar dos impactos ambientais e sociais deste tipo de plásticos, existe uma tentativa da indústria do plástico de “vender” a importância desses produtos para manter os alimentos livres do vírus, mesmo havendo outras formas menos impactantes ao meio ambiente, como a reutilização de materiais. Especialistas dizem, por exemplo, que lavar os copos com água quente e sabão é suficiente para destruir qualquer traço do vírus, possibilitando a sua reutilização, ao invés de copos plásticos descartáveis.

O discurso a favor de materiais plásticos descartáveis tem repercussões e consequências. Um exemplo vem do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), onde uma liminar, em ação movida pelo Sindicato da Indústria de Material Plástico, Transformação e Reciclagem do Estado de São Paulo (Sindiplast), suspendeu a lei da capital paulista que proíbe o fornecimento de copos, pratos e talheres de plástico a partir de 1º de janeiro de 2021. No entendimento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), o material atende às necessidades de higiene e segurança na prevenção da Covid-19. Para termos uma ideia do impacto desta decisão, a ABRELPE estima que 17% do lixo coletado pelos catadores no país é de plásticos.

A pandemia também afetou gravemente os sistemas de reciclagem. Houve um aumento de 25 a 30% na coleta de materiais recicláveis durante o período da pandemia comparado com o ano anterior, de acordo com a ABRELPE. Porém, segundo esses dados, grande parte do volume coletado está sendo encaminhado diretamente para aterros sanitários, devido ao fechamento ou diminuição da atuação das cooperativas e unidades de triagem em diversas cidades.

No Brasil, salvo raras exceções, quase todo lixo reciclado passa pelas mãos de catadores. E esses, autônomos ou cooperados, continuaram em grande parte trabalhando para conseguir seu sustento, mesmo os que fazem parte do grupo de risco. Muitos estão sem ter onde vender o material coletado, já que as cooperativas e sistemas de triagem, em sua maioria continuam fechadas. Soma-se a esta situação, a falta de cuidados da população na hora de dispensar o lixo, uma preocupação constante no dia a dia dos catadores.

Para diminuir os efeitos desta situação é preciso uma combinação de esforços coletivos entre todos os atores para reduzir o impacto deste onda avassaladora de plásticos provocada pandemia, estimulando estratégias e programas de lixo zero.

O peso do lixo hospitalar na pandemia
Geração média de lixo hospitalar por pessoa
infectada e internada para tratamento de Covid-19
tem sido sete vezes maior do que a média diária de
produção de lixo por habitante no Brasil.

Grupos da sociedade civil reivindicam também o incentivo à promoção de políticas e outras medidas que reduzam de forma geral a produção e o uso de plásticos, assim como a eliminação da produção de plásticos descartáveis, apresentando também alternativas que desconstruam a narrativa de segurança no uso desses materiais.

No debate sobre a reciclagem, há uma demanda do movimento nacional dos catadores de material reciclado para aliar uma economia circular à inclusão socioprodutiva das catadoras e catadores de materiais recicláveis, valorizando e reconhecendo o papel essencial desses na cadeia produtiva da reciclagem. Além disso, ainda buscam o estímulo a projetos de reciclagem popular.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos apresenta algumas medidas para que a indústria do plástico possa ser transparente quanto à informação sobre sua produção e resíduos, assim como define sistemas de logística reversa, mediante retorno dos produtos após o uso pelo consumidor, de forma independente do serviço público de limpeza urbana e de manejo dos resíduos. O próximo passo é implementá-las.

Como indivíduos, há medidas que cada um pode tomar para contribuir com a redução do tsunami. A limpeza e separação dos materiais para mandar a reciclagem, por exemplo, constitui um hábito que não se pode perder. A diminuição do alto consumo de plástico também é outra ação que cada um pode tomar, para que consigamos reduzir a média de aproximadamente um quilo de lixo plástico produzido por habitante a cada semana no país. Evitar o envio de materiais de higiene, como luvas e máscaras, para coleta seletiva junto com o material reciclável e, sempre que possível, separá-los em sacolas próprias ou no lixo do banheiro.

Seja do setor empresarial, membro do governo ou indivíduo, todos temos um papel importante na redução deste processo. Num período em que temos mais contato com o plástico do que temos com nossos familiares, é fundamental que aumentemos os esforços para reutilizar e reciclar o lixo plástico, enquanto repensamos nossas atitudes e comportamento com o fim de reduzir a produção e o uso do plástico. Somente assim conseguiremos superar esse tsunami plástico.