Intervenção poética contra o racismo - a luta de MC Martina

Intervenção poética contra o racismo - a luta de MC Martina

História

Jovem favelada, poeta e ativista - Sabrina Martina não se deixa paralizar pela desilusão com a política no Brasil. A Fundação Heinrich Böll encontrou com ela durante a produção da webserie “Pense no seu voto”. Em vídeos e artigos apresentamos as histórias de seis jovens que têm visões críticas do mundo e são comprometidos com mudanças em suas localidades - cada um de seu jeito. Toda semana vamos apresentar uma dessas pessoas inspiradoras. 

MC Martina Na laje do Instituto Raízes em Movimento no Morro do Alemão, MC Martina apresenta sua poesia. – Creator: Anne-Kirstin Berger/Fundação Heinrich Böll. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

Antes de dar a primeira batida, Sabrina Martina está totalmente concentrada. Ela foca na câmera que está na frente dela, cerra o punho e diz: “São os pretos que mais morrem, correm, sangram e levam chibatadas. Que estão lotando cada vez mais as senzalas no país que tem a terceira maior população carcerária.” Cada frase é um chute na boca do estômago.

Sabrina Martina é moradora do Morro do Alemão, uma favela que faz parte do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro. Ela é uma jovem de vinte anos, poeta e organizadora do Slam Laje, uma competição de poesia que acontece na favela onde ela mora. Ela também faz parte do coletivo Poetas Favelados e do Movimentos, dois grupos que denunciam a política  da guerra às drogas no Brasil. “Muitas pessoas consideram aquilo que eu faço ativismo”, diz Sabrina Martina. “Eu ainda estou descobrindo o que é ativismo. Mas acho que de alguma maneira geral é lutar pelo que a gente gosta e pelo que acredita.”

Na sua trajetória, a jovem sempre se envolveu com movimentos sociais, grupos e organizações da favela: O Instituto Raízes em Movimento, o Coletivo Papo Reto e a Tia Bete, uma moradora que criou programas de educação na favela, entre outros. “Se hoje em dia eu tenho essa visão, esse pensamento crítico, eu devo à galera aqui do morro”, diz Sabrina. “São pessoas que vieram antes de mim. Então eu acho que é saber olhar pra trás pra ver o que é que essa galera fez, pra gente se unir mesmo.”

Enraizada na comunidade

É impossível subir a Avenida Central do Morro do Alemão com Sabrina sem que ela pare para cumprimentar uma vizinha, fale com um menino e discuta o jogo do Flamengo do dia anterior com um grupo de moradores que estão sentados na sombra. Todos conhecem “MC Martina”, cuja carreira como poeta começou com uma coincidência: depois do trabalho na organização de um evento na Cidade de Deus, ela perdeu o ônibus para  casa e acabou assistindo um slam. O evento, o estilo de poesia, as mensagens que os artistas transmitiram – tudo isso impressionou a Sabrina Martina, que começou a escrever textos próprios logo depois. As mensagens que ela transmite são fortes, provocantes: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, uma frase já usada pelos musicos Gog e Elza Soares, é o começo de uma poesia, e em outra ela pergunta: “De quantos (negros) você já escondeu seu celular porque achou que ele ia te assaltar?”

Sabrina noa laje do Insitituto Raízes em Movimento, organização parceira da Fundação no Complexo do Alemão. – Creator: Anne-Kirstin Berger/Fundação Heinrich Böll. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

“A inspiração vem da minha realidade”, diz MC Martina sobre suas mensagens. “Eu conto das coisas que eu vivo, das coisas que eu passo aqui dentro (no Alemão) e fora daqui também. Eu só observo e escrevo.” Não é coincidência então que muitos textos de MC Martina tratam do racismo. A poesia virou o meio que lhe permite salientar e debater experiências de discriminação, seja pela sua cor de pele negra, pelo seu gênero ou pela origem. Isso tanto na cidade, frente a um público branco e privilegiado, quanto dentro da favela. Com a própria família, Sabrina tem dificuldades de conversar sobre suas experiências de racismo. “Se eu chegar em cima do meu irmão e falar, ‘cara, aquela vez que tu foi ao shopping, e o cara ficou te olhando e te seguindo na loja, isso foi racismo’, ele vai achar que estou cismada com ele.” Mas através das suas poesias, MC Martina consegue envolver as pessoas para abordar esse assunto difícil. “Quando tem um lance de um vídeo ou me chamam para participar de um programa, eles me entendem. Já me vem de outra forma, me levam a sério.”

O successo leva a fama

Ultimamente, MC Martina está recebendo muitos convites para se apresentar em slams no país inteiro, programas de TV e até participou como palestrante num TED talk em Porto Alegre. Mesmo assim, ela segue atuando longe dos grandes palcos, organizando “batalhas de poesia” no morro onde cresceu e “ataques poéticos” nos ônibus, quando vários poetas recitam seus textos dentro do transporte. “Intervenção poética” é o nome que os jovens poetas deram para este tipo de ação.

Neste dia no mês de agosto, no Morro do Alemão, MC Martina fica duas horas contando sobre sua trajetória. Ela ri, fala e posta vídeos na sua conta de Instagram – tudo simultaneamente. Depois da conversa, ela recita sua poesia sobre racismo, que é, no final das contas, uma poesia sobre ela - sua experiência de vida, sua denúncia dos abismos da sociedade na qual ela vive, e sua expressão de esperança.

“Ando na contramão com vários favelados,

existindo e insistindo.

Existimos a traves da arte.”

Enquanto MC Martina está dizendo essas frases na laje do Instituto Raízes em Movimento, caminhões do exército passam na rua embaixo, com fuzis apontando para as casas. A luta de MC Martina não precisa de armas de fogo – ela tem as suas palavras.

O que é um slam?

O slam, cujo nome original em inglês é poetry slam (“batida de poesia”), é uma competição entre escritores de poemas. Recitam seus próprios textos, muitas vezes nas ruas e nos espaços públicos frente de um público que vota sobre o ganhador. Muito popular nos Estados Unidos, onde surgiu nos anos 80, o slam está cada vez mais conhecido no Brasil. Uma das peculiaridades do slam brasileiro é sua dimensão política, especialmente nas periferias das grandes cidades, onde os poetas abordam problemas sociais, como a homofobia, o racismo, o machismo e a violência.