“Há uma assimetria muito grande entre a grande visibilidade dos usuários e a opaca estrutura de vigilância montada em torno deles”

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Fernanda Bruno no evento Ambivalências Digitais, realizado pela Fundação Heinrich Böll Brasil em outubro

HBS entrevista Fernanda Bruno, pós-doutora e coordenadora do CiberIdea - Núcleo de Pesquisa em Tecnologias da Comunicação, Cultura e Subjetividade da UFRJ *

Em 2001, Doug Laney, um analista de Data Management, articulou a definição do termo Big Data em três Vs: volume, velocidade e variedade. Em todos esses três Vs pode-se observar um aumento exponencial nos últimos anos. Um infinito número de dados é criado a cada dia – mas a maior parte permanece nas mãos dos grandes monopólios digitais, como o Facebook, o Google e a Microsoft. Enquanto isso, à sociedade não é informada para quem esses dados são vendidos ou como são usados. Em entrevista à Fundação Heinrich Böll Brasil, a pós-doutora Fernanda Bruno critica essa falta de transparência, fazendo alertas sobre os perigos envolvidos nesses processos e defendendo que tudo que for gerado pela sociedade pertença de fato aos cidadãos.

Fernanda Bruno é pós-doutora pela Sciences Po - Paris, onde atuou como pesquisadora visitante de 2010 a 2011. Desde 2005, coordena o CiberIdea, Núcleo de Pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro para a investigação das mudanças culturais incitadas pelas novas tecnologias de comunicação e de informação. Em outubro, Fernanda esteve presente no debate “Segurança digital e os códigos”, promovido pela Fundação Heinrich Böll como parte da comemoração de seus 15 anos no Brasil.

HBS: Hoje há cerca de 1,9 bilhões de usuários de smartphones. Quase 10 vezes mais do que em 2010. Quais são os impactos mais expressivos desse crescimento, também nas redes sociais, para a sociedade?

Fernanda: Os impactos são muitos, difícil listar todos, porém, para entender os mais significativos, primeiro devemos considerar que com a ampliação do número de usuários de smartphones e da internet amplia-se também o volume de dados gerados.  As previsões são que a geração de dados siga crescendo de forma exponencial. Para se ter uma ideia: quase a totalidade dos dados que circulam no que chamamos de web hoje foram criados nos últimos dois anos e esse crescimento não é apenas quantitativo. O diferencial dessa grande massa de dados é que ela é gerada pelos próprios usuários e pelo seu comportamento na rede, sendo captada por diversas partes da web, o que tem impactos importantes em diversos campos e também para a vigilância – já que Estados e corporações estão captando esses dados, criando perfis e atuando a partir deles. Portanto, um primeiro grande impacto seria que nossa forma de se comunicar e agir no mundo vem implicando diretamente na criação de grandes arquivos vulneráveis ao monitoramento e à vigilância das corporações e do Estado.

Um segundo impacto, e agravante do primeiro, é o fato de esses dados e sua forma de processamento não serem visíveis para o usuário. Há uma assimetria muito grande entre a grande visibilidade dos usuários e a opaca estrutura de vigilância montada em torno deles. 

Por fim, um último grande impacto seria o tipo de conhecimento e de informação que esses dados passam a fornecer. Nunca as ciências humanas e sociais estiveram frente a um volume tão grande de dados empíricos, surge então um laboratório a céu aberto que nós construímos com essa tecnologia, no qual somos “cobaias” que geram conhecimento fechado sobre nós mesmos para a propriedade de corporações privadas. Um desafio a partir dessa questão é o de criar políticas que favoreçam a produção coletiva de conhecimento para garantir benefícios coletivos e não, como acontece hoje, para que alguém se torne proprietário disso.

HBS: Falando em grandes volumes de dados, que perigo o Big Data gera? No último ano o Facebook comprou o Whatsapp o que gera um acúmulo muito maior de dados na mão de uma só empresa, qual o impacto se continuarem acontecendo aquisições entre as grandes empresas da internet? Você vê a possibilidade de um monopólio e qual seria o perigo que isso traria?

Fernanda: Eu acredito sim que nos últimos anos temos vivido uma tendência de formação desses monopólios. As grandes empresas digitais como Google, Facebook ou Microsoft têm comprado aplicativos que se tornam muito populares e com isso acabam uniformizando o sistema ao aplicar os mesmos protocolos de uso, de privacidade, proteção de dados, etc que poderiam ser um pouco mais diversificados se estivessem nas mãos de corporações diferentes.

 O risco do monopólio do Big Data é um grande problema, pois quem o tiver vai possuir, também, um monopólio sobre a inteligência e a memória coletiva. Quando a internet surgiu, o que se esperava é que se pudesse tratá-la de diversos modos, mas não é isso que vem acontecendo. Cada vez mais as pessoas acessam jornais e informações através de redes sociais, como o Facebook, que é uma plataforma que filtra as informações com as quais nos deparamos, ou seja, nós temos muito pouco controle sobre o que nós visualizamos. Um perigo grande desses monopólios é criar esses filtros sobre a informação, que já preestabelecem o que teríamos acesso ou que tentam prever o que gostaríamos, e acabam por se converterem em um monopólio da atenção coletiva. O que nós vamos prestar ou não atenção acaba sendo pautado por essas corporações, por filtros pouco transparentes e sobre os quais o usuário tem muito pouco controle.

Isso não é um problema da web em si, pois se nos lembrarmos dos seus tempos mais remotos, notamos que a web vivia sob uma lógica de múltiplos tempos e segundo uma topologia bem mais aberta que te convidava a ir de um lugar para muitos outros todo o tempo. Os aplicativos tendem a ser bem mais fechados, pois neles a cultura dos hiperlinks se perde junto com os “tempos múltiplos”. Você fica preso no que acabou de ser dito, no presente. Não há hiperlinks no Instagram, por exemplo. E em redes como o Facebook é difícil acessar memórias que você possa recuperar facilmente. A própria rede te sugere o que você gostaria de lembrar e quando você quer buscar algo que ocorreu há apenas uma ou duas semanas atrás é uma dificuldade enorme.

HBS: É possível não ser vigiado hoje em dia? Se não é possível fugir da vigilância, por que você acha importante, se preocupar com isso?

Fernanda: Não é possível não ser vigiado hoje, pelo menos não se você for habitante de uma grande cidade. Porém, não é porque não podemos evitar que não devamos nos preocupar ou que estejamos felizes com isso. Preocupações com a garantia de direitos constitucionais e civis conquistados de longa data, como o da privacidade e o da proteção de dados pessoais devem permanecer sempre no nosso horizonte, mas essa não deve ser a nossa única preocupação. É muito importante ficar atento aos efeitos coletivos desse processo, pois não há apenas vigilância particular do indivíduo, e precisamos criar políticas atentas ao modo como lidamos coletivamente com as informações que criamos sobre o nosso mundo. Mais controle, mais autonomia, mais pluralidade, mais democratização, são fundamentais para que a gente não fique à mercê dos monopólios que abordamos.

*Colaborou com a transcrição Lucas Manuel