Manifestações e vandalismo desafiam a democracia

Manifestações e vandalismo desafiam a democracia

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Manifestações e vandalismo desafiam a democracia

 

As manifestações evoluíram como uma espiral, ampliando a cada momento o número e a diversidade de participantes, incluído, a partir da redução da tarifa dos transportes, demandas diversificadas, embora tendo como costura comum a cobrança de direitos que estavam sendo desrespeitados. Uma pauta coletiva, envolvendo direitos cidadãos à saúde, educação, transporte e segurança de qualidade foi-se afunilando ao longo do tempo. Majoritariamente composta por jovens que nunca haviam participado de manifestações políticas, mobilizados por intermédio das redes sociais, uma multidão crescente e diversificada ocupou os espaços públicos e passou a vocalizar suas demandas, fenômeno que tem sido chamado de “a voz das ruas”.

Autoridades públicas e a mídia tentaram relativizar o potencial das manifestações, apresentando-as como movimentos inconsequentes de jovens de classe média alta, pouco afetada pela tarifa do transporte urbano, passando depois a desqualificá-los como atos de vandalismo e individualismo anárquico. Posteriormente, assistiram perplexos e atemorizados a essa insurgência epidêmica, contagiando novos grupos sociais, outras faixas etárias e que agregava à demanda inicial uma infinidade de reclamos em relação aos serviços públicos.

A perplexidade diante das manifestações mostrou a incapacidade das elites intuírem que a produção simbólica de uma sociedade de espetáculo poderia levar o povo a perceber que algo estava errado. Predominava até então o discurso que incensava os avanços do país onde todos pertencem à classe média, as instituições democráticas são sólidas, as favelas foram pacificadas, os megaeventos serão um grande sucesso atraindo investimentos internacionais.

O fio invisível que une todas as reivindicações e demandas é a necessidade de aprofundar a democracia, de tal forma que a cidadania se sinta respeitada pelas instituições governamentais, responsáveis por assegurar sua segurança e seus direitos a uma vida digna, na qual a polícia proteja os cidadãos, os parlamentares representem a vontade dos que os elegeram, o Executivo cumpra o programa para o qual foi eleito, dando prioridade à melhoria dos serviços públicos que atendem às necessidades dos cidadãos ao invés de entregá-los aos interesses empresariais. Processos decisórios abertos, participação e controle social, prestação de contas, separação entre governo e interesses privados, punição para as práticas de corrupção, prioridade para as demandas coletivas, atenção de qualidade e respeito dos direitos cidadãos, pelos serviços públicos e pela polícia; essa foi a voz do povo levantada em todo o país.

A desconfiança em relação às instituições públicas e privadas ficou patente, e, por trás das reivindicações de direitos denegados, a multidão exigia o aprofundamento da democracia, por meio de processos decisórios transparentes e participativos, nos quais as prioridades coletivas não fossem constantemente solapadas pelos interesses empresariais. Para isso, foi exigido dos governantes vir a público e, pela primeira vez, prestar contas de seus atos nos contratos para o transporte público.

Uma das questões que merece análise e reflexão foi a explosão de violência nas ações policiais, mostrando que a polícia militar ainda é uma herança da ditadura, voltada para a repressão da população e defesa do Estado. A truculência policial que é cotidianamente vivenciada nos bairros pobres das periferias e favelas transbordou esses limites, mostrando-se sem rebuços nas imagens que se espalharam pelo país. Por outro lado, assistiu-se a um fenômeno novo, que foi a presença de grupos de manifestantes que enfrentaram a polícia e destruíram bens públicos e privados em torno das manifestações, majoritariamente pacifistas.
Identificados genericamente como vândalos pela mídia, a composição desses grupos começa a ser investigada tanto pela polícia como pelos cientistas sociais. O termo vandalismo é definido no Dicionário do Aurélio como “Destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito”. Talvez aí encontremos a principal pista para desvendar o fenômeno inusitado em uma sociedade que se quer crer ser formada por homens e mulheres cordiais. Em outros termos, a crise de confiança que atravessa o conjunto das instituições permite que diferentes fatores e atores se responsabilizem pela erupção da violência entre os manifestantes.

Além da violência institucional cotidiana a que são submetidos os pobres na sua relação com os serviços públicos, as estatísticas sobre a violência mostram que os jovens negros e pardos são as principais vítimas e também são a quase totalidade da população carcerária. O fenômeno recente de aumento da violência nas regiões Norte e Nordeste, onde houve maior impacto positivo de redução da pobreza como resultado das políticas governamentais, demonstra que o descaso com as políticas universais de saúde, segurança e educação pode ser responsabilizado pela falta de coesão social que se manifesta em atos violentos.

A existência de grupos de jovens que se organizam através das redes sociais conclamando a violência, tais como torcidas organizadas ou grupos xenofóbicos que perseguem homossexuais e nordestinos, embora conhecida, nunca foi considerada uma ameaça social, dado o reduzido número de seus participantes. Alguns outros grupos marginais como milicianos e traficantes são mesmo tolerados e usados pelos políticos em suas campanhas eleitorais.

O que foi realmente novo foi o crescimento de adeptos da violência entre os jovens de classe média, movidos por ideologias anarquistas e de esquerda, congregados por meio das redes em torno táticas e indumentárias que identificam a estética dos Black Block. A rejeição do atual sistema capitalista, e das relações entre Estado e Mercado, pôde ser vista nos alvos preferenciais das suas ações contra bancos e prédios públicos.

A inusitada atuação simultânea de grupos tão distintos não indica, no entanto, uma articulação política entre eles. Revela, sim, a reação à violência policial contra a população, à sua atuação exclusiva na defesa do patrimônio estatal e dos governantes, a insurgência ante o descaso governamental com as demandas sociais, a rejeição de uma democracia limitada pela corrupção e patrimonialismo. Embora essas tenham sido as bandeiras gerais que mobilizaram mais de um milhão e meio de indivíduos em manifestações pacíficas, não resta dúvidas que o descrédito das instituições e a ausência de bases de legitimação do poder são o caldo de cultura para emergência da violência. Mesmo que isto não configure um movimento coerente ou bases sociais consistentes tais demonstrações de violência geram um clima de insegurança entre a população e demonstram a fragilidade da democracia no país. Por outro lado, ao tornar-se o centro principal da atenção da mídia, desvia a atenção dos problemas sociais centrais que mobilizaram as manifestações e reforçam a estratégia de militarização do social que já estava em curso, em especial nas favelas. O fato da polícia ter realizado uma chacina na Favela da Maré, com um saldo de nove mortos já foi esquecido pela mídia que deplora as lojas e bancos quebrados durante as manifestações no rico bairro do Leblon.

A tensão entre o aprofundamento da democracia proposto nas manifestações e a radicalização das ações de violência que desestabilizam a democracia mostra que são caminhos distintos, porém se encontraram nessa conjuntura, de forma algumas vezes sinérgica, outras vezes contraditória. Não nos resta, no entanto, outra saída que não seja a radicalização da democracia, com a socialização dos instrumentos de poder, da riqueza e da própria segurança.

Foto: Manifestação pela saída do governador do do Rio de Janeiro Sérgio Cabral em 14 de julho de 2013/ Fernando Frazão/AB - conteúdo  publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil

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cassia

Texto de extrema clareza e coesão. As manifestações políticas resultado das múltiplas situações estabelecidas por um sistema que não atende aos anseios da da população brasileira

brunaf

Olá Cassia.
Obrigada pelo comentário.
Ficamos felizes em saber que você gostou do texto e tem frequentado o site.
Volte sempre.
Att,
Karina Merencio
Estagiária de Comunicação