E se os Lehman Brothers fossem Lehman Sisters... ?

E se os Lehman Brothers fossem Lehman Sisters... ?

Lehman Brothers Sede do banco Lehman Brothers, New York. Creator: Marques Stewart. Creative Commons License LogoEsta imagem está sobre licença de Creative Commons License.

No dia 15 de setembro de 2008, o pedido de falência do banco de investimentos Lehman Brothers (Irmãos Lehman) detonou aquela que é conhecida como a maior crise financeira desde o crash de 1929, resultado de um sistema corrupto e fraudulento, marcado por especulação, bolhas e sustentado por sucessivas desregulamentações apoiadas pelos governos. Se por um lado o colapso do Lehman Brothers marcou um ponto de inflexão na crença hegemônica e incondicional da racionalidade e ‘eficiência’ dos mercados, por outro, pôs em marcha uma estratégia de re-legitimação do sistema financeiro no qual as mulheres e a dimensão de gênero assumem um papel estratégico.

Na sequência da crise financeira de 2008/09, teve destaque na imprensa anglófona a preocupação com as relações de gênero e o mundo financeiro. Vários artigos na época destacaram a masculinidade como uma variável que poderia ter sido causa da crise, especulando sobre o estilo mais ‘prudente’ de investimentos das mulheres e predizendo o fim da era de domínio dos homens nas finanças globais.

Ironicamente, em 2008, ao quebrar, o banco Lehman Brothers tinha uma mulher, Erin Callan, como principal executiva financeira (chief financial officer - CFO).

Funcionária do banco desde 1995, Erin Callan foi convidada a assumir o cargo de CFO no final de 2007. Segundo ela, enquanto ainda estava se familiarizando com a função viu-se no papel de ser a responsável por defender a situação financeira do banco frente aos céticos e aos vendedores a descoberto (short sellers). Foi acusada inclusive de apresentar dados e análises enganosas aos acionistas e acabou deixando o Lehman Brothers em julho de 2008. Até hoje segue respondendo aos processos judiciais de responsabilidade civil com relação às operações que resultaram no pedido de concordata do banco em setembro de 2008.[1] Durante a crise, Erin foi uma das mais visíveis e vilificadas figuras de Wall Street, apontada como a ‘personificação’ da imprudência do banco, e se ressente de ter sido apresentada ao público de uma forma solitária, como se isolada do resto do time de gerentes e executivos, caracterizada como articulando sua visão ‘pessoal’ de gestão das finanças, ao invés da visão institucional da empresa.

Uma das expressões públicas deste discurso sexista foi a líder do partido trabalhista da Inglaterra, Harriet Harman, que chegou a alegar que ‘a culpa da crise financeira era devida à dominação exclusivamente masculina nos principais cargos dos bancos’. Ela sugeriu que a presença de mais mulheres nas diretorias e conselhos das instituições financeiras – já que afinal as mulheres representariam mais da metade da força de trabalho na indústria de serviços financeiros, sendo a maioria nos trabalhadores de bancos e agências de seguros - poderia ter atenuado, ou até evitado, o impacto da crise e do colapso; em 2007 apenas 3.6% dos diretores executivos nos conselhos das 100 principais empresas do mercado financeiro da Inglaterra eram mulheres. [2]

Críticos dos riscos da naturalização destes argumentos apontam que as capacidades diferenciadas das mulheres e do chamado ao seu ‘papel a cumprir’ nos tempos de crise poderiam estar vinculados a uma instrumentalização, a serviço dos interesses e da recomposição do próprio sistema. Da mesma forma, argumentos naturalistas e que reforçam uma visão de essencialismo de gênero acabariam por reduzir a análise econômica e as desonestidades das corporações à características individuais (masculinas) mais do que as pressões que estão incorporadas nas estruturas do sistema capitalista para produzir o máximo de lucro no menor tempo possível.[3] Por outro lado, o sexismo dos argumentos que culpam os homens pela crise, além de não ir à raiz do problema, foi apontado como útil para respaldar uma série de políticas e medidas supostamente ‘feministas’ apresentadas para remediar os efeitos da crise, mas que na verdade seriam ‘anti classe trabalhadora’ ao representarem um risco de divisão desta em critérios ‘de gênero’ (assim como de raça, de nacionalidade,  etc.).[4]

Gênero e Wall Street

De fato, atribui-se à Christine Lagarde, à época Ministra de Economia, Indústria e Emprego da França, senão o início do debate público, ao menos da consideração da perspectiva de gênero com relação à crise financeira e à condução das finanças globais, assim como uma variável importante para sua reestruturação.

Em resposta a um jornalista que lhe inquiria sobre qual a força particular das mulheres em tempos de crise, Lagarde afirmou que ‘Se os Lehman brothers fossem Lehman sisters, a crise econômica de hoje claramente seria bem diferente'. Em um artigo para o jornal inglês Herald Tribune no qual comenta e explora os argumentos que sustentam sua polêmica declaração, Lagarde argumenta que quando as mulheres são chamadas à ação em tempos de crise isso se deve ao seu auto-controle, senso de responsabilidade e grande pragmatismo em situações delicadas e conclui citando Eleanor Roosevelt (esposa do Presidente Franklin Roosevelt e primeira dama dos EUA entre 1933 e 1945 e os anos de recuperação da crise econômica sob o New Deal) sobre as qualidades das mulheres em tempos de crise: ‘uma mulher é como uma bolsa de chá – você nunca sabe o quão forte ela é até que esteja em água quente.’[5]

Vale destacar aqui o documentário Inside Job (2010)[6], que faz uma crônica histórica e ressalta as mudanças no ambiente político e nas práticas bancárias dos EUA que ajudaram a criar a crise financeira e dos homens por trás das decisões que levaram à crise.[7] O filme trata da corrupção sistêmica dos EUA pela indústria de serviços financeiros e as suas conseqüências para o país e para a economia mundial.

O universo do sistema financeiro retratado no documentário é apresentado como essencialmente masculino, com exceção das falas em várias ocasiões de contraponto, sempre de forma calma e ponderada, de Christine Lagarde, que ao tempo da crise era Ministra da Economia da França. Lagarde, chamada pela revista Newsweek em 2007 ‘uma potência francesa com uma sensibilidade americana’ (a French powerhouse with an American sensibility) foi a principal figura a conduzir a resposta da União Européia à crise, incluindo a regulação mais estrita do sistema bancário. Com o contraponto que suas respostas oferecem ao longo da narrativa, ela aparece como a única ‘heroína’ do filme.

A outra mulher que aparece no filme é uma agenciadora de prostitutas que atendiam os (altos) funcionários de Wall Street. As características definidoras dos personagens masculinos que povoam o documentário e representam o arquétipo dos funcionários de alto escalão do sistema financeiro seriam o excesso e a paixão pelo risco, que aparentemente proporciona para as vidas destes personagens a intensidade excitante já retratada no cinema por Oliver Stone em Wall Street (1987) no personagem icônico de Gordon Gekko (interpretado por Michael Douglas) e retomado em 2010, em Wall Street: o dinheiro nunca dorme. Embora a questão de gênero não seja aprofundada no documentário, fica como questão de fundo a interpelação sobre o caráter eminentemente ‘masculino’ do capitalismo selvagem.

Em junho de 2011, Christine Lagarde assumiu o cargo de diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional na seqüência da demissão do ex-diretor geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, acusado de agressão sexual contra uma camareira, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da instituição. 

O caso Strauss-Kahn foi determinante na renovação do debate sobre a relação entre gênero e política (gender politics) tendo suscitado um debate entre as feministas em todo o mundo, e que tomou corpo em maior ou menor grau em praticamente todos os países, recolocando a questão de ‘por quê o mundo ainda precisa de feminismo ?’[8]

A controvérsia sobre o caso deflagrou a retomada da oposição essencialista de “mulheres” versus “homens”, nos termos binários da diferença sexual, colocando de lado um amplo vocabulário de uso comum há décadas e que inclui queer, trans, neutro, intersex, intersectional, etc.[9] Além disso, a comoção em torno da acusação de assédio contribuiu para reforçar a narrativa que associava crise financeira global, decadência capitalista e excessos (inclusive sexuais) do mundo dominado pelo ethos masculino e seus hormônios.

Mulheres no poder?

Sem dúvida, vivemos tempos de um inédito alinhamento feminino no poder. Ângela Merkel, chanceler da Alemanha, maior potência econômica da União Européia, eleita pela terceira vez consecutiva; Dilma Rousseff como primeira mulher presidente do Brasil, uma potência BRICS; Lagarde à frente do FMI; Janet Yellen, nomeada por Obama como a primeira mulher a presidir o Federal Reserve Bank (FED); Christiana Figueires, à frente da secretaria executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas desde 2010, sob o seu mandato deverá ser concluído o novo acordo climático global (que deverá ser fechado até dezembro de 2015); mulheres também ocupam postos de CEO em algumas das maiores corporações internacionais, como Sheryl Sandberg no Facebook e Marissa Mayer no Yahoo.

Mas o que este fenômeno significa, para além de um evidente aumento numérico (e nestes casos, qualitativo) de mulheres em posições chave de poder?

A nomeação de Christine Lagarde foi essencial no momento em que o FMI atravessava a sua pior crise. Por ser uma mulher, Lagarde personificou a ‘novidade’, um ‘símbolo de renovação’ ou de uma ‘nova postura’ do FMI. De fato, Lagarde é há muito uma das arquitetas dos planos de austeridade que estão sendo aplicados na Europa e que foram contestados nas mobilizações populares que tomaram as praças de Madrid e as ruas de Atenas. Não é exatamente uma estratégia ‘nova’ o apelo à parceria com indivíduos que tenham origem ou representem setores que fujam do perfil dominante, subterfúgio que tem sido instrumental para lidar com crises ou mascarar a manutenção dos velhos esquemas de poder.

Durante este período Lagarde esmerou-se em construir uma imagem pública destacando sua condição de mulher e utilizando-se de um discurso acusado de ‘pseudo-feminista’.

Genderwash?

Em If Lehman Brothers Had Been Lehman Sisters...: Gender and Myth in the Aftermath of the Financial Crisis Elisabeth Prügl (2012) traz uma problematização mais aprofundada desta narrativa. Coloca em perspectiva crítica o chamado às habilidades específicas das mulheres em tempos de crise, e uma suposta ‘maior responsabilidade em relação às finanças’ como um atributo de gênero, sob o enfoque - e o risco – de sua instrumentalização para a re-acomodação do mesmo status quo. [10] Em sua análise a inclusão da perspectiva de gênero serviria como um enredo moralizante sobre a queda, ascensão e redenção das mulheres, com uma finalidade meramente de catarse social. Com destaque para o seu papel corretivo em tempos de crise, o chamado à ação da mulher ‘ponderada e prudente’ e a demanda por mais ‘diversidade de gênero’ no mundo das finanças pode ser instrumental para reconciliar uma visão de harmonia social e econômica burguesa, sem colocar em questão o sistema e as lógicas subjacentes, inclusive da racionalidade econômica, de uma sociedade que permanece essencialmente patriarcal.

Este artigo faz parte do Dossiê Beijing +20 do Instituto Gunda Werner da Fundação Heinrich Böll. 

Acesse também a versão brasileira do Dossiê aqui 

 

[5] http://dealbook.nytimes.com/2010/05/11/lagarde-what-if-it-had-been-lehman-sisters/?_r=0

“A woman is like a tea bag – you never know how strong she is until she gets in hot water.”

[6] Inside Job ganhou Oscar de melhor documentário em fevereiro de 2011.

[8] Rouyer, Muriel. (20012) WAPPP Seminar: A Transatlantic Perspective on the Strauss Kahn Affair, French Feminism Reexamined. http://www.youtube.com/watch?v=LcWSVk2H8vo ; http://www.independent.co.uk/news/world/europe/feminists-anger-at-chauvinism-of-strausskahn-affair-2287820.html

[9] Alter, Emily. (2012) Transatlantic feminism post-DSK affair. http://publicbooks.org/nonfiction/transatlantic-feminism-post-dsk-affair

[10] Prügl, Elisabeth. If Lehman Brothers Had Been Lehman Sisters...: Gender and Myth in the Aftermath of the Financial Crisis. In: International Political Sociology, doi: 10.1111/j.1749-5687.2011.00149.x 

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