Fim de uma história de sucesso? Protestos e Copa do Mundo de futebol no Brasil

Fim de uma história de sucesso? Protestos e Copa do Mundo de futebol no Brasil

"Quando seu filho estiver doente, leve ele ao estádio," diz um dos cartazes de uma das manifestações no Rio, em junho de 2013
"Quando seu filho estiver doente, leve ele ao estádio," diz um dos cartazes de uma das manifestações no Rio, em junho de 2013. — Créditos da imagem

Quais são os legados de uma Copa do Mundo? A resposta depende de outra pergunta: para quem? Para os moradores que vêm sendo removidos, a Copa significa a perda da moradia e, geralmente, também da base econômica de sobrevivência. Suas casas, em sua maioria habitações precárias, tiveram que dar lugar a novas ruas, novos estádios, novos prédios de apartamento ou shoppings para pessoas mais endinheiradas. Em pouquíssimos casos os responsáveis respeitaram as normas internacionais para remoções forçadas, como informação em tempo hábil, participação dos atingidos, indenização adequada ou moradias equivalentes, se possível perto das casas antigas. A legislação brasileira também prevê essas normas. Segundo a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa, os atingidos somam cerca de 170 mil pessoas.

Também a opinião pública questiona o balanço geral de ganhos. O governo prometeu efeitos diretos e indiretos consideráveis em termos de crescimento econômico e da taxa de ocupação, o que os economistas colocam em dúvida ou até refutam. A Copa na Alemanha, em 2006, custou cerca de 3 bilhões de euros; a da África do Sul em 2010, 4 bilhões de euros; e no Brasil atualmente a previsão oficial é de 8,5 bilhões de euros, dos quais 80% saem dos cofres públicos. Só os estádios devem devorar 3 bilhões de euros. As chances de serem utilizados com ganhos econômicos equivalentes depois da Copa é reduzida- ou até nula - em pelo menos metade deles. Quem está ganhando com a Copa é a Fifa (que deverá lucrar 4 bilhões de euros no Brasil, isentos de impostos) e as grandes empreiteiras. Até o próprio ramo de turismo tem grandes dúvidas se o evento vai ou não gerar lucros.

O que fica, no melhor dos casos, são os ganhos em imagem que podem ser capitalizados no médio prazo. Costuma-se apontar para o “sonho de uma noite de verão” na Alemanha em 2006. E, segundo a perspectiva oficial, até a África do Sul conseguiu se apresentar ao mundo como “nação arco-íris” moderna e tolerante no ano de 2010. Os brasileiros não precisam provar ao mundo que gostam de festejar e que são um povo hospitaleiro. Mas é precisamente no que tange à imagem que o governo da presidente Dilma Rousseff teme um gol contra. Afinal, é alta a probabilidade de que se repitam as imagens que rodam o mundo desde junho de 2013 com nuvens de gás lacrimogêneo, barricadas em chamas e uma polícia despreparada e agindo com brutalidade contra manifestantes cada vez mais enfurecidos.  É na base de cassetetes e balas de borracha que forças de segurança enfrentam as brasileiras e os brasileiros que criticam a Copa em seu próprio país. Não porque não gostem de futebol ou não torcem pela seleção, e sim porque a história de sucesso contada insistentemente pelo governo e pelos meios de comunicação – incluindo os estrangeiros - cada vez tem menos a ver com o dia a dia dos brasileiros que moram nas grandes cidades, ou seja: a maioria da população.

Em 21 de junho de 2013 – um dia depois que mais de um milhão de pessoas ganhou as ruas no país inteiro  – Dilma Roussef declarou: “Os que foram ontem às ruas deram uma mensagem direta ao conjunto da sociedade, sobretudo aos governantes de todas as instâncias. Essa mensagem direta das ruas é por mais cidadania, por melhores escolas, melhores hospitais, postos de saúde, pelo direito à participação.  Essa mensagem direta das ruas mostra a exigência de transporte público de qualidade e a preço justo.... é pelo direito de influir nas decisões de todos os governos, do Legislativo e do Judiciário.... é de repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público." Com essa interpretação, a presidente se aproximou tanto dos motivos dos manifestantes quanto outros analistas que analisam o momento como uma crise geral de legitimidade política.

De fato, a barafunda de motivos é complexa. Tudo começou com o protesto contra o aumento das passagens de ônibus. Mobilizados pelo Movimento Passe Livre, ativo desde 2005, muitos brasileiros finalmente ficaram saturados de ônibus abarrotados, de longas esperas e de longas jornadas até o trabalho, do caos diário do trânsito nas áreas urbanas que apostavam no transporte individual. Ao mesmo tempo, o governo se vangloriava de que o Brasil chegava à posição de sexta economia do mundo e de ser agora uma sociedade de classe média. Mas todos os dias os brasileiros - principalmente aqueles que não têm como pagar escolas e planos de saúde particulares- podem observar nas escolas e nos hospitais que frequentam que o crescimento econômico por si só não produz desenvolvimento. Além disso, a economia parou de crescer, e, em 2012, avançou apenas 0,9%.

“'Exigimos escolashospital e segurança padrão Fifa”, foi um dos lemas prediletos nos cartazes pintados à mão durante as manifestações de rua. A corrupção e o enriquecimento da classe política jogaram mais lenha na fogueira do descontentamento. Em seu primeiro ano de governo, a presidente Dilma Rousseff demitiu sete ministros, dos quais seis acusados de corrupção. As relações das grandes empreiteiras com os políticos são um segredo muito aberto, e o noticiário de deputados viajando de graça com aviões da Forca Aérea Brasileira para ver um jogo da Copa das Confederações com sua família pioram o quadro. Portanto, todos os partidos e políticos se calaram durante algumas semanas, declarando-se no mínimo solidários com os manifestantes. Todos sabiam muito bem que estavam na berlinda.

 

Foi um movimento misto, de quem de repente descobriu a rua enquanto espaço público e democrático:  Estudantes da classe médiatradicional;  a seu lado, seus colegas, da “nova classe média”, muitos deles os primeiros da família a cursar uma universidade. O morro também desceu para o asfalto. A pessoas eram mobilizadas via Facebook, muitos usavam máscaras, Ocupa Copa: Na forma e no simbolismo, as manifestações vão na esteira dos movimentos de Túnis à Wall Street nova-iorquina. Tudo isso temperado, como tantas vezes, por um nacionalismo militante e provocador: “Com o  orgulho de ser brasileiro!”. Gritando essas palavras de ordem e cantando o hino nacional, muitos se reuniram. A bandeira nacional transformou-se em sucesso de venda, pois virou parte da indumentária. Grupos violentos de direita participaram, agredindo sindicalistas e esquerdistas. E muitos policiais tentaram, por exemplo, colocar projéteis ilegais nas mochilas dos manifestantes para levá-los presos.

Os governos e os políticos reagiram com surpreendente rapidez na tentativa de enfrentar o movimento. Pressionados vários governos municipais imediatamente cancelaram aumentos de passagens de ônibus já decididos anteriormente. O governo federal prometeu um plebiscito sobre uma “reforma política”. Mas os equívocos sistêmicos centrais continuaram intocados: a política clientelista, os custos absurdos da máquina estatal e a falta de programa e disciplina dos chamados partidos. O debate devia girar em torno de questões como o financiamento de campanhas, sobre direito de voto majoritário ou proporcional e a pergunta sobre se um senador precisa ter dois suplentes.

Quase um ano depois, ninguém mais fala nesse plebiscito. O Brasil necessita urgentemente de uma Reforma Política e Partidária, mas muitos dos manifestantes questionaram o formato “partido” em si. Dilma Rousseff reagiu com uma coalisão formada por 14 partidos. E o restante dos partidos não formam uma oposição de verdade. Todos estão “na parte de dentro do sistema”, como cunhou Marcos Nobre, professor de Filosofia da Unicamp. Para os jovens manifestantes, não só os políticos ligados a partidos, como também movimentos sociais tradicionais como sindicatos e ONGs deixaram de funcionar enquanto mediadores de conteúdos políticos. A crise da representatividade é, ao mesmo tempo, um conflito de gerações.

Depois de julho de 2013, os protestos perderam participação, mas ganharam em amplitude e diversidade, bem como em militância. Vizinhos passaram a se encontrar nas praças para discutir problemas como poluição sonora e descarte de lixo. Enquanto isso, outros ocuparam a Assembleia Legislativa e durante semanas acamparam em frente à residência do governador Sergio Cabral. Taxistas entraram em greve, os professores também. Muitos tiveram de aprender o que significa enfrentar uma polícia mal formada, mas treinada para usar violência e reprimir de forma quase mortal, com uso maciço de bombas de gás lacrimogêneo ou de efeito moral, balas de borracha, uso de cavalaria montada e cassetetes mesmo em bairros residenciais com restaurantes e lojas. A crítica à atuação policial – que já devia ter acontecido - começou a se estabelecer, ao que parece, porque jornalistas têm sido regularmente agredidos pela polícia. Mas quanto mais grupos radicais determinaram a imagem dos protestos, menos o comportamento da polícia foi debatido. E há uma certa generalização: manifestantes viraram “vândalos”, assim como moradores de favelas são vistos como traficantes.

De acordo com uma pesquisa do Centro de Mídia Independente (CMI) do Rio de Janeiro, pelo menos 13 pessoas morreram durante os protestos em consequência do gás lacrimogêneo ou ao fugir da violência policial. Numerosas pessoas foram feridas, principalmente por balas de borracha. Quatro dias depois dos grandes protestos nas ruas, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) matou dez pessoas no Complexo da Maré em reação a uma série de assaltos. Fora da favela, o massacre quase não foi notado – é normal que lá a polícia não atire com bala de borracha, mas com chumbo. A violência permeia o espaço público e leva a tensões permanentes. Crescem os casos de justiça feita com as próprias mãos, principalmente contra criminosos pobres. Recentemente, um garoto negro que havia roubado um celular foi acorrentado nu em poste de rua, com um cadeado de bicicleta em volta do pescoço.

Os protestos geraram dois novos atores no Brasil: os “ninja" e os ”black blocs”.  Ninja – sigla que designa o fenômeno midiático Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação – informa sobre o que acontece no meio do movimento, aproveita as redes sociais, de onde sua filial “Post-TV“ distribui imagens ao vivo. Estruturalmente, a mídia Ninja está ao lado dos manifestantes, assim como a mídia tradicional está do lado da velha ordem. Mas sem os Ninja, o estudante Bruno Teles teria ido para a prisão; as imagens do grupo provaram que ele não lançou um coquetel molotov, como atestou a polícia. Os ninja filmam prisões arbitrárias; em questão de minutos, os usuários se reúnem diante da delegacia, protegendo os detentos ao chamar a atenção da opinião pública.

Já os black blocs reagem à brutalidade e ao arbítrio da polícia. Assim como na Alemanha, o conceito anárquico de resistência dos grupos se limita à violência simbólica contra sinais de repressão – uma restrição que os partipantes mais jovens não conhecem ou não querem conhecer. Há alguns meses, os black blocs dominam os protestos nas duas maiores cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo, com dois efeitos: os embates violentos com a Polícia viram acontecimentos programados, o que impede outras pessoas, menos dispostas para a violência, a ir para as ruas. E fornecem ao governo a justificativa bem-vinda de atuar contra os protestos. Em uma manifestação no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2014, contra o novo aumento das passagens, um cinegrafista foi atingido na cabeça por um artefato e morreu. O grupo de comunicação Globo iniciou uma campanha sem igual, tachando as manifestações de criminosas e terroristas. O noticiário chegou ao ponto de denunciar como apoiadores de terroristas personagens da vida pública que simpatizam com o movimento dos protestos, principalmente o deputado estadual Marcelo Freixo, que antes de sua carreira política visitou duas vezes a seção alemã da Anistia no papel de ativista dos direitos humanos e que se notabilizou como iniciador e presidente de uma comissão de inquérito contra milícias no Rio de Janeiro.

A ação urgente mais recente da jovem seção da Anistia Internacional no Brasil se volta contra uma criminalização generalizada do movimento de protestos. Pois agora o Brasil também deve ter uma nova legislação antiterror. A proposta de lei busca definir o terrorismo e fixa punições. Segundo a Anistia, as definições são “extremamente vagas e poderiam ser utilizadas para limitar os direitos humanos”. Entre outros, cria o tipo penal “terrorismo contra coisa”. Preocupação semelhante gera – e não só entre defensores de direitos humanos – outro projeto de lei que pretende punir “a desordem” em espaços públicos, criminalizando participantes de manifestações públicas mesmo quando não estejam diretamente envolvidos em atos ilegais. Essa lei pretende proibir o uso de máscaras (o que não acontece até agora), as manifestações precisam ser autorizadas com no mínimo 48 horas de antecedência, as punições para danos em equipamentos e objetos que estejam nas ruas, saques e o uso de artefatos de fogo (que, normalmente qualquer torcedor de futebol pode usar o ano inteiro) se tornarão mais duras. Em nível estadual e municipal, os políticos estão votando leis mais duras sobre prejuízos materiais ou físicos e planejam autorizar protestos apenas se estes não atrapalharem o fluxo do trânsito.

Recentemente, a presidente Dilma Rousseff nomeou um novo ministro das Comunicações e o incumbiu de explicar à população o mais rápido possível por que a Copa pode ser boa. E criou uma conta no Twitter: #VaiTerCopa.

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