A Copa deve ser sustentável: mas isso, em parte, não passa de retórica

A Copa deve ser sustentável: mas isso, em parte, não passa de retórica

Estádio Mané Garrincha, Brasília - DF
Estádio Mané Garrincha, Brasília - DF

A ideia é que a Copa do Mundo no Brasil seja ambientalmente correta e neutra em carbono. Durante a Copa de 2010 na África do Sul, o então presidente Lula se referiu à realização de uma “Copa do Mundo verde” que deixasse um legado ambiental, além do legadofinanceiro. É o que prevê a Agenda de Sustentabilidade da Copa 2014 elaborada em parceria pelos ministérios dos Esportes e do Meio Ambiente. A sustentabilidade, nesse caso, está sendo traduzida por neutralização do carbono, mas não está sendo dada ênfase especial em benefícios duradouros para a população.

Um estudo da empresa Personal CO2 Zero estima que o total de emissões de CO2 durante os preparativos e a realização da Copa do Mundo no Brasil chegará a 14,2 milhões de toneladas.[1] Segundo o estudo, 44,3% desse total estimado serão gerados pela construção e reforma dos estádios e outros projetos de infraestrutura e outros 46,8% pelo transporte nacional e internacional. O público esperado durante a Copa é de cerca de 3,6 milhões de visitantes, dos quais 600 mil são turistas estrangeiros. As distâncias entre os locais de jogos para turistas e seleções superam as que serão percorridas em 2018 na Rússia – entre 250 e 3.100 quilômetros.

A Agenda para uma Copa do Mundo Sustentável, iniciativa do governo brasileiro, considera sustentabilidade principalmente como sendo neutralização do carbono, ou seja: os gases do efeito estufa gerados pela Copa devem ser reduzidos e, em seguida, “zerados”. Um projeto de lei da Câmara dos Deputados prevê inclusive a obrigatoriedade da neutralização das emissões de gases do efeito estufa produzidas durante a/causadas pela Copa. O governo brasileiro recentemente  está muito aberto ao instrumentos financeiros que conjugam o mercado a proteção ambiental. Ao mesmo tempo atores sociais criticam esta tendência da nova “economia verde” presente no país que está sendo  aplicada ao megaevento.

Neutralização do carbono significa que as emissões de CO2 são estimadas, reduzidas o máximo possível e depois neutralizadas através da aquisição de certificados de emissão por parte dos causadores.[2] A conta é mais ou menos assim: entre abril de 2010 e novembro de 2011, a empresa responsável pela construção da Arena Pantanal de Cuiabá consumiu 564 mil litros de óleo diesel e 410 mil kWh de energia elétrica. Segundo cálculos dos especialistas, o empreendimento liberou 23.819,92 toneladas de carbono equivalente. Essas emissões foram compensadas com um projeto de reflorestamento em terrenos às margens do rio Pantanal no bairro de Santo Antônio. Os habitantes ribeirinhos plantaram 171.504 árvores. Cada árvore significa um volume de 0,138 toneladas equivalentes de CO2 a ser captado pelas árvores nos próximos trinta anos. Essa quantia de CO2 foi registrada na forma de certificados de emissões que os responsáveis pela construção da arena adquiriram dos responsáveis pelo projeto de reflorestamento. Dessa forma, neutralizaram as emissões resultantes da construção do estádio. A tendência de designar megaeventos como neutros ou até livres de carbono não é recente: os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres em 2012 são considerados os maiores eventos esportivos verdes já realizados. A “Copa Verde” faz parte do programa Green Goal da Fifa, que existe desde a Copa de 2006.[3]

Modelo “Green Goal” nas duas últimas Copas.

Programa Green Goal nas Copas da Alemanha e da África do Sul          
Durante a Copa de 2006 na Alemanha foram emitidas cerca de 92 mil toneladas de CO2. Com isso, a Alemanha se manteve um pouco abaixo das 100 mil toneladas esperadas. Os realizadores conseguiram reduzir o consumo de água potável e o volume de lixo. Mas não conseguiram reduzir todas as emissões produzidas – por exemplo, devido aos deslocamentos entre as cidades-sede – e tiveram de comprar certificados para zerar as emissões restantes. A Copa do Mundo na África do Sul em 2010 produziu um volume quase nove vezes maior, um total de 896.662 toneladas de gases de efeito estufa. As razões para isso remetem ao que está ocorrendo no Brasil: em parte, foi preciso construir estádios novos, e, além disso, há as grandes distâncias entres as cidades que sediam os jogos que aumenta a dependência do tráfego aéreo.

Ao contrário dos órgãos estatísticos na Alemanha, os sul-africanos acrescentaram as emissões produzidas pelas chegadas e partidas internacionais. Os cientistas estimam que isso significa 1.856.589 toneladas emitidas adicionalmente - portanto, no total, mais de 2,75 milhões de toneladas de CO2.[4] Os sul-africanos não atingiram a meta da neutralidade carbônica em 2010. Depois da Copa na África do Sul, representantes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) que participam da estratégia verde recomendaram à Fifa e ao governo brasileiro que começassem a planejar com bastante antecedência para pôr em prática nas cidades diretrizes ambientais que significassem compromissos sustentáveis.

A ideia da redução de emissões se originou das negociações internacionais em torno das mudanças climáticas. Pelo Protocolo de Quioto (aprovado em 1997 e em vigor desde 2005) no âmbito da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, a maioria das nações industrializadas se comprometeu em reduzir as emissões em âmbito nacional. Sendo um país em desenvolvimento, o Brasil não tem compromissos de diminuir suas emissões, mas prometeu reduções voluntárias pouco antes da conferência de Copenhague em 2009. O governo brasileiro está cada vez mais aberto para adotar instrumentos de mercado para reduzir e compensar emissões.  A “economia verde” quer aliar a proteção ao meio ambiente a estímulos econômicos. Essa abordagem vem sendo crescentemente criticada por organizações da sociedade civil no Brasil, que se opõem à valoração financeira da natureza e à compra e venda de certificados de emissão. Neste momento, os parlamentos estaduais debatem projetos de lei sobre o mecanismo REDD+ (Redução de Emissões provenientes de Desmatamento e Degradação Florestal) e os pagamentos por serviços ambientais (PSA). Os dois mecanismos se baseiam em estimativas de emissões de CO2. O plano de medidas do projeto-piloto “green goal” em Minas Gerais, por exemplo , prevê, entre outros, a utilização de certificados de projetos de REDD e PSA para compensar emissões de gases de efeito estufa gerados pelas atividades da Copa do Mundo.

Do ponto de vista da sociedade civil, o que ocorre nos mercados de certificados de emissão, em primeira linha, é que países ou instituições compram o direito de continuar poluindo o meio ambiente, sem que se obtenham reduções significativas em emissões. Os críticos temem que a retórica verde da Copa do Mundo desvie a atenção dos efeitos sociais negativos dos megaeventos.

Como o Brasil chega ao “green goal”? 

Para definir campos de ação para a “meta verde”, o Ministério do Meio Ambiente comparou as fontes de emissões de gases de efeito estufa consideradas pelos realizadores em outros megaeventos anteriores e os setores em que houve reduções de emissões. No Brasil, as prefeituras, entre outras medidas, fomentam a construção de estádios sustentáveis e eficientes em energia. Materiais de construção certificados e modernas tecnologias reduzem as emissões na obra e no futuro uso dos estádios, principalmente porque quatro estádios foram construídos do zero e outros oito foram reformados. Na maioria dos estádios, para construção ou reforma como parâmetro os critérios do certificado LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), um padrão ambiental internacionalmente conhecido no setor de construção. O estádio Mané Garrincha em Brasília é considerado exemplar em termos de sustentabilidade, com equipamento de energia solar, um sistema de coleta de água de chuva, sistemas de ventilação natural e o uso de materiais recicláveis provenientes da demolição do estádio antigo, recebendo o certificado Platinum Leed, o mais elevado.

Um segundo campo de ação nas cidades-sede da Copa é a melhoria das infraestruturas de trânsito e, assim, a mobilidade urbana.Todas as cidades-sede da Copa estão em processo de modernização das redes viárias e, com exceção de Recife, ampliação das capacidades de seus aeroportos.[4]  Fortaleza, Manaus, Natal, Recife, Salvador e São Paulo (Santos) estão ampliando suas instalações portuárias para que possam ser utilizadas também para o turismo. Em Belo Horizonte e Fortaleza o público da Copa poderá acessar os estádios usando novas ciclovias e pistas exclusivas de pedestres. Em Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Recife e no Rio de Janeiro, os novos sistemas de ônibus chamados BRTs (Bus Rapid Transit), caracterizados por menos paradas, bem como pistas exclusivas para as linhas já existentes, devem levar os passageiros com mais rapidez de um ponto a outro. Em Natal e Fortaleza, os veículos leves sobre trilhos (VLTs) estarão sendo inaugurados para a Copa. Os urbanistas anunciaram a inauguração de uma rede de VLT na antiga zona portuária do Rio de Janeiro até os Jogos Olímpicos de 2016. Por outro lado, o meio de transporte mais caro – porém mais eficiente em termos de engenharia de tráfego e meio ambiente – o metrô, mal avançou no planejamento. Só em Recife os fãs conseguiram ir aos estádios nas novas linhas de metrô já durante a Copa das Confederações em 2013. Nos canteiros de obras do metrô em São Paulo e Salvador ainda não se sabe se as novas estações serão ou não inauguradas até a Copa. Já Fortaleza inaugurou uma nova linha e outras estações em outras linhas antes da Copa. O Rio de Janeiro ampliará a sua rede em quatro quilômetros até 2016. Esses investimentos não beneficiarão apenas os turistas, mas devem otimizar a rede de transporte públicos no longo prazo, sendo considerados um “legado” da Copa.

A “Copa Verde” considera sustentabilidade, portanto, principalmente como sendo a compensação de emissões de gases de efeito estufa. Os métodos e as dimensões em que os diversos Estados da federação contabilizam e medem as emissões, no entanto, divergem em muito. Não é possível identificar um método homogêneo. Em um projeto-piloto, o estado de Minas Gerais e sua capital Belo Horizonte contabilizaram os gases de efeito estufa gerados pela Copa das Confederações da Fifa em 2013 e as emissões previstas durante a Copa de 2014. Este inventário, seus métodos de mensuração, um plano de medidas para a redução de emissões e os possíveis projetos de compensação para Minas Gerais seriam depois transferidos para outros estados e para a esfera nacional. Até agora, o plano permanece no papel. Entre outros, o estudo sobre emissões esperadas em nível nacional até fevereiro, o qual o Ministério do Meio Ambiente iria publicar em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas ainda está para se realizado.

Sustentável pela população? 

Quão sustentável é a Copa de 2014?    

Além de reduzir os volumes específicos de emissões, seria muito mais significativo que as medidas trouxessem benefícios duradouros para a maioria da população, minimizando, ao mesmo tempo, eventuais consequências sociais e ambientais negativas. Sustentabilidade significa adotar e realizar medidas que aumentem a igualdade de oportunidades e o bem-estar. No entanto, as já mencionadas transformações na rede viária urbana e a reurbanização do entorno do estádio do Maracanã no Rio de Janeiro produziram a remoção (forçada) de numerosas famílias. No dossiê intitulado Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio 2013, o Comitê Popular da Copa e

das Olimpíadas do Rio de Janeiro assinala que o megaevento está sendo vendido como ambientalmente amigável, mas que as cidades estão burlando leis ambientais para poder realizar os projetos de infraestrutura da Copa. Para o trecho de 13 quilômetros da via BRT Transolímpica, os responsáveis apresentaram o relatório ambiental obrigatório que examina os efeitos sociais e ambientais e alternativas para a obra. Para a construção do corredor expresso BRT Transcarioca, que é 26 quilômetros mais longa, só foi feito um relatório ambiental simplificado com demandas bem menos importantes. A Transcarioca deve ficar pronta em grande parte até a Copa de 2014. Para a Transolímpica ainda sobra tempo até os Jogos Olímpicos de 2016 .       

O programa “green goal“ levanta a questão sobre a realização sustentável de megaeventos. Há muitas dúvidas sobre se os investimentos que o Brasil está fazendo agora na construção de estádios modernos, tecnicamente sustentáveis são justificáveis e visam o interesse da população. Mesmo considerando que o futebol é a modalidade esportiva mais popular no Brasil, não há certeza se todos os estádios continuarão sendo usados e mantidos. A missão verde da realização da Copa, no entanto, dirige o olhar para a contribuição das cidades para a questão das mudanças climáticas. 85% da população brasileira vive em espaços urbanos. Para a “Copa Verde”“, discute-se no Brasil como os realizadores e visitantes que consomem energia, podem reduzir e reciclar o lixo e como os setores de construção e transportes influenciam o clima.

Também para os Jogos Olímpicos de 2016 o governo do estado do Rio de Janeiro está desenvolvendo estratégias destinadas a garantir a neutralidade carbônica dos jogos, entre outros objetivos. A estratégia verde não leva em conta de que forma os atores da sociedade civil podem se envolver democraticamente no estabelecimento de objetivos de uma Copa do Mundo sustentável. Assim, a estratégia de sustentabilidade se limita a ser retórica com a finalidade de legitimar modificações nas estruturas das cidades que, no longo prazo, não deixam benefícios para a maioria da população. Por exemplo, os moradores deveriam participar do debate em torno da proposta da arquiteta e urbanista brasileira Maria do Carmo Bezerra, Universidade de Brasília para não usar os certificados de emissão para neutralizar o dióxido de carbono da Copa, mas comercializá-los e investir o lucro em saúde e educação. O debate também deveria considerar alternativas aos mercados de emissão, para que a população possa usar a Copa para seus interesses.

 

[1]              A Fifa estima o total de emissões durante a Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo em 2014 atinja 2,7 milhões de toneladas de CO2, dos quais 83,2% provêm do trânsito nacional e internacional de pessoas e mercadorias.

[2]              A unidade é a tonelada métrica equivalente de CO2 (tCO2e), que corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono ou à influência na atmosfera equivalente de outro gás de efeito estufa, como metano (CH4), óxido nitroso (N2O), os hidrofluorcarbonetos (HFC), os perfluorcarbonetos (PFC) e o hexafluoreto de enxofre (SF6). Neste artigo, falaremos simplificadamente de toneladas de CO2.

[3]              Ao todo, foram compensadas 100 mil toneladas de dióxido de carbono através do apoio financeiro a três projetos climáticos na África do Sul e no sudoeste da Índia. O investimento de 1,2 milhão de euros veio da Confederação Alemã de Futebol (Deutscher Fußball-Bund DFB), da Fifa e outros parceiros.

[4]              De acordo com o relatório do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Pnuma) o transporte internacional foi responsável por 1,16 milhões de toneladas e, no total, não foram 2,75, e sim 1,65 milhões de toneladas de CO2.

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