O poder do público – Movimentos sociais no Brasil depois da ditadura militar

O poder do público – Movimentos sociais no Brasil depois da ditadura militar

Ato no Rio em memória das mulheres vítimas da ditadura (ATO MEMÓRIA DELAS) — Créditos da imagem

Colaboraram: Marilene De Paula e Victor Soriano

Como na década de 1960, após a Era Vargas, estruturas oligárquicas estão pondo em perigo a democracia brasileira? O país que já foi louvado internacionalmente como um modelo de crescente desenvolvimento, está perto de uma fratura política? É inegável que o Brasil está vivendo hoje uma crise institucional e política. A democracia representativa está desgastada pela corrupção e pelo desequilíbrio entre os poderes. A população  reage a isso: acompanhado de samba, o povo anda nas ruas, canta e grita: “Não vai ter golpe!”, outra parte pede o impeachment da presidente Dilma. Como no fim da ditadura militar, há 30 anos, na Campanha das Diretas Já, no Fora Collor, o povo brasileiro manifesta-se pelos seus direitos e pela manutenção da democracia no país, mesmo que de forma contraditória. Mas o que mudou de lá para cá? Thais Corral, fundadora das organizações REDEH (Rede de desenvolvimento humano), CEMINA (Comunicação, Educação e Informação em Gênero) e WEDO (Mulheres, Meio Ambiente e Organização de Desenvolvimento), e ganhadora do prêmio UNEP, falou em entrevista para a Fundação Heinrich Böll Brasil, sobre o período da ditadura e o papel dos movimentos sociais no Brasil[1].

HBS - Qual a sua avaliação sobre os movimentos sociais no fim da ditadura militar no Brasil?

Depois dos anos de opressão, os movimentos sociais cresceram bastante. Eles tiveram uma ampla mobilização, inserindo suas demandas e visões na construção da Constituição. Foi um momento muito rico e dialogal da sociedade brasileira. Nossa Constituição é muito detalhada e difícil de interpretar, porque muda muito, mas é muito representativa dos movimentos sociais.

Nesse período, os movimentos ligados à reação da ditadura se formaram - para desenhar a Nova República brasileira. Um viés muito importante foi o desenho de políticas públicas, mais social.

Por causa da reabertura da imprensa, as pessoas puderam se conectar com outros movimentos no mundo. Novos tópicos foram discutidos, por meio deles desenvolveram-se novas organizações. Sobretudo, os movimentos foram puxados pelas pessoas que voltaram para o Brasil depois do fim da ditadura. Essas pessoas trouxeram experiências e novos pensamentos dos países estrangeiros. Um exemplo é o movimento ambiental. O Partido Verde (PV) brasileiro foi fundado em 1986, inspirado pelas tendências ambientalistas em curso na Europa.

Nessa época, havia uma participação mais organizada pelo Estado. Houve manifestações no fim da ditadura, mas depois se tornou mais um processo de integração, de ocupação do espaço, mais do que qualquer outra coisa.

HBS - O que mudou de lá para cá?

Hoje ainda temos um movimento grande. Mas as pessoas têm menos paciência. Agora a forma de organização é diferente. É mais pelas redes sociais, por grupos de interesse, algum setor mais associado a uma determinada solução para um problema específico. É menos aquela coisa política e social.

Cresceram outros tópicos, mais específicos também. Antigamente, o enfoque dos movimentos era nas políticas e na participação. Hoje há também temas de interesse pessoal. Não são visões necessariamente da sociedade, que representem o Brasil. Eu diria que é mais uma busca de soluções imediatas, até porque hoje vivemos outro contexto. Muitas das nossas políticas públicas não funcionaram, ou funcionam precariamente. Então agora é mais uma coisa de grupos de interesse, mais do que movimentos políticos.

HBS - Como você avalia o impacto dos movimentos sociais nas políticas públicas hoje no Brasil?

Os movimentos sociais têm as suas especificidades, eles trazem para o tecido social demandas específicas que são importantes. Uma agenda comum pode mobilizar as famílias nas ruas, como está acontecendo agora: a maioria da população brasileira pede uma reforma política.

A sociedade brasileira avalia que a política não está ajudando nada às pessoas. A crítica ao mundo político é uma coisa que junta a sociedade brasileira. Mas se não tiver uma base, também não adianta.

Hoje, os movimentos sociais têm que se reinventar. Tem muito uma repetição das bandeiras, das coisas que se perderam, de um saudosismo de tudo que a gente perdeu.  Sempre se culpa a direita. Mas são os problemas crônicos no Brasil, os problemas estruturais, que detêm a influência dos movimentos na política.

HBS - Como era o movimento das mulheres e as discussões sobre feminismo durante a ditadura?

Antes da ditadura não existia um grande movimento feminista no Brasil. No fim dos anos 1960, uma onda de feminismo chegou em muitos países no mundo. Na decáda de 1970, essa onda também chegou ao Brasil. Foram antes de tudo as mulheres que voltaram dos outros países e trouxeram novas ideias.

Durante a ditadura o Brasil era uma coisa muito sem cor, uma visão tecnocrática e gerencial do país, sem matizes das especificidades, dos movimentos sociais, da diversidade. Com a Nova República o movimento cresceu, como as ações das mulheres. Por isso, o debate do feminismo ganhou mais espaço na imprensa, assim como na política.

Existia muito uma coisa coletiva. Era o início do PT, desses partidos progressistas. Era uma coisa mais organizada dentro de uma coisa política.

Em 1985 foi criado o Conselho dos Direitos da Mulher que orientou e ajudou a desenhar muitas das políticas públicas que depois foram implementadas para as mulheres. Isso deu suporte à participação da mulher na Constituinte. Foi um caminho junto com a redemocratização no Brasil.

HBS - Como você vê os movimentos de mulheres hoje?

O feminismo cresceu  mais em forma de participação: nos dias de hoje, existem mais redes sociais e possibilidades das mulheres para participar na vida da sociedade. Mulheres participam da política, da educação, das empresas, nos movimentos, nas organizações.

O movimento ganhou um espaço na política também. Mas o que acontece é que o Brasil hoje é um país que peita o papel das mulheres, o poder das mulheres. É um país que não admite, não tem base, não tem estrutura e nem mecanismos.

Existem mais pessoas envolvidas em movimentos feministas, em formas de movimento, mas em participação na sociedade. Mulheres empreendedoras, fazendo sua própria empresa. Foi uma trajetória considerável.

Hoje não se têm uma melhoria considerável de vida  por conta das condições que nós falamos no início, as bases, as estruturas, os mecanismos, mas houve uma melhora. Há uma maior presença delas.

HBS - Qual é o papel da Internet para isso?

A Internet tem um papel fundamental para a organização da sociedade. A gente entende os movimentos sociais como uma forma de organização, de expressão dos diferentes grupos da sociedade. A Internet deu uma igualdade de condições às pessoas, por conta do acesso à informação, a possibilidade de expressão, de organização das suas próprias iniciativas.

A abertura de acesso às informações possibilitou a conexão e o intercâmbio dos movimentos no mundo. As pessoas, como assim organizações e movimentos organizados, - conectam-se à Internet para partilhar novas visões. Assim, movimentos sociais hoje são bem mais imediatos.

 

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