O samba, patrimônio imaterial, passa por tempos difíceis

O samba, patrimônio imaterial, passa por tempos difíceis

Chegando perto do fim do ano a cidade do Rio de Janeiro começa se preparando para o chamado maior espetáculo do mundo, o Carnaval Carioca. As escolas de samba já escolheram seu samba enredo e os ensaios e batucadas dos blocos carnavalescos transformam ruas e quadras em grandes festas. Mas a alegria não está tão contagiante como deveria ser, pois alguns acontecimentos estão deixando os sambistas preocupados.

Manifestação de Sambistas contra o veto do Prefeito à Lei 1995Creator: Alexander Leist. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

O samba, que surgiu no final do século 19, não é somente o gênero mais popular da música brasileira, mas também uma expressão da cultura africana e uma das fontes da consciência negra no Brasil. No início de sua formação, também por esse motivo, foi marginalizado e os “sambistas” que o praticavam, muitas vezes foram perseguidos[1]. Mesmo assim o samba conseguiu se desenvolver e se manter. Em seguida surgiram vários gêneros, como samba enredo, pagode e partido alto e a indústria musical brasileira começou a distribuí-lo e assim melhorou a sua imagem.

Em 2007 o samba foi registrado como bem cultural de natureza imaterial e assim virou patrimônio imaterial da cultura brasileira. Além desse reconhecimento  o samba também tem uma grande força econômica, sobretudo, gerada pelo desfile de carnaval das escolas de samba no Rio de Janeiro, o qual atrai milhares de turistas a cada ano. No entanto, o samba não acontece só nas quadras das escolas, mas também em forma de “roda de samba”, de maneira semi-oficial ou espontânea em qualquer canto da cidade e do país inteiro.

Na verdade o Rio de Janeiro respira samba o ano inteiro, não somente na época do carnaval” diz Marcelo Santos, coordenador de comunicação da Rede Carioca de Rodas de Samba[2]. A Rede (RS) foi fundada em 2014, justamente para melhorar as condições dessas manifestações culturais tanto para os artistas quanto para o público e contribuir para sua preservação histórica e identitária[3]. Mas a rede não nasceu só por esse motivo, mas também porque os sambistas estão enfrentando problemas com as autoridades. “A gente teve um problema muito sério com a questão do ordenamento da roda [de samba] na Pedra do Sal, onde a gente chamou atenção do poder público. Não, isso aqui é histórico, precisa ser preservado, precisa ser potencializado por esse motivo. Então a gente se organizou em rede e começou a criar um diálogo com o poder público e a sociedade civil”, explica Marcelo Santos. Em seguida, a Rede em cooperação com o Instituto Pereira Passos fez pesquisas para analisar esse potencial econômico e seu alcance cultural.

Neste contexto foram identificadas cerca de 100 rodas de samba que acontecem de domingo a domingo na cidade do Rio de Janeiro, das quais a metade está registrada na Rede. Um estudo[4] sobre seu potencial econômico revelou que a meta de gastos por pessoas nas rodas parceiras da RS são entre 50-70 Reais. Com um público médio entre 500 a 1000 pessoas, cada roda gera um lucro considerável, a partir da economia criativa. Marcelo Santos afirma: “[...] a gente costuma dizer que as rodas de samba se pagam. Ninguém gasta menos de 50-70 reais quando vai numa roda de samba. E isso é consumo direto, consumo de alimentação, consumo de bebida, de transporte, são investimentos então, as rodas de samba e o samba na cidade [tem]retorno.”

Uma análise dos fatores socioeconômicos de rodas de samba mostra a diversidade de classes sociais e uma grande variação racial dos freqüentadores. Em média, 63% dos frequentadores têm ensino superior e em relação a sua cor, 50% se consideram negros, 20% pardos e 20% brancos[5]. Essa representatividade resulta, além de outras razões, do fato de que muitas rodas aconteçam em espaços abertos, sem pedido de ingressos. Dessa forma todas as classes sociais têm acesso a esses eventos culturais, constituindo a roda de samba como um ambiente considerado “democrático”.

Roda de samba na Pedra do Sal. Creator: Alexander Leist. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

Porém, com o apoio de vários setores da sociedade e um retorno cultural e econômico forte na cidade, o samba está novamente passando por uma fase de restrições políticas.

Os recentes impedimentos de rodas de samba pela polícia militar[6] foram percebidos pelos sambistas como uma supressão. Em setembro e outubro desse ano a roda de samba “Pede Teresa”, na Praça Tiradentes, e a tradicional roda na Pedra do Sal foram impedidas ou prejudicadas com frequência pelas autoridades[7]. Além disso, blocos carnavalescos e outras manifestações culturais de matriz africana também sofreram restrições na realização de eventos de rua[8]. Considerando o conceito de “direito à cidade”, a liberdade de expressão da cultura em espaço público é essencial para construir uma sociedade realmente democrática[9], também por isso o impedimento causou bastante polêmica.

Alguns vêem nesses acontecimentos uma ligação da administração Marcello Crivella com seu pertencimento evangélico, por ser bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)[10].

O prefeito que a gente tem na cidade, chamado Marcello Crivella está ligado à Igreja Universal, enfim[...]Não deve contar a iluminação religiosa dele, mais a gente entende que o prefeito tem que ser prefeito da cidade e não dos evangélicos ou da Igreja Universal”, diz Marcelo Santos, da RS. Segundo ele, nem todas as restrições são da conta do prefeito, pois eles têm responsabilidades diversas, mas “[...]existe um projeto de poder que é um projeto conservador que não valoriza a cultura popular carioca ou do Brasil e se a gente der mole eles vão realmente cortar tudo que a gente conquistou ao longo de anos e décadas” afirma Marcelo Santos.

 Alex Leist)Manifestação de sambistas. Creator: Alexander Leist. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

Apesar da crítica dos sambistas das rodas de samba, Crivella já mostrou em vários atos políticos e entrevistas que o apoio ao samba e ao carnaval não tem preferência na sua administração. Essa atitude se manifestou, além de outras, no corte da verba das escolas de samba para o carnaval 2018[11], e no veto à lei 1995 que institui o Programa de Salvaguarda, Fomento e Incentivo ao Samba. A lei foi aprovada pela Câmara de Vereadores, mas o prefeito vetou a lei em outubro de 2017 alegando inconstitucionalidade. O veto foi derrubado pela câmara por unanimidade, o que contradizia essa afirmação. No entanto, a maior polêmica foi a ausência do prefeito na entrega da chave da cidade para o Rei Momo. Foi a primeira vez na história do país que o prefeito da cidade do Rio de Janeiro faltou nesse tradicional evento carnavalesco[12]. Embora o corte de verbas tenha apoio de uma parte da sociedade, a negação da tradição carnavalesca ofendeu muitos mais aos cariocas.

O prefeito sempre afirmou que não iria misturar sua religiosidade com a política e justificou os cortes ou os impedimentos com motivos administrativos ou a falta de recursos públicos[13]. Porém sua laicidade política já foi questionada[14]. Vários atores da sociedade civil, como o Geledés Instituto da Mulher Negra continuam a ver nos últimos eventos uma repressão da expressão da cultura negra a favor da ideologia neopentecostal[15].

Contudo, o ano de 2017 foi um ano difícil para o samba carioca que comemorou 100 anos em 2016, e Marcelo Santos da RS resume: “ano passado fez 100 anos da primeira gravação de samba, não é nem 100 anos de história do samba. Nesse ano faz 10 anos do registro do samba como patrimônio histórico cultural do Brasil, agora, justamente em novembro e o prefeito quer dar de presente pra cidade um retrocesso”. Alguns sambistas como a cantora Alcione ou o cantor Xande de Pilares encontraram palavras mais fortes e chamaram o processo de perseguição[16]. Será que o samba vai voltar a ser marginalizado como foi no tempo em que surgiu? Marcelo Santos da RS diz que não, porque a consciência dos sambistas hoje já não é mais a mesma como antigamente.

Medo mesmo a gente não tem porque agora a consciência critica de conteúdo dos sambistas é outra. Já não é mais só os sambistas que vêm da comunidade, hoje a gente já tem uma outra consciência. A gente estudou, tá consciente dos nossos direitos e não vai permitir que isso aconteça, mas de fato, atos isolados, atos sistemáticos, na verdade conservadores, tendem pra isso” e conclui “Se a gente fica calado é isso que os caras querem, o que os governantes querem e isso não vamos aturar, não vamos aceitar”. As palavras de Marcelo nos dão confiança de que mesmo passando por tempos difíceis o samba não vai acabar tão cedo no Rio de Janeiro, continuando a contagiar a cidade e o povo carioca. No entanto temos que ficar atentos, pois como o escritor alemão, ganhador do prêmio Nobel de literatura e patrono da Fundação, Heinrich Böll, já disse: “Uma liberdade não usada, fenece...”.

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[1] Alves, Chico 2016: Perseguido por décadas, o samba chega ao centenário amado pelos brasileiros, disponível em: http://odia.ig.com.br/diversao/2016-11-27/perseguido-por-decadas-o-samba-chega-ao-centenario-amado-pelos-brasileiros.html, acesso em 01.11.17

[2] Para mais informações vide o site da Rede Carioca de Rodas de Samba: http://vempraroda.org/

[3] Grand, João Junior 2017: CULTURA, CRIATIVIDADE E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, disponível em: https://daks2k3a4ib2z.cloudfront.net/582c3ac6a056558a78686b58/59b056f95c152e00011b06a3_Tese%20de%20Doutorado%20-%20Joa%CC%83o%20GRAND%20JR.%20(PPGG-UFRJ)%20(1).pdf, acesso em 01.11.17

[4] Grand, João Junior 2017: CULTURA, CRIATIVIDADE E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, disponível em: https://daks2k3a4ib2z.cloudfront.net/582c3ac6a056558a78686b58/59b056f95c152e00011b06a3_Tese%20de%20Doutorado%20-%20Joa%CC%83o%20GRAND%20JR.%20(PPGG-UFRJ)%20(1).pdf, acesso em 01.11.17

[5] Grand, João Junior 2017: CULTURA, CRIATIVIDADE E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, disponível em: https://daks2k3a4ib2z.cloudfront.net/582c3ac6a056558a78686b58/59b056f95c152e00011b06a3_Tese%20de%20Doutorado%20-%20Joa%CC%83o%20GRAND%20JR.%20(PPGG-UFRJ)%20(1).pdf  acesso no. 01.11.

[6] Magalhes, Marina Inez 2017: Polícia militar impede realização da roda de samba pede Teresa, disponível em: http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-07-29/policia-militar-impede-realizacao-da-roda-de-samba-pede-teresa.html, acesso em 01.11.17

[7] Vide rodapé 6.

[8] Lang, Marina,2017: Ocupar ou não ocupar: Rodas de samba e eventos de rua enfrentam restrições no Rio, disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/11/03/ocupar-ou-nao-ocupar-rodas-de-samba-e-eventos-de-rua-enfrentam-proibicoes-no-rio.htm, acesso em 23.11.17.

[9] Para mais informações sobre o conceito do direito a cidade vide: http://rioonwatch.org.br/?p=7921

[10] Pennafort, Roberta 2017: 'Estão descartando o Carnaval' lamenta organizadora de blocos no rio, disponível em  http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,estao-descartando-o-carnaval-lamenta-organizadora-de-blocos-no-rio,70001881562, acesso em 01.11.2017.

[11] Alfano, Bruno & Navarro Lins, Marina: Monarco manda recado para Crivella:“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”, disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/monarco-manda-recado-para-crivella-quem-nao-gosta-de-samba-bom-sujeito-nao-e-21498237.html,  acesso em 01.11.2017

[12] Ouchana, Giselle 2017: Após longa espera, chave da cidade é entregue na Sapucaí, sem a presença de Crivella, disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/carnaval/2017/apos-longa-espera-chave-da-cidade-entregue-na-sapucai-sem-presenca-de-crivella-20979418, acesso em 01.11.2017

[13]Crivella, Marcelo 2017: OFÍCIO GP nº 117/CMRJ Em 11 de outubro de 2017, disponível em: http://mail.camara.rj.gov.br/APL/Legislativos/scpro1720.nsf/f6d54a9bf09ac233032579de006bfef6/2055f540963e707e832581bb00506d7f?OpenDocument, acesso em 13.11.2017

[14] Santos, Giselly 2017: Vereador transforma Câmara do Rio em templo evangélico, disponível em: http://www.leiaja.com/politica/2017/10/03/vereador-transforma-camara-do-rio-em-templo-evangelico/, acesso no 23.11.17

[15] Dias, Juan 2017: Perseguição silenciosa de Crivella a cultura negra impede samba da pedra do sal, disponível em: https://www.geledes.org.br/perseguicao-silenciosa-de-crivella-cultura-negra-impede-samba-da-pedra-do-sal/ acesso em 13.11.2017

[16] Alfano, Bruno, Navarro Lins, Marina 2017: Monarco manda Recado para Crivella: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”, disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/monarco-manda-recado-para-crivella-quem-nao-gosta-de-samba-bom-sujeito-nao-e-21498237.html,  acesso em 10.11.2017