“Há cálculo político nas afirmações de Crivella”, afirma Christina Vital, em entrevista

“Há cálculo político nas afirmações de Crivella”, afirma Christina Vital, em entrevista

Christina Vital concede entrevista à Fundação BöllCreator: Leandro Uchoas. Creative Commons License LogoEsta imagem está sob licença de Creative Commons.

Em março, foi lançado ”Religião e política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014“, uma parceria da Fundação Heinrich Böll com o Instituto de Estudos da Religião (Iser). O livro aborda os projetos políticos dos setores evangélicos neopentecostais no Brasil. Gira em torno, especialmente, de uma investigação sobre como estes setores se organizaram nas eleições a presidente e governador do Rio em 2014. De lá pra cá, o Brasil assistiu a um aparente crescimento de ideias conservadoras, com exemplos cotidianos de intolerância religiosa.

Christina Vital, co-autora do livro e professora do departamento de Sociologia da UFF, concedeu entrevista para a Fundação Böll sobre o cenário político atual após a eleição em 2016 no Rio de Janeiro de um prefeito oriundo da Igreja Universal do Reino de Deus, e um dos candidatos investigados no livro. Aborda também os projetos políticos desse segmento e a discussão sobre a laicidade do estado.

Böll Brasil: O prefeito do Rio de Janeiro tem estado envolvido em algumas polêmicas nos últimos meses, como a diminuição de recursos para o Carnaval, o questionário com pergunta sobre religião para os membros da Guarda Municipal, o cancelamento da exposição Queermuseu, entre outras. Muito se diz que sua motivação tem relação com seu pertencimento religioso, você concorda?

Christina Vital: Mais importante do que a vinculação religiosa de Crivella é o cálculo político em todas estas ações. Quando o prefeito diz que neste momento de crise vai reorganizar a disponibilização de recursos para as Escolas de Samba, que a LIESA precisa ser mais transparente e que vai usar parte dos recursos que eram anteriormente ali investidos para abrir creches não se trata de agir conforme crenças religiosas, mas conforme interesses políticos. Quando o prefeito diz que a exposição Queermuseu só vai ser exposta no Rio se for no fundo do mar – fazendo referência à inviabilidade de sua vinda para o Museu de Arte do Rio (MAR) – está agindo com base em cálculo político. Nestas e em outras várias situações o prefeito sabe distinguir o que é a grande mídia, a classe artística e os chamados formadores de opinião (que formam a opinião de uma parte da camada média e alta) e o que uma maioria da população formada por evangélicos e não evangélicos, mas que se sente representada por estas ações que são apresentadas por Crivella como não demagógicas, como uma forma de cuidado e atenção com a população carioca. Não importa exatamente o que cada analista acha em termos de Crivella agir ou não motivado pela religião. Esta é uma falsa questão que obstrui o diálogo e a análise do que vem ocorrendo.

Em termos mais gerais, havia ao menos duas percepções ou expectativas sobre o que seria a gestão de Crivella. Alguns acreditavam que ele faria uma administração modelo justamente para alçar voos mais altos em nome próprio, da IURD e também dos evangélicos no Brasil que viram nesta chance uma oportunidade fundamental para mostrar do que são capazes em uma prefeitura que é vitrine para o país e o projeta internacionalmente. Outra perspectiva previa perseguições a minorias, aumento da intolerância religiosa,  privilégio explícito da Igreja Universal do Reino de Deus, de modo específico, e dos evangélicos, de modo mais geral, na interlocução e em termos também materiais. Até agora o que a mídia vem cobrindo aponta mais para a segunda previsão em relação à gestão.

Embora Crivella tenha expedido 80 decretos logo no início de sua gestão que apontavam para uma tentativa de “organização da casa” e um privilégio da saúde e da educação, o incentivo à cultura com a municipalização de espaços tão importantes para a cidade quanto o MIS – Museu da Imagem e do Som; Teatro Municipal e Maracanã para serem geridos por parcerias público privadas, redução de secretarias e de cargos comissionados, a municipalização de UPAS, as polêmicas em torno de questões que evidenciaram seu traço religioso ganham grande repercussão e só com pesquisas podemos saber o que está acontecendo na prefeitura. Com a grande mídia não dá. Há uma grande indisponibilidade em relação a Crivella e à IURD. Em um momento público crítico como o que estamos passando, foi terrível ele ter assumido a prefeitura. À intolerância em relação às religiões de modo geral (e aos evangélicos, em especial) e também à esquerda fazia dos dois candidatos que disputavam o segundo turno das eleições municipais em 2016 quadros com grande rejeição (uns mais na mídia e em setores médios e altos, outro nas camadas populares e altas, se podemos dizer assim a grosso modo) e com potencial de tornar a gestão uma ferida sangrando do início ao final do pleito.

A despeito das dificuldades financeiras pelas quais o município está passando e dos investimentos ainda tímidos, mas existentes na área de educação e saúde, devemos chamar atenção e criticar veementemente a censura e desqualificação das artes. Em vários momentos da história as artes e os artistas sofreram represálias. E quanto mais ditatorial a postura do gestor e o modo de governo, mais censuras foram feitas. É como se a desqualificação das artes fosse sintomática do gradiente negativo da democracia em cada lugar. As pessoas devem ter suas liberdades garantidas. A de gostar ou de não gostar de uma manifestação artística. Sou absolutamente contra uma postura elitista e histriônica que diz que não gostar de algumas manifestações artísticas é o mesmo que não ser culto, não ter “gosto” ou ser preconceituoso, intolerante. Por outro lado, é intolerável a censura às artes em nome de uma (suposta) maioria carioca que não quer isso aqui (tal como disse Crivella ao se referir ao Queermuseu). Um bom gestor público deve ser incentivador da diversidade artística, sobretudo em uma cidade que se apresenta (ou se pretende) como globalizada.

Enfim, está difícil relativizar nestes períodos de tanta efervescência, mas também não devemos ceder irrefletidamente aos ódios e medos que gravitam como sentimentos públicos dominantes.

Böll Brasil: O prefeito Marcelo Crivella se manifestou contrário à exposição Queermuseu e logo depois o Conmar (Conselho Municipal do Museu de Arte do Rio) a cancelou. O crescimento do conservadorismo religioso no Brasil, e em especial ligado aos evangélicos, pode ter sido um fator preponderante para isso?

Christina Vital: Como salientei acima, há muito cálculo político de Crivella em várias afirmações. Há uma condição de possibilidade social para a emergência de discursos direcionados à preservação de padrões morais em (suposto) declínio. E aqui não estão nem todos os evangélicos (a diversidade nisto que tratamos como evangélicos no Brasil é muito grande. Por exemplo, há quase 1.500 denominações evangélicas no país. Muitas delas com grande autonomia em relação ao grupo, o que possibilita desde comportamentos públicos bastante progressistas, assim como há uma massa que pode ser identificada como conservadora, mas que também é em si diversa, além dos extremistas – como no caso de alguns líderes midiáticos e políticos com grande repercussão) e nem mesmo só religiosos ativos. Em várias oportunidades têm-se debatido sobre o caráter conservador da sociedade brasileira (mesmo depois de estabelecida a República no país) e mesmo da maior parte das sociedades americanas. Destacaria hoje uma diferença em relação a outros momentos da nossa recente história republicana: a ostensividade e capilaridade dos discursos intolerantes em relação a qualquer comportamento que seja diferente de uma certa referência do que seja família, sexualidade, escola. Trata-se de pessoas e grupos inteiros que se mobilizam e se apresentam nas redes sociais e mesmo na TV aberta fortalecendo seu capital político e social via defesa de comportamentos sociais que não contemplam a diversidade do que é a sociedade hoje, de demandas por direitos e reconhecimento. E quando falamos de direitos não estamos falando de abstrações, estamos falando da vida das pessoas.

Böll Brasil: Em seu livro ”Religião e política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014“, vocês apontam que o perfil das lideranças evangélicas é liberal conservador. O que isso pode significar para as políticas públicas implantadas por esses políticos?

Christina Vital: Tomando ainda o caso do Rio de Janeiro para pensar, observamos que o prefeito Crivella tem buscado incessantemente incrementar a gestão com parcerias público-privadas. Tem ido ao exterior, já foram três viagens oficiais, buscar financiamentos de grupos empresariais fortes. A exploração imobiliária é uma das vias que tem mais apelo. No Brasil há grande rejeição ao que se identifica como pauta liberal em termos econômicos. E esta rejeição não é identificada somente entre religiosos ou entre pessoas de classe social mais baixa como se costuma (preconceituosamente) pensar. É um pensamento difuso em nossa sociedade. Crivella, como outros políticos, se apresentam como gestores potentes, técnicos, que “cuidam das pessoas” (slogan, inclusive, da campanha e também da prefeitura da cidade), mas atuam de modo a privilegiar setores empresariais nem sempre tão produtivos e benéficos para a economia nacional. Têm um tipo de ação em favor de seus grupos de interesse de origem (muitos do empresariado urbano de comunicações, segurança, de importação e exportação, fora empresários rurais).  Para a decepção de muitos dos fieis, evangélicos seja no Congresso Nacional, seja nas administrações públicas municipais têm um comportamento que não se diferencia em nada do comportamento médio de políticos corruptos e entreguistas brasileiros. Inclusive no que tange à área de cultura. A Casa Daros, em Botafogo – Rio de Janeiro, fechou as portas por falta de apoio público e também do empresariado. Uma carta de benfeitores internacionais das artes conclamava o empresariado nacional a ter uma postura mais voltada ao engrandecimento da nação, não somente de seus lucros e também aos gestores que tomavam conta de casarões transformando-os em repartições públicas inacessíveis à população.

Böll Brasil: Em muitos municípios do Brasil hoje há cultos religiosos dentro das dependências de prédios públicos, como câmaras e repartições. Isso fere o estado laico?

Christina Vital: Certamente. Mas isso já se institucionalizou de tal forma que a briga de alguns grupos religiosos é por garantir o direito também para si ao invés de questioná-lo. Não porque estejam todos atrás de seu quinhão, mas porque uma intensa militância se apresenta sem que tenha resultado efetivo. E contra a militância pela garantia da laicidade do Estado vem a opinião popular (74% da população) majoritariamente favorável à religião na escola pública, por exemplo. O que fazer então? É preciso afirmar a laicidade do Estado, mas entender que ela não é a tábua de salvação para a onda de restrição de direitos no Brasil. Lembrando que esta restrição de direitos não afeta somente a população LGBT, negros, mulheres. Estamos falando de medidas que afetam negativamente à população de um modo muito mais geral quando, por exemplo, o Estado brasileiro restringe bolsas de estudo, de pesquisa, vagas nas universidades públicas etc.

Böll Brasil: Do ponto de vista eleitoral, como você acha que os projetos dos setores neopentecostais vão se organizar para 2018? Nos referimos, especialmente, às eleições de presidente e governador do Rio.

Christina Vital: Se em 2014 acompanhamos a primeira candidatura confessional evangélica à presidência da República, mas que saiu sem capacidade de articulação com a maior parte da base evangélica nacional (grandes associações e líderes se reuniram em torno das campanhas de Dilma Rousseff e de Aécio Neves) e mesmo partidária (PSC lançou candidatura própria), 2018 promete ser diferente. A articulação da base evangélica no Congresso Nacional e na sociedade de modo mais geral deve ocorrer privilegiando uma candidatura confessional e talvez outra não. Crivella diz não sair candidato ao governo do estado, mas seu nome saiu bem cotado em pesquisa recente. Novamente cálculos políticos vão nortear essas escolhas. O instituto Paraná Pesquisas realizou levantamento de opinião em julho e na disputa, o prefeito Crivella (PRB) teria 27,8%, Romário (senador pelo Podemos) 14% e o ex-prefeito Eduardo Paes (PMDB), 9%.Bernardinho (Partido Novo) ficaria com 7,7% das intenções de voto, à frente ainda de Índio da Costa, com 5,7%, nome apoiado por Crivella para concorrer às eleições estaduais.

O prefeito Crivella tem aparecido na mídia preocupado com a imagem do Rio (para angariar recursos de investidores estrangeiros a imagem negativa do Rio é um forte limitador) e também de sua gestão. Para isso vem revendo os planos de marketing da prefeitura.

Mas é preciso aguardar. A intensidade de tensões e mudanças no cenário político nacional e estadual é muito grande gerando instabilidade. No ano que vem, e após vermos o vencedor de algumas quedas de braço como nos casos de Lula, Temer e Aécio, teremos melhores condições de avaliar o cenário eleitoral.

 

Assista à entrevista de Christina Vital, em março, sobre o livro ”Religião e política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014“.

Assista à entrevista de Christina Vital ao programa Em Questão, da FaseTV.

Christina Vital também deu entrevista à Folha de S. Paulo.

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