Mulheres olímpicas: direitos violados e empoderamento

Mulheres olímpicas: direitos violados e empoderamento

Edineida Freire, Rosângela Passos e Nelma Gusmão: mulheres olímpicas. Creator: Keila Schmitz. Creative Commons License LogoEsta imagem está sobre licença de Creative Commons License.

Na semana de abertura dos Jogos Olímpicos, a Fundação Heinrich Böll Brasil lançou a publicação “Saltando Obstáculos: a Mulher no Espetáculo Esportivo”, de Nelma Gusmão de Oliveira. Os livretos foram distribuídos na Jornada de Lutas dos Jogos da Exclusão, organizado pelo Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, com atividades autogestionadas de cultura, debates e cobertura jornalística. Na mesa de debate estiveram pesquisadores, jornalistas, atletas e especialistas no tema do direito à cidade e megaeventos. Junto de Nelma, estavam também Edineida Freire, educadora do Movimento dos Sem Teto do Atletismo e Rosângela Passos, moradora da região do Maracanã e usuária do hoje fechado Parque Aquático Julio de Lamare.

Para Nelma Gusmão, doutora pelo IPPUR-UFRJ e autora da publicação “Saltando Obstáculos: a Mulher no Espetáculo Esportivo”,  a comemoração da escolha do Brasil como sede olímpica de 2016, em Atenas, refletiu um projeto hegemônico que já antevia violação de direitos e a criação de núcleos de privilégio. Segundo ela, o Rio das Olimpíadas é planejado com a lógica de mercado: “Para que a cidade recebesse os jogos, diversas mudanças estruturais deveriam ser feitas. As grandes instituições impuseram interesses à estrutura jurídica do país e aí criou-se uma cidade de exceções”.

A educadora e atleta Edineida Freire, que faz parte do Movimento dos Sem Teto do Atletismo, concorda que as violações de direitos foram em prol de um projeto excludente de cidade. Ela era treinadora no Estádio de Atletismo Célio de Barros, que funcionava como um centro de atletismo para crianças, jovens e adultos de baixa renda: “A gente recebia crianças de todo o Brasil. Era um equipamento de inclusão social. Para muitos era a primeira porta. Para outros, era a última”. O centro foi fechado no dia 9 de agosto de 2013 sem nenhum tipo de aviso prévio ou comunicação oficial. Ela conta ainda que o improviso foi necessário para que os treinamentos continuassem: “Depois de quatro meses treinando em praças e em rampas de metrôs, fomos alocados no Engenhão. Mas o Engenhão não serve para a gente”.

Rosângela Passos é moradora da região do Maracanã e fazia uso do Parque Aquático Júlio de Lamare. Assim como o Estádio de Atletismo Célio de Barros, o lugar foi fechado durante os preparativos para a Copa do Mundo. Segundo ela,  a cidade de exceção também seleciona as pessoas que deteriam informação sobre o processo de construção do Rio de Janeiro dos megaeventos: “O sentimento é de revolta. O governo embolsou o dinheiro e não fez nada. Ao invés de construírem novos prédios, destruíram o que funcionava. Além disso, não temos acesso transparente às informações”.

No que tange à igualdade de gênero, Nelma Gusmão afirma que, para as mulheres, falar em direitos é ainda mais difícil. Segundo a pesquisadora, “a mulher se empodera através do esporte e isso tornou-se uma questão para as grandes instituições esportivas”. A autora evidenciou o fato de que a história mostra que o COI nunca se interessou pela inclusão das mulheres e sua posição sempre foi de exclusão, mais do que de participação das mulheres em posições administrativas importantes. Nelma evidencia que o debate das mulheres no espetáculo esportivo é necessário, pois quando se fala em igualdade de gêneros, se afirma também a necessidade de empoderamento feminino: “apesar das transgressões, a mulher só conseguiu participar do COI em 1981 e até 2000 as mulheres tinham que provar que eram mulheres com um exame fotográfico para confirmarem que suas genitálias eram biologicamente dadas como femininas”.

Nelma não acredita que a igualdade de gêneros seja um legado dos jogos. Para ela, “o legado é uma invenção de dez anos atrás que surge apenas para diferenciar orçamentos e pontuar o que resulta dos jogos”. Gusmão explica que o capital simbólico dos valores vendidos pelas Olimpíadas, como a união entre os povos, igualdade, fraternidade e paz são vendidos como capital econômico e, segundo a pesquisadora, “as cidades se submetem a isso pelo interesse em justificar que qualquer coisa é passível de ser feita”.

Para fazer o download da publicação Saltando Obstáculos: a Mulher no Espetáculo Esportivo clique aqui.

Para solicitar uma cópia física, envie um e-mail para info@br.boell.org.

 

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