Anápuáka Muniz Tupinambá fala em entrevista sobre a inclusão digital nas comunidades indígenas

Anápuáka Muniz Tupinambá fala em entrevista sobre a inclusão digital nas comunidades indígenas

Ambivalências Digitais: potencializando a democracia, controlando os cidadãos
Anápuáka Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe um dos palestrantes do evento "Ambivalências Digitais" — Créditos da imagem

Hoje a militância conectada nas redes da internet tem capacidade de ultrapassar o mundo virtual e impactar a realidade dos povos indígenas na luta pela garantia dos seus direitos. É o que acredita Anápuáka Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe, um dos coordenadores do Grupo RAHIS Raízes Históricas Indígenas e da Rádio Yandê, ex Coordenador Geral da Web Brasil Indígena e TIC e Agente Cultural Indígena. 
A Fundação Heinrich Böll conversou com Anápuaká sobre a inclusão digital nas comunidades indígenas e sobre a transformação que a tecnologia faz na realidade delas.
Ele foi um dos participantes da mesa Mundo digital e a sociedade civil: possibilidades e desafios formada no evento ”Ambivalências Digitais” produzido pela Fundação Heinrich Böll Brasil.
Na ocasião Anápuáka enfatizou a importância da criação das rádios comunitárias que possibilitem que os indígenas falem por eles mesmos.

Confira abaixo a entrevista:

HBS: Ao longo dos últimos governos, houve diversas iniciativas, tanto de política pública quanto da sociedade civil, para fomentar a inclusão digital nas comunidades indígenas. Como está isso hoje? 
Anápuáka: Se a gente pensar no tempo de produção de tecnologia existente nas aldeias indígenas, tiveram avanços e retrocessos. Tivemos avanços porque as tecnologias chegaram às aldeias e retrocessos porque era utilizado o sistema de internet fracionado. O sistema Gesac, criado para atender as aldeias, nunca foi muito funcional e por isso, gerava outro isolamento, levando o indígena a buscar, a partir do smartphone, a utilização autônoma da internet, já que as políticas públicas não deram conta. Os centros de tecnologia eram bons, mas a velocidade da internet não era tão boa. Houve abandono de manutenção e a falta de uma política de incentivo aos indígenas ou de qualquer outra população tradicional. Os indígenas conseguiram ter contato com lan houses, o que acabou sendo uma das soluções para esta questão. Os pontos de cultura funcionaram a princípio, durante o primeiro governo Lula, depois pararam de funcionar. As políticas não avançaram e cada um teve que se virar da melhor forma para continuar conectado. Inclusão não é apenas colocar um indígena na frente de um computador. Não adianta investir milhões em uma tecnologia que não vai ser aceita. É preciso respeitar a diversidade, o tempo, a cultura, sua língua, para poder apresentar a proposta. 

HBS: Diversas causas indígenas ganham corpo nas redes sociais, como o caso dos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso, ou a campanha contra a PEC 251, que passa a demarcação de terras para o poder legislativo. Até que ponto essas ações conseguem ultrapassar o campo do virtual e transformar a realidade dos povos indígenas?

Anápuáka: A primeira campanha, que foi “Eu sou Guarani Kaiowá”, realizada em 2012, 2013 começou comigo, Denilson Banila e Teresa Dantas. Nós tivemos essa ideia em um primeiro momento e, em três horas, a gente já não tinha controle de mais nada. Foram produzidos diversos eventos por todo o Brasil. A gente acabou acompanhando. Num primeiro momento, a gente conseguiu mobilizar tanta gente que acabou gerando um problema para o próprio Facebook na época, que dizia que não podia fazer alteração de nome. As pessoas ficaram com o nome preso, até hoje são Guarani Kaiowá, porque não conseguiram mudar. Naquele momento, a questão do suicídio chamou a atenção mundial. As mídias internacionais são muito mais atentas às nossas ações do que a mídia nacional de massa, que tem algumas deficiências, cometendo sempre os mesmos erros antropológicos, atuando sem nenhum tipo de sensibilidade ao que é social, tratando a comunicação apenas como comércio e não de acordo como as necessidades do ser humano. Depois disso, sugiram outras campanhas, a PEC 215, que aí sim ultrapassaram barreiras, mexeram com a ONU, a UNESCO, a Anistia Internacional, jornais internacionais, mas ao chegar na mídia nacional, todos os movimentos foram de alguma forma deturpados, por causa dos vínculos de mídia política, partidária, que acabam atendendo às necessidades da bancada ruralista, da bancada evangélica, as bancadas que violam os direitos garantidos pela Constituição aos povos indígenas e originários. Então, quando esse tipo de situação acontece e vemos a sociedade civil, não só indígena, sendo afetada emocionalmente e tomando decisões políticas por conta disso, nos damos conta de que a rede social modifica sim.

                                       

HBS: Ainda pensando na internet como ferramenta para a garantia de direitos, você acredita que ela está contribuindo para mudar essa visão estereotipada das comunidades tradicionais?

Anápuáka: Eu acho que a internet, de alguma forma, conseguiu potencializar a ignorância e a estupidez para alguns, porque ela trouxe a capacidade de colocarem ódio e racismo de forma explícita dando margem a punições com maior facilidade.  Várias vezes eu vejo comentários racistas como: “o indígena na internet não é mais índio.” Quanto à falácia de “muita terra para pouco índio”, para que tanta terra para pouco ruralista? Para produzir o que? Destruir as terras, as nascentes, os mananciais de água do país? Aí dizem: “Ah, mas o indígena fazia isso”. A diferença é que ele tinha o controle disso, de pequenos espaços. A gente precisa de reparações. Para mudar, a gente coloca nossa cara no Sol. Desde a Constituição, você não vê as populações indígenas recuando. A gente é o tempo todo atacado, e em nenhum momento deixa de lutar por causa disso. Quando se fala de internet, a gente luta por esse espaço. Qualquer movimento contra a internet é uma luta contra nós, porque ela faz parte da nossa luta. 

HBS: O PL Espião [(PL 215/2015)], por exemplo, potencializa muito a criminalização dos ativistas.
Anápuáka: Sim, a gente já não tem liberdade. Eu me sinto monitorado o tempo todo. Tem coisas que eu não converso mais pela internet. Não me sinto seguro. Já tive minha máquina violada, já encontrei conversas minhas gravadas dentro do meu próprio computador, que eu achava que era seguro. 

HBS: Você é um grande defensor do software livre há muitos anos. Como podemos disseminar o uso desses softwares em uma rede com as grandes corporações de mídia digital, como o Facebook tão presentes? 
Anápuáka:
Nós fomos doutrinados pelo comércio, pelo capital para que o nosso primeiro computador seja de sistema operacional proprietário. Então, como eu levo esse proprietário para o software livre? Da seguinte forma: primeiro, o usuário não utiliza sistema operacional. Ele utiliza aplicativo. Se o computador ligar, funcionar, acessar a internet, para ele é indiferente. Então, se você pegar todos esses aplicativos que rodam no Linux e doar no proprietário, vai funcionar e ele vai se acostumar. Para você chegar em um ponto em que a pessoa fique: “oh, eu amo software livre”, leva tempo, são etapas, não dá para fazer uma conversão mental nas pessoas de uma hora para outra.

HBS: Fale um pouco sobre a Rádio Yandê e o trabalho desenvolvido por vocês. 

Anápuáka: Chamamos de grupo de comunicação, por ela ter um Twitter, Facebook, Youtube, um site e nosso streaming. Muitos falam: “ah, isso todo mundo tem”. Mas tratar como um canal de comunicação, muitos não tratam. Tem produto que vai para o Twitter que não vai para o Facebook,. Existem três correspondentes, que a gente fala que é um estágio muito superior ao colaborador, porque neste cargo ele chega a um ponto de construir suas pautas, incentivar a rede, enfim, ter uma responsabilidade total. E nós temos também um grupo de mais de 60 colaboradores no Whatsapp. São indígenas, de várias etnias, que estão no grupo pautando assuntos. Nem tudo na Yandê a gente absorve, mas funciona como banco de pauta. Eles chegam com informações e em alguns casos uma complementa a outra. A gente reúne isso e avalia se vale a pena divulgar. Tem coisas que por política interna de aldeia acaba não indo para fora da rede, mas também serve para a gente refletir sobre como está a política local. A gente está o tempo todo fazendo uma análise crítica e relembrando a importância de respeitar a diversidade. Não é um jornalismo de Comunicação Social tradicional, como uma formação de universidade normalmente faz. A gente mostra para eles o respeito à diversidade e como é possível produzir conteúdo com ferramentas que a gente tenha no dia a dia. A proposta da gente é criar outras emissoras de rádio pelo país e, por canais de captação, fomentar mídias locais visando um futuro legal para esses grupos, para que suas aldeias tenham mídias fortes. A Yandê não tem nenhuma intenção de ser a mídia central do país. A gente quer que existam várias mídias com dinâmica de falas. Os nossos produtos normalmente visam mostrar o que os outros não mostram.

 

 

 

 

 

 

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