Desafio da sociedade civil na era digital é "multiplicar o upload", afirma Eduardo Alves

Desafio da sociedade civil na era digital é "multiplicar o upload", afirma Eduardo Alves

Eduardo Alves
Diretor do Observatório de Favelas sublinha a necessidade de a sociedade civil superar o cunho denuncista que caracteriza a disputa por hegemonia, em prol de uma postura propositiva — Créditos da imagem

­­HBS entrevista Eduardo Alves, diretor do Observatório de Favelas

A possibilidade de difusão barata e instantânea de mensagens a públicos amplos faz da internet uma ferramenta poderosa na luta pela diversificação dos produtores de significados e, consequentemente, pelo fortalecimento da democracia. Contudo, à medida que as assimetrias de poder observadas no “mundo real” se reproduzem nas redes, nascem novos desafios: agora todas as pessoas podem falar, porém poucas conseguem ser ouvidas.

Ao mesmo tempo, os usuários são também ameaçados pelo acúmulo de seus dados pessoais por parte de grandes corporações e governos, que podem usar a internet como meio de intensificar a vigilância e aprofundar o controle sobre os cidadãos. Em entrevista à Fundação Heinrich Böll Brasil, Eduardo Alves, do Observatório de Favelas, fala sobre esse caráter ambivalente das mídias digitais, tema do evento de 15 anos da Fundação, e sobre os desafios do uso das redes para a disputa por hegemonia, sublinhando a necessidade de a sociedade civil superar o cunho denuncista que caracteriza essa disputa, em prol de uma postura propositiva.

Eduardo Alves é Cientista Social, diretor do Observatório de Favelas e coordenador da ESPOCC.

HBS: A Fundação está organizando o evento Ambivalências Digitais: potencializando a democracia, controlando @s cidad@os. Você acredita que essa ambivalência existe no mundo da internet?

Eduardo: Existe em qualquer sociedade com Estado, instituição voltada para o controle. Assim como existem instituições nas quais a disputa por hegemonia entre controle e democracia é significativa. As novas tecnologias da informática e da internet não são voltadas para o controle ou para a democracia. Essa é uma disputa em curso, que possibilita que os dois procedimentos sejam praticados como jamais foram, em uma velocidade e abrangência de escalas jamais vistas. Essa ambivalência é limitada, há multiplicidades de interesses, de concepções, de projetos, de estéticas, etc. O Estado sempre contou com força de controle com as tecnologias em disposição: controlava navegações, correios, viagens de trem, voos e o que interessasse. Assim como toda tecnologia poderia ser usada em nome de conquistas de direitos e avanços democráticos. Hoje não é diferente nesse caso, mas absolutamente diferente com a tecnologia atual que apresenta um território recheado de culturas, repertórios e estéticas contemporâneas.

Portanto, não vejo na “ambivalência” entre democracia e controle o elemento central da tecnologia que permitiu construir o que se chama de internet no século XXI. O destaque está na criação de um novo território no qual a cultura se multiplica em uma velocidade jamais vista e a mobilidade simbólica toma centralidade, com força de mudanças de hábitos, estéticas, pensamentos, sentimentos e políticas. Nesse território, tudo foi ultrapassado em todos os sentidos. E deve-se registrar que, como qualquer território, o que o caracteriza como tal são as ações, relações, práticas, conexões de homens e mulheres, e não um espaço “geográfico” ou uma “arquitetura fixa”. Mas, no caso da internet – que muito tem para avançar; na qual em pouco tempo Facebooks e WhatsApps darão adeus – a velocidade e seu peso na humanidade são algo de uma potência absolutamente contemporânea. Não existe diferença entre “realidade virtual” e “realidade real”. A realidade encontrará o real no infinito e, nesse caminho, pode se aproximar ou se afastar mais do real, o por assim ser, não foi racionalizado; é “desconhecido”. E agora que estamos no tempo das narrativas e dos personagens, com uma potência jamais vista, a realidade se altera ainda mais rapidamente. Se essa ambivalência for no plural e não necessariamente de dois polos contrários, trata-se de um termo ótimo para a internet, ambivalente, com polos diversos, contrários ou não, apenas múltiplos e diferentes.

HBS: Em 2011, o Grupo Globo definiu suas diretrizes editoriais em um documento em que se lia que “Com a consolidação da Era Digital, em que o indivíduo isolado tem facilmente acesso a uma audiência potencialmente ampla para divulgar o que quer que seja, nota-se certa confusão entre o que é ou não jornalismo, quem é ou não jornalista, como se deve ou não proceder quando se tem em mente produzir informação de qualidade”. Como comunicador popular, qual sua visão sobre essa afirmação e o contexto em que ela é feita?

Eduardo: Cada narrativa responde a um projeto, um objetivo, uma cultura, que estão sempre em disputa no território. O grupo Globo defender a ideia, em 2011, de que aquilo que é feito na rede não é jornalismo, mas que por parte do grupo Globo há jornalismo de sobra, já é uma demonstração da importância dos uploads. E isso foi antes das movimentações de 2013, por meio das quais a Mídia Ninja e outros coletivos apareceram com mais visibilidade, disputando os tais jornalismos “oficiais”.

Arrisco que entre os desafios que temos pela frente, um deles, sem dúvida, é fazer crescer o upload. É mais que importante colher os repertórios e superar plantando-os. A multiplicação do upload, das variadas redes, das diversas conexões, precisa chegar com a potência da disputa mais profunda da cultura. Uma disputa de hegemonia em todos os sentidos, pois está colocado o desafio de cultivar e criar um desejo de consumo por conquistas e não apenas por mercadorias. Chamem como quiser, mas com o jornalismo da Globo, vamos seguir fazendo outros jornalismos possíveis e uma potente social mídia. E, nesse cenário, o que a TV, por exemplo, seguirá fazendo é divulgar o download para levar os “mais baixados” para lá.

HBS: As mídias digitais possibilitam que cada vez mais pessoas assumam o papel de produtores, difundindo informações a baixo custo e de maneira quase imediata. Entretanto, os 51% dos brasileiros que ainda não acessam a internet não conseguem criar ou acompanhar o conteúdo produzido nelas. Além disso, ocorre no espaço virtual uma reprodução das assimetrias do poder midiático – o Globo.com, por exemplo, foi o quarto site mais acessado pelos brasileiros, segundo resultados publicados em fevereiro de 2014. Pensando na internet como um campo de intensificação de disputas narrativas, de que forma podemos potencializar as novas oportunidades e, ao mesmo tempo, enfrentar os desafios da concentração midiática e da exclusão digital?

Eduardo: Como podemos ver, o grupo Globo é tão importante que, em quatro questões dessa pequena entrevista, ele aparece duas vezes. Claro que só algo importante teria tanto espaço. Quando assumirmos que a disputa pela comunicação é mais do que a superação dos oligopólios e monopólios na realidade atual e iniciarmos uma ação de mais upload, pode ser que a correlação de forças comece a sofrer alterações significativas. Trocando em miúdos, quanto mais Hackthons e Uploads, melhor ainda se feitos em uma organização de publicidade afirmativa, mais vamos alterando essas condições. Essa estética denuncista que ainda toma a sociedade civil precisa ser superada por uma visão propositiva, apontando caminhos, realizando e contribuindo para suplantar a visão estadocêntrica ainda hegemônica. Mesmo porque a estética denuncista também é praticada progressivamente pela chamada “mídia formal”.

Já há hoje vários exemplos de ações no campo da comunicação e da mídia em geral que buscam ampliar o protagonismo de narrativas alternativas. O primeiro passo da vida dos downloads foi a possibilidade de novos espectadores. Não aqueles da TV que tinham programações e canais fixos, inclusive em horários fixos. Foi possível misturar canais, alterar programações, estabelecer novos tempos, e tudo isso já foi um grande avanço frente ao que era o espectador da TV. O espectador da internet foi se colocando mais ativo frente às escolhas e à organização dos repertórios e das apresentações das narrativas. Agora, por sua vez, o desafio está justamente em multiplicar o upload em todos os sentidos, inclusive avançando para constituir uma arquitetura livre dos vários pontos de conexão e as diversas redes possíveis de serem construídas. Esse repertório já existe, então é hora de avançar para além do gratuito e navegar no livre (o livre é sempre maior do que o “gratuito”).

HBS: Em 2012, a ESPOCC criou o primeiro curso de Publicidade Afirmativa do país, que inclui uma habilitação em Criação Digital. Qual a importância da capacitação dos comunicadores populares, especialmente no meio digital?
Eduardo: Todo conhecimento técnico na ESPOCC – Escola Popular de Comunicação Crítica – articula repertórios do chamado mundo digital. A Escola, que tem dois cursos, audiovisual e criação digital, com 45 alunos(as) em cada, articula a cultura digital em sua totalidade. A cultura digital está no conhecimento necessário para interferir de forma protagonista na cultura das novas tecnologias do século XXI. A publicidade afirmativa é o ponto de apoio da narrativa que está em questão. Trata-se de uma publicidade voltada para estimular o consumo das conquistas e não apenas concentrada no tal consumo das mercadorias. O que queremos é que os comunicadores populares, os Espoccianos, disputem os espaços do mercado e da cultura na construção de potentes narrativas para alterar as condições que predominam na realidade atual. Trata-se da disputa pela hegemonia na cultura em todos os seus ambientes e territórios, tendo como ponto de apoio as periferias e favelas. Estamos construindo esse caminho e muito ainda há no que se avançar.

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