Entrevista do jornal O Globo com o professor Reinhard Loske

Entrevista do jornal O Globo com o professor Reinhard Loske

Reinhard Loske na seção do jornal O Globo: 'Conte algo que não sei' — Créditos da imagem

Em entrevista para o jornal O Globo, o professor Reinhard Loske, de passagem pelo Brasil a convite da Fundação Heinrich Böll para uma série de debates, fala sobre economia do compartilhamento e sociedade pós-crescimento, na seção 'Conte algo que não sei'.

Matéria publicada originalmente no site do O Globo.

Por Alexandre Rodrigues

“Nasci numa pequena cidade da Alemanha em 1959. Até o final dos anos 1990 dediquei a vida a estudos de clima, ambiente e sustentabilidade. Em 1998 concorri ao Parlamento e tive sorte porque o Partido Verde integrava o poder. Participei de reformas como imposto verde e o programa de extinção da energia nuclear”

Conte algo que não sei.

Está em alta na Europa um movimento pelo “descrecimento” econômico, que é novo mas já é bem forte. Houve uma conferência internacional sobre isso outubro passado em Leipzig, com pessoas do mundo todo.

O que é exatamente?

Prefiro chamar de sociedade pós-crescimento. Prevê uma redução efetiva da produção e do consumo. Há limites para o crescimento do ponto de vista do meio ambiente, além dos aspectos cultural e econômico. Muitos já entendem que consumo além do necessário é mais sinal de doença social do que de uma sociedade desenvolvida.

Quais os sintomas?

As pessoas não vivem melhor, não são mais felizes. Pesquisas mostram um descasamento entre crescimento econômico e bem-estar. As finanças dos países indicam o PIB basicamente como produção e consumo, mas há efeitos colaterais que não são computados, como mudança climática e poluição, com impacto na saúde pública. Índices que deveriam entrar na conta com um sinal de menos. Hoje, se uma pessoa bate o carro numa árvore, é bom para o PIB porque ela vai ter que comprar um novo.

Por que esse movimento surge na Europa, que luta para retomar o crescimento?

Nos anos 1970, a mensagem era simples: se a humanidade continuar a poluir e multiplicar a demanda sobre fontes naturais, iremos ao colapso. Era uma visão pessimista. O debate atual na Alemanha, na Inglaterra e até nos EUA é mais otimista. Ele busca alternativas, como a economia de compartilhamento, que é baseada em coisas que todos usam, como carros, máquinas, dispositivos ou jardins. A ideia é: se você divide recursos precisará de menos coisas.

No Brasil, carro ainda é o sonho de muita gente. Dividir um faz alguém feliz?

Há uma mudança cultural, sobretudo entre os jovens. Eles querem usar coisas, não tê-las. Querem mobilidade, não um carro. Lidar com a terra, mas não com um jardim para cada um. Querem superar a competição da economia velha de quem tem a grama mais verde, e avançar com inteligência.

Sustentabilidade é assunto recorrente há décadas, mas o modelo não muda...

O sistema financeiro e os orçamentos públicos têm o crescimento como imperativo. Ou é ele, ou a certeza do colapso.

É mais fácil defender isso num país desenvolvido?

É possível substituir muita coisa por recursos renováveis e encontrar o equilíbrio certo. É claro que isso é mais difícil onde há mais pobreza. No entanto, há hoje uma classe consumidora global vivendo nos países ricos, mas também na China ou aqui, na Zona Sul do Rio. Temos ricos globalizados e pobres locais. Os ricos consomem igualmente em qualquer lugar do mundo. Eles têm a responsabilidade de promover o uso mais racional dos recursos para, ao mesmo tempo, garantir o básico aos pobres.

Problemas como crise de fornecimento de água em grandes cidades brasileiras podem levar a mudanças de atitude?

Se falta algo essencial, como água, as pessoas param para pensar. A catástrofe é catalizadora, mas é há que se ter alternativas. Quando não há saída, as crises não são suficientes para criar mudança. Por exemplo, olho para o sol do Rio, tenho medo de me queimar, mas penso no seu potencial. Vocês, contudo, parecem preferir as hidrelétricas e térmicas.

Matéria reproduzida do jornal O Globo

 

Reinhard Loske ainda fará palestras sobre o tema em São Paulo e em São Bernardo do Campo, sexta-feira, 27/02.
As inscrições para o evento em São Bernardo vão até quinta (26), aqui: http://migre.me/oJmz3. Não é necessário se inscrever para o evento de São Paulo.
Haverá transmissão on-line a partir das 9h, aqui no site da Fundação Heinrich Böll e no site da Fundação Perseu Abramo. Não perca!

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Dival G. Costa

É óbvio que o Sol como fonte energética pode substituir as térmicas,
desde que haja decisão política para tal. A verba recolhida dos corruptos já é um bom começo. Espero que os dirigentes políticos não criem ICMS sobre a energia solar.